A cidade alemã de Ernst May

A Alemanha resultante da Primeira Guerra Mundial era um país em frangalhos econômicos, uma situação que só viria a ser revertida após os anos vinte. Porém, uma série de elementos a colocaram também num contexto que permitiu muitas experimentações arquitetônicas, urbanísticas e com especial destaque para as iniciativas habitacionais.

As "siedlungen" alemãs: Roemerstadt (1927) e Westhausen (1930)
As “siedlungen” alemãs: Roemerstadt (1927) e Westhausen (1930)

De fato, aquele país produziu no período unidades habitacionais em uma escala tão grande que só seria vista em muitos outros países após a Segunda Guerra Mundial. E não era apenas um feito quantitativo, uma vez que o governo alemão conjugava essa produção com o teste de novas teorias para os programas habitacionais. Os exemplos de Berlim e Frankfurt traziam à realidade diversos ideais modernistas: controle urbanístico, industrialização e racionalização da construção, produção de habitação social, entre outros.É nesta época que entra em cena um dos nomes mais relevantes ao assunto em todos os tempos. Frankfurt convida Ernst May para a direção dos serviços de construção da cidade, assumindo um escopo de atividades muito amplo, desde a elaboração de planos urbanos gerais e de bairros de habitação social, até a direção da empresa municipal de construção.

Por sua vez, o município de Frankfurt também se prepara com os instrumentos necessários para o desenvolvimento urbano acelerado: adquire terrenos, elabora planos e projetos, apoia o desenvolvimento de indústrias de pré-fabricação de elementos construtivos, financia operações, estabelece uma política fundiária adequada a este desenvolvimento, e estabelece um sistema robusto de comunicação social com a população.

O resultado é espantoso para a época: a construção de 15.000 unidades habitacionais entre 1925 e 1930 em um conjunto articulado e coerente de bairros habitacionais (siedlungen). Com isso, Frankfurt se sobressai como um dos mais importantes campos de experimentação do Movimento Moderno em solo europeu, desenvolvendo novos padrões de conjuntos habitacionais e novos paradigmas de tecidos urbanos.

May cria uma revista para informar a população, chamada Das Neue Frankfurt, na qual publica um artigo de sua própria autoria explicando graficamente a evolução do quarteirão desde a cidade tradicional até as inovações de Frankfurt. Naquele esquema, as habitações dispostas em blocos paralelos de 1930 representariam o que havia de mais evoluído em termos de desenho urbanoaté então, vencendo a disposição pontual de lotes individuais com frente à via pública, um modelo que sobrevive desde a cidade hipodâmica até os dias atuais.

O modelo de May, assim como outros já apresentados em textos anteriores, liberta os espaços internos das quadras para a conexão direto com as vis circundantes, criando ambientes públicos ou coletivos. Num momento mais avançado desses experimentos, dois lados do quarteirão são completamente eliminados, redefinindo a volumetria de fechamento das quadras. E, mais à frente ainda, o direcionamento dos blocos habitacionais perdem o alinhamento obrigatório com as testadas, surgindo então o modelo que conhecemos no Brasil por meio das Superquadras de Lucio Costa.

Essa experiência alemã ainda tinha muito potencial de desenvolvimento em seus ensaios urbanísticos, mas as iniciativas foram interrompidas na década de 1930 com a ascensão do nazismo ao poder no país. O legado de Ernst May e da urbanística alemã do entreguerras viria a ser transmitido um pouco mais tarde, com a realização dos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna – CIAM.

[1] LAMAS, José Maria Ressano Garcia. Morfologia urbana e desenho da cidade. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000.

Leia também outros textos desta série sobre Desenho Urbano:

A cidade hipodâmica
A cidade romana antiga
A cidade medieval europeia
A cidade renascentista
A cidade oitocentista europeia
A cidade utópica
A cidade de Hausmann
A cidade de Cerdá
A cidade do entreguerras
A cidade de Camillo Sitte
A cidade de Raymond Unwin
A cidade do formalismo francês
A cidade industrial de Tony Garnier
A cidade modernista
A cidade da moradia moderna
A cidade do zoneamento funcional
A cidade-jardim de Ebenezer Howard
A cidade dos CIAM
A cidade radiosa de Le Corbusier
A cidade austríaca dos Hoffs
A cidade experimental holandesa
A cidade alemã de Ernst May
A cidade operacional do pós-guerra

Leia também:

Competicidade: como as cidades competem entre si e por que isso pode ser bom

3 comentários em “A cidade alemã de Ernst May”

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