A cidade dos CIAM

Alguns eventos do final da década de 1920 demonstraram que havia uma vontade convergente, em diversos países do mundo e entre arquitetos trabalhando isoladamente, àquilo que viríamos a conhecer como Movimento Moderno.

Evidenciadas as semelhanças nos trabalhos de muitos arquitetos modernistas de diversos países, surge então a ideia de se criar uma associação internacional que agremiasse esses profissionais. A iniciativa se concretiza em 1928, num encontro realizado no castelo de La Serraz. Esse encontro ficou marcado como a primeira reunião internacional de arquitetos modernos.

O urbanismo da Carta de Atenas
O urbanismo da Carta de Atenas

Era apenas o início de uma longa série de eventos que mais tarde viriam a ser conhecidos como Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (CIAM). Foram realizados onze congressos ao longo de mais de trinta anos – o último foi realizado em Waterloo em 1959. Todos eles deixaram importantes registros à história do urbanismo, de uma forma ou de outra.

Os CIAM foram eficazes em promover os ideais da arquitetura e do urbanismo modernos em sua fase de maior ascensão. Dos congressos realizados, resultaram conclusões das discussões internas, recomendações de soluções e a publicação de textos. É inegável que o alcance dos congressos se deva em grande parte à ampla divulgação dessa produção técnica.

Tais produtos demonstraram claramente o consenso de que as melhores soluções urbanas não poderiam ser obtidas a partir de simples melhorias dos modelos urbanísticos utilizados na época. Os membros dos CIAM tinham a convicção de que era necessário criar novos paradigmas, a partir de novas inspirações ideológicas e políticas.

A produção dos CIAM, segundo Lamas [1], teve três momentos distintos:

  1. 1928 a 1933: tratou essencialmente dos problemas habitacionais, a partir do qual o campo de estudo foi sendo progressivamente ampliado. Essa fase inclui os congressos de Frankfurt e de Bruxelas. Ernst May era um nome forte dos CIAM nesse primeiro período, onde apresentou diversos desenvolvimentos de suas experiências bem-sucedidas;
  2. 1933 a 1947: período caracterizado pela forte presença de Le Corbusier no grupo. Nesse período é produzida a Carta de Atenas (1933), documento emblemático do urbanismo funcionalista mais radical. A produção deste período exercerá, nas décadas seguintes, forte influência sobre o desenho urbano em diversos países, instituindo o controle do uso do solo, o zoneamento monofuncional, a maximização dos espaços livres vegetados e a simplificação abstrata das funções urbanas;
  3. 1947 a 1959: período de superação da cidade funcionalista abstrata, quando  emerge a necessidade de ambientes físicos que satisfizessem outras necessidades humanas, incluindo aspectos emocionais e materiais no escopo do desenho urbano. Nesse período já surgem os primeiros questionamentos ao urbanismo moderno, apontamentos seminais que viriam a explodir a partir de década de 1980.

José Lamas [1, p.338] aponta como causa mortis dos CIAM o surgimento do Team X no congresso de Dubrovnik (1956), cuja consagração durante o congresso de 1959 [2] representaria a pá de cal sobre esses encontros.

Apesar de sua superação, há que se reconhecer o papel fundamental dos CIAM no desenvolvimento urbanístico mundial a partir de então. Os próprios movimentos seguintes, que consolidaram o fim do urbanismo funcionalista, foram resultantes de evoluções que só aconteceram graças aos rompimentos que o Movimento Moderno fez em relação aos modelos anteriores – os quais, esses sim, desapareceram por completo dali em diante, a despeito dos revivalismos do final do século 20.

Fonte: [1] LAMAS, José Maria Ressano Garcia. Morfologia urbana e desenho da cidade. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000.

[2] Para a experiência brasileira, é importante observar que diversos cânones da urbanística de Lucio Costa para Brasília estavam em plena revisão enquanto a cidade era construída. Nossa capital federal foi inaugurada em 21 de abril de 1960, no ano seguinte ao da dissolução dos CIAM.

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