A cidade de Camillo Sitte

A consolidação do urbanismo enquanto campo de conhecimento fomentou o surgimento de textos teóricos em quantidade muito superior ao que vinha sendo produzido até meados do século 19.

Um dos nomes mais proeminentes dessa virada foi, curiosamente, quem olhou para o passado com uma vertente referencial um tanto nostálgica: Camillo Sitte (Construção das cidades segundo seus princípios artísticos), admirador dos traçados e volumes construídos medievais, viu nas antigas cidades medievais algo que vinha se perdendo durante a urbanização periférica na zona das antigas muralhas de Viena (o ring): a riqueza de visuais, caminhos, narrativas e surpresas do olhar ao explorar o espaço urbano durante uma simples caminhada, tal qual o faria Gordon Cullen em forma de desenhos quase um século depois.

Sitte foi um incansável crítico das rigorosas urbanizações alemãs de sua época, expressões racionalistas de um urbanismo metódico os quais chamava de desenhos “sem imaginação”. As preocupações de tais intervenções eram majoritariamente funcionalistas em relação ao tráfego e a infraestrutura urbana, o que gerava um resultado morfológico de limitada (para não dizer quase nenhuma) qualidade ambiental ou atratividade ao olhar humano.

Camillo Sitte e a valorização da cidade medieval
Camillo Sitte e a valorização da cidade medieval

Ao buscar uma solução alternativa, Camillo Sitte recusou o referencial haussmanniano, provavelmente considerado demasiadamente racional, e preferiu beber nas referências medievais cheias de sequências vivas de perspectivas urbanas, orgânicas, diversificadas, como resultados quase naturais do encontro entre intenção humana, técnica e condições topológicas. Nesse contexto, a tridimensionalidade dos corpos edificados potencializam as surpresas e riquezas visuais, apresentando assimetrias de conformações de caminhos, pontes, passagens por baixo de elementos edificados, e assim por diante, apresentando elementos inesperados ou pouco anunciados e sequência.

Com isso, nega o zoneamento funcional (algo que Jane Jacobs voltaria a fazer muitas décadas depois), e minimiza a importância de questões como a lógica da infraestrutura, os cálculos de densidades demográficas, índices urbanísticos ou edilícios e similares. Pelo contrário, sua atenção vai para o desenho da cidade em pequena escala, aos detalhes ambientais de espaços livres e vias. Por consequência lógica, suas propostas encontram dificuldades em lidar com as necessidades macro das cidades grandes.

É impossível falar de Camillo Sitte sem lembrar de Gordon Cullen como discípulo de uma visão de revalorização da cidade medieval (ou da imagem do que seria isso alguns séculos depois), de seus ensinamentos e da óbvia paixão pela riqueza produzida pela irregular morfologia urbana medieval.

Sitte produziu uma obra extensa que rapidamente ocupou um significativo espaço de influência na Alemanha e em outros países europeus. No Brasil, seus escritos encontram inegáveis paralelos na obra do engenheiro sanitarista Saturnino de Brito, autor do projeto de saneamento e drenagem do município de Santos, cujos canais continuam em funcionamento até os dias atuais. Este projeto  incluiu o conceito de sistema separador absoluto entre esgoto e águas pluviais, e uma das primeiras pontes suspensas do país (Ponte Pênsil). Seus canais são hoje um importante patrimônio cultural brasileiro.

Fonte: LAMAS, José Maria Ressano Garcia. Morfologia urbana e desenho da cidade. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000.

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Camillo Sitte - A construção das cidades segundo seus princípios artísticos

 

21 comentários em “A cidade de Camillo Sitte”

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