A cidade austríaca dos Hoffs

A experiência alemã de Ernst May em Frankfurt foi acompanhada, quase que concomitantemente, por similares na Áustria, com seus chamados hoffs. Este era o nome atribuído aos conjuntos habitacionais do Estado social-democrata austríaco da década de 1920, construídos inclusive nas áreas de expansão de Viena (sim, inclui o ring criticado por Camillo Sitte).

O "Karl Marx Hoff", em imagem de 2020
O “Karl Marx Hoff”, em imagem de 2020

Cada hoff era dimensionado com o objetivo de estabelecer uma unidade de vizinhança que permitisse a vida comunitária e justificasse o estabelecimento de equipamentos comunitários básicos.

Em 1927, Karl Elm projetou um enorme conjunto habitacional que ficou conhecido tanto por suas qualidades quanto pelos defeitos: o Karl Marx Hoff, um empreendimento de 15 hectares (pouco mais de 10 quarteirões tradicionais brasileiros), com 1.382 unidades habitacionais e aproximadamente 5.000 habitantes [1].

Quanto ao projeto técnico de arquitetura e urbanismo, o hoff também cria uma forma de ruptura morfológica com o quarteirão tradicional, mas é mais adaptável à forma urbana europeia pré-existente quando comparados a outras experiências modernas mais radicais, como as de Le Corbusier.

Lamas [1, p.335] considera que, na experiência dos hoffs austríacos, “as formas propostas decorrem do urbanismo tradicional, mas, como instrumentos de uma política habitacional socialista, implicam a apropriação coletiva do solo e a eliminação do loteamento.” De fato, essa experiência austríaca inova no desenho urbano, rejeitando o modelo de quarteirões repetitivos.

Os empreendimentos se adaptam à realidade de traçado existente (assim como os siedlungen de Ernst May em Frankfurt), criando unidades de relativa autonomia social e comunitária. José Lamas chega, com isso, a posicionar a experiência austríaca num ponto intermediário entre a cidade utópica dos falanstérios e familistérios, e a unidade de habitação de Le Corbusier [1, p.335].

Por outro lado, são experiências que se alinham profundamente a outras iniciativas modernas da época em pontos como a abertura de espaços coletivos no interior das quadras, permeável, onde se estabelecem equipamentos comunitários, áreas livres ou vegetação.

Fonte [1]: LAMAS, José Maria Ressano Garcia. Morfologia urbana e desenho da cidade. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000.

Leia também:

A cidade hipodâmica
A cidade romana antiga
A cidade medieval europeia
A cidade renascentista
A cidade oitocentista europeia
A cidade utópica
A cidade de Hausmann
A cidade de Cerdá
A cidade do entreguerras
A cidade de Camillo Sitte
A cidade de Raymond Unwin
A cidade do formalismo francês
A cidade industrial de Tony Garnier
A cidade modernista
A cidade da moradia moderna
A cidade do zoneamento funcional
A cidade-jardim de Ebenezer Howard
A cidade dos CIAM
A cidade radiosa de Le Corbusier
A cidade austríaca dos Hoffs
A cidade experimental holandesa
A cidade alemã de Ernst May
A cidade operacional do pós-guerra

Leia também:

Competicidade: como as cidades competem entre si e por que isso pode ser bom

3 comentários em “A cidade austríaca dos Hoffs”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.