A cidade modernista

A virada para o modernismo certamente representa a ruptura mais radical no pensamento urbanístico até hoje. Apesar de já ter havido, num momento imediatamente anterior, alguns grandes ajustes dos assentamentos humanos à realidade da Revolução Industrial, o modernismo revirou todos os conceitos prévios no sentido de repensar todo o espaço urbano do zero novamente.

Este processo foi tão complexo e sofreu influências de tantas frentes, experiências e teorias, que fica difícil sintetizar em um texto curto. Seu próprio desenvolvimento também não foi linear, nem centrado em um único local, nem resultante uma única frente cultural de influência.

Cidade modernista: ville radieuse
Cidade modernista: a Ville Radieuse

José Lamas sintetiza [1, p.297] a cidade moderna como “resultado de experimentações e formulações teóricas que, na primeira metade do século XX, irão repudiar a cidade tradicional e substituí-la por um novo modelo.

Esse conjunto de ideias e experimentos acaba sendo potencializado pelos esforços de reconstrução após a Segunda Guerra Mundial (décadas de 1950 e 1960), configurando um ciclo intenso de hegemonia do modelo moderno, cujo fôlego viria a perdurar até a década de 1970.

O sucesso na concretização dos ideais modernos também se deve à ampla aceitação que teve nos altos escalões técnicos e do poder público ao redor do mundo. O resultado colateral desse contexto foi também o rápido desaparecimento do modelo da cidade formal que o precedeu.

A necessidade de produção em grande volume neste período, principalmente habitacional, em decorrência da reconstrução e do baby boom levou também a um ciclo de produção e reprodução de espaços construídos em grande escala. Se, por um lado, os princípios modernos de assimilação da industrialização e rejeição aos ornamentos e elementos adicionais “desnecessários” facilitava a produção no ritmo necessário, por outro levou também à produção de muitos projetos de qualidade ambiental e construtiva reduzidas, formando uma amostra de referência que futuramente serviria bem à crítica ao modelo moderno. Esta produção, em especial o subgrupo constituído pelo exemplos mais monótonos e homogêneos, ficou conhecida como o “urbanismo operacional”.

O modernismo operacional homogêneo e monótono abre espaço para críticas
O modernismo operacional homogêneo e monótono abre espaço para críticas. La Ville Radieuse, Le Corbusier

José Lamas [1, p. 297] alista-se às fileiras dos críticos: “A burocracia conformista, mais preocupada com os resultados quantitativos do que qualitativos, tornarão o ‘planejamento operacional’ motor de destruição da vida urbana e da cidade, e farão ressaltar os aspectos mais negativos da cidade moderna. O que antes fora polémico, inovador, contributo de grandes mestres com o seu prestígio, estatura cultural e a qualidade do seu desenho, ao ser utilizado indiscriminadamente por projectistas menores e na prática rotineira, acabará por gerar monotonia e a banalidade.” [mantida a grafia original lusitana]

A cidade modernista teve dois grandes momentos históricos bem definidos:

  1. O entreguerras, chamado de “período heróico”, rico em formulações teóricas e experimentações de vanguarda. Nesse momento, os urbanistas enfrentavam batalhas pela divulgação do modelo moderno em oposição ao modelo da cidade formalista vigente, militavam pelas novas formas de organização de estrutura e morfologia urbanas, convictos de que os modelos tradicionais seriam insuficientes para as demandas do século 20. Nesta época surgem as experiências urbanísticas de rompimento com o quarteirão, ressignificação de ruas e praças, e proposição dos novos tipos torre e bloco, além do conceito de zoneamento rígido monofuncional;
  2. Do fim da Segunda Guerra Mundial até a década de 1970. É o período caracterizado mais pela aplicação de princípios defendidos no momento anterior do que pelos embates de substituição de modelos, principalmente em função das reconstruções do pós-guerra e necessidades habitacionais urbanas em magnitudes inéditas. O modelo moderno é reproduzido massivamente em novos conjuntos habitacionais de grande porte, novos bairros, novas cidades e reconstrução de centros urbanos em um ritmo até então desconhecido pela humanidade.

[1] LAMAS, José Maria Ressano Garcia. Morfologia urbana e desenho da cidade. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000.

Leia também outros textos desta série sobre Desenho Urbano:

A cidade hipodâmica
A cidade romana antiga
A cidade medieval europeia
A cidade renascentista
A cidade oitocentista europeia
A cidade utópica
A cidade de Hausmann
A cidade de Cerdá
A cidade do entreguerras
A cidade de Camillo Sitte
A cidade de Raymond Unwin
A cidade do formalismo francês
A cidade industrial de Tony Garnier

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