A cidade do entreguerras

Entre as décadas finais do século 19 e o término da Primeira Guerra Mundial (1918), as cidades europeias vivenciaram uma inédita fase de aceleração em seus processos de transformação morfológica, adquirindo grande complexidade estrutural e inovações inéditas em termos de infraestrutura, serviços públicos, equipamentos urbanos e tipologias de edifícios.

Ao mesmo tempo, o urbanismo se estabelece enquanto campo de conhecimento autônomo para dar respostas às questões que passam a surgir nas aglomerações ou novas formas de assentamentos urbanos, a despeito de ter havido a prática empírica do pensamento urbano desde os primeiros assentamentos humanos organizados, como vimos nos posts anteriores até aqui.

Algumas das questões mais prementes ao europeu desse período rondavam os temas do extremo adensamento demográfico das cidades, as transformações tecnológicas e industriais, utopias sociais, problemas de saúde pública e propostas de higienismo e salubridade decorrentes. Assim sendo, num primeiro momento o urbanismo deriva do campo da arquitetura per se, e esses profissionais (arquitetos de formação) acabam carregando a influência da École de Beaux-Arts ao urbanismo, fazendo pouca distinção entre os pensamentos de composição arquitetônica e urbanística.

As cidades europeias projetadas no entreguerras rejeitam o modelo oitocentista, este incapaz de dar respostas adequadas às questões sociais de um novo momento. Existe um onipresente anseio por novas soluções espaciais a tais questões, o que abre espaço para vanguardas, pavimentando o ambiente para o urbanismo modernista. É neste momento que o tema do acesso universal à habitação aparece pela primeira vez, associado à preocupação higienista de resposta aos episódios de epidemias e surtos de doenças em áreas urbanas adensadas.

Amsterdam Sul, Plano de Berlaje, 1927
Amsterdam Sul, Plano de Berlaje, 1927

Além da questão habitacional específica, faz parte do rol de demandas urbanas da época:

  • A organização e setorização urbana à atividade industrial;
  • A expansão territorial urbana recém viabilizada pela superação das muralhas medievais e avanços tecnológicos em novos modais de transporte, como vimos nos textos anteriores;
  • Expansão da infraestrutura e equipamentos para atendimento aos grandes contingentes populacionais migratórios aos espaços urbanos.

O contexto levou a um momento de inédito nível de atividade urbanística com o surgimento de muitos tratados, investigações, periódicos, instituições setoriais, regulamentação da gestão urbana e, por consequência, planos urbanos, construção de novos edifícios, novos equipamentos urbanos e expansão territorial das manchas urbanas. Some-se a isso, na Europa, a necessidade de reconstruções após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), as profundas transformações socioeconômicas, culturais, demográficas e sociais.

Mas essa realidade transformadora não era exclusividade europeia. Nas Américas, era o momento de afluxo de enormes contingentes de imigrantes, forte crescimento econômico com o processo de industrialização pela substituição de importações, além da colonização de novos territórios. Na África e na Ásia, a colonização europeia atingia seu momento de pico de exploração econômica, o que levava a transformações urbanas profundas em cada realidade local.

Com as necessidades batendo à porta, a resposta daquele momento tendeu ao pragmatismo, dando continuidade aos modelos tradicionais e inserindo, tanto quanto possível, inovações recentes a esses modelos. Os arquitetos de pensamento moderno estavam apartados, nesse período, do acesso à condução do urbanismo europeu. Com a “escola francesa” em voga, a Europa exportou profissionais para o mundo todo, e isso levou à hegemonia global de um modelo urbano de inequívoca origem haussmanniana – e de limitada capacidade de atendimento às necessidades sociais que só viriam a se aguçar dali em diante.

Certamente este seria um dos principais motivadores do desaparecimento deste modelo urbano do entre-guerras. Quando o mundo fez uma profunda revisão dos modelos modernos nas décadas de 1970 e 1980, os modelos referenciais resgatados foram os das cidades barrocas do século 19 ou mesmo das cidades medievais, ignorando ricas contribuições do entre-guerras à história da morfologia urbana ocidental.

Fonte: LAMAS, José Maria Ressano Garcia. Morfologia urbana e desenho da cidade. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000.

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