A cidade hipodâmica

Hoje começaremos aqui nossa série sobre Desenho Urbano, uma série de textos nos quais vou falar sobre cidades e suas origens em publicações curtas e objetivas.

Há inúmeras formas de iniciar essa narrativa, que pode variar cronológica e geograficamente. Adotarei, inicialmente, a linha narrativa europeia por ser a linha de influência cultural que recebemos com muita intensidade, para depois retornar a outras referências culturais e fazer esse contraponto (espero que crítico o suficiente, como deveria ser). As origens culturais europeias ocidentais exigem que façamos ao menos alguma menção à Grécia clássica. E, de fato, é de lá uma das referências seminais mais importantes à morfologia urbana ocidental: a cidade hipodâmica.

O traçado urbano regular e ortogonal costuma ser designado por “hipodâmico” em referência a Hipoddamus de Mileto (498 a.C. – 408 a.C.), considerado criador do planejamento urbano em quadrículas e responsável pelo projeto de diversas áreas de cidades gregas da época clássica. Na verdade, não existe nenhuma prova de que a quadrícula urbana tenha realmente sido criada por ele.

Um dos exemplos mais emblemáticos de sua obra, o porto de Pirineu (Atenas) foi desenvolvido em quadras de aproximadamente 2.400m2 para pequenos grupos de casas de dois pavimentos. O projeto pode ser considerado avançado para sua época: as fachadas estavam orientadas para sul (melhor insolação no hemisfério norte), e sua infraestrutura urbana de abastecimento e escoamento hidráulico foram dimensionadas a partir de equações polinomiais.

A inovação também (ou principalmente) estava na geometria ordenada e regular do traçado de vias e quadras, uma primeira ruptura com o padrão tradicional de desenvolvimento irregular das cidades sobre as condições topológicas de cada local. Como costuma ocorrer em quadrículas, a topografia é ignorada até onde possível, fazendo prevalecer a racionalidade abstrata de uma geometria pré-concebida sobre o território real.

As vias públicas tinham largura superior às de desenvolvimento anterior, variando de 5 a 10 metros, cruzando-se entre si sempre em ângulos retos – modelo este reproduzido à exaustão pelo mundo todo.

Além de Pirineu, Hippudamus realizou também o plano de Mileto, sua cidade natal, a qual possui uma curiosidade trazida por Lamas [1, p.140]: a quadrícula ortogonal foi utilizada para um setor residencial, mas não para espaços públicos e centrais.

Os modelos urbanos desenvolvidos na Grécia em seu período clássico sofreram posteriormente tentativas de cópia pelos romanos.

[1] LAMAS, José Maria Ressano Garcia. Morfologia urbana e desenho da cidade. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000.

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4 comentários em “A cidade hipodâmica”

  1. ´Considero fundamental o conhecimento da história do nosso urbanismo e da nossa arquitetura, (assim como a história de tudo o que o homem já construiu), pois mostra o surgimento e o desenvolvimento de tudo o que nos referencia em relação a maneira com que o ser humano ocupou o espaço e interferiu nele. É curioso ao vermos essa formação da quadrícula ortogonal, quão antigo é aquilo que se chamou de desenho urbano moderno no século XX, o que mostra como a história apresenta uma maneira cíclica permanente de manifestação, seja nas artes, seja na ocupação do espaço, alternando aquilo que se chama de orgânico e racional.

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    1. Olá, Valéria! De fato, o traçado quadriculado é tão natural como opção hoje, que poucos colegas se lembram de onde veio. Quanto ao comportamento cíclico, os próximos textos só virão a reforçar esse entendimento. Obrigado pelos comentários, e um abraço.

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