Blocos habitacionais de Brasília

A cidade da moradia moderna

A ascensão da cidade modernista foi acompanhada do direcionador de políticas públicas de produção de habitação salubre, com boas condições sanitárias, bem ventilada e iluminada. Era a reação natural de uma geração que conheceu as primeiras (e talvez mais graves) versões de insalubridade urbana nas cidades industriais repentinamente adensadas.

Aliado a este contexto, partidos políticos progressistas também ascenderam ao poder na Europa, trazendo um novo entendimento sobre a responsabilidade do Estado em promover a garantia à habitação saudável de forma democrática, visão esta que viria a ganhar ainda novo impulso a partir do keynesianismo na década de 1930. Após a Segunda Guerra Mundial, as necessidades de reconstrução, o adensamento das cidades e o baby boom concluíram a construção do contexto para a cidade da moradia moderna no século 20.

Com isso, o urbanismo moderno acaba sendo aplicado em seu momento inicial como promotor de áreas habitacionais em resposta a demandas sociais urgentes. Por este motivo, não é incomum encontrar associações mentais do tema urbanismo moderno ao desenho de grandes quadras habitacionais modernas.

Por consequência, Leonardo Benevolo acaba por caracterizar a pesquisa projetual para a cidade moderna em função de três grandes vetores:

  1. A pesquisa sobre organização e estrutura interna da habitação em sua unidade, edifício e agrupamento de edifícios. A partir da racionalização da unidade habitacional, os demais elementos se organizam até à escala urbana;
  2. A pesquisa sobre o bairro enquanto unidade compositiva urbana (unidade de vizinhança), a partir do qual se estabelece a vida social e comunitária, em aspectos prioritariamente quantitativos e distributivos. Nesta época surge com mais clareza certo consenso sobre a existência de um tamanho ótimo do bairro enquanto unidade de vida urbana e organização funcional;
  3. A pesquisa sobre a cidade como conjunto de dimensão máxima, enquanto organismo vivo que possui uma organização ótima. Esta terceira vertente de pesquisa promoverá as “cidades novas” (new towns).

O resultado deste movimento foi um conjunto de formas urbanas decorrentes mais de considerações de otimização habitacional que de composições urbanas como um todo, em escala superior ao de uma das funções urbanas. O restante da cidade passa a ser visto como espaço “residual” das demandas habitacionais.

O esquema morfológico oitocentista do edifício organizado em função das faces periféricas de quadras é alvo de críticas por não se adequar à melhor maneira de organizar a unidade habitacional “salubre e higiênica”. O resultado foi a quebra de subordinação do edifício à quadra, passando a ser independente e até regente da planimetria do quarteirão, configurando uma importante inversão hierárquica compositiva das cidades e alterando profundamente a forma das cidades dali em diante. Por consequência, as vias também deixam de pertencer às relações volumétricas urbanas, e passam a ser mais limitadas à sua função básica de deslocamentos de pessoas, mercadorias e prestação de serviços.

Bloco habitacional soviético
Exemplo de blocos habitacionais soviéticos
Blocos habitacionais de Brasília
Blocos habitacionais de Brasília

[1] LAMAS, José Maria Ressano Garcia. Morfologia urbana e desenho da cidade. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000.

Leia também outros textos desta série sobre Desenho Urbano:

A cidade hipodâmica
A cidade romana antiga
A cidade medieval europeia
A cidade renascentista
A cidade oitocentista europeia
A cidade utópica
A cidade de Hausmann
A cidade de Cerdá
A cidade do entreguerras
A cidade de Camillo Sitte
A cidade de Raymond Unwin
A cidade do formalismo francês
A cidade industrial de Tony Garnier

Leia também:

Competicidade: como as cidades competem entre si e por que isso pode ser bom

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