A cidade do zoneamento funcional

A ideia da compartimentação funcional da cidade não era novidade per se, uma vez que Vitrúvio, Palladio e Viollet-le-Duc já haviam feito sugestões nesse sentido. Entretanto, o racionalismo modernista leva o conceito a uma escala radical num contexto de redesenho total do espaço urbano em relação aos modelos tradicionais.

Era também uma reação violenta à aproximação de usos incompatíveis na cidade oitocentista, levando o pensamento urbano da época à obsessão pela organização e distribuição de usos no solo. Seu extremo está presente da Carta de Atenas, a qual coloca as funções da cidade como elementos de base ao planejamento urbano, isolando usos em estruturas construídas distintas e bem definidas em relação à maneira como deveriam ser usadas:

  • Habitar
  • Trabalhar
  • Lazer (cultura do corpo e do espírito)
  • Deslocamento necessário entre essas atividades

O urbanismo funcionalista abraça a causa do zoneamento como solução a diversos males da cidade oitocentista, e este padrão se manterá como referência de ordenamento urbano até as décadas de 1960 e 1970 na Europa, e até a década de 1990 nas principais cidades brasileiras. Cada função passa a ter seu território cativo e, com isso, desenvolve certa autonomia e lógica própria para lidar com seus problemas específicos. A cidade passa a ser um conjunto de funções independente justapostas, e a harmonia e a unicidade espacial e formal urbanas passam a ser cada vez mais fragmentadas. Uma única mancha urbana passa a abrigar “diversas cidades” dentro de uma única cidade, cada uma com aspectos visuais e de compreensão próprios.

A própria representação dos planos também se fragmenta, havendo um plano para cada função (plano viário, plano de áreas verdes, plano habitacional, etc.), sem que se encontrem numa matriz única de síntese e compatibilização em um desejo condutor.

A cidade do zoneamento funcional
A cidade do zoneamento funcional

A busca radical do funcionalismo levou o modernismo operacional a extremos como a reprodução em massa de edifícios de soluções ótimas para problemas específicos monofuncionais, o que levou à viabilização da prefabricação em grande escala, otimização da construção racionalista.

Nada mais natural que a crítica à monotonia e falta de significação dos espaços urbanos homogêneos produzidos, e à visão “inovadora” da década de 1960 ao sugerir a ocupação (“herética”) de bairros residenciais com usos comerciais e de serviços.

[1] LAMAS, José Maria Ressano Garcia. Morfologia urbana e desenho da cidade. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000.

Leia também outros textos desta série sobre Desenho Urbano:

A cidade hipodâmica
A cidade romana antiga
A cidade medieval europeia
A cidade renascentista
A cidade oitocentista europeia
A cidade utópica
A cidade de Hausmann
A cidade de Cerdá
A cidade do entreguerras
A cidade de Camillo Sitte
A cidade de Raymond Unwin
A cidade do formalismo francês
A cidade industrial de Tony Garnier

Leia também:

Competicidade: como as cidades competem entre si e por que isso pode ser bom

8 comentários em “A cidade do zoneamento funcional”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.