Presidência, Congresso e Supremo não são edifícios – nem pessoas

O que os invasores golpistas dos ataques de 8/1 estão percebendo (da pior forma) é que as instituições nacionais não se confundem com nenhum tipo de espaço físico – e nem com pessoas (temporariamente) investidas nos poderes Executivo, Legislativo ou Judiciário.

As lamentáveis imagens e vídeos que circularam pelo país na última semana mostram aquelas pessoas iludidas pelo fato de terem conseguido invadir edifícios repositórios da repartição dos poderes constitucionais do país, acreditando que estavam tomando as instituições em si.

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Um dia que vai durar séculos

Amanhã as urnas brasileiras estarão à espera de mais de 156 milhões de eleitores para uma das decisões mais importantes de nossa história. O país vai tomar uma decisão democrática entre as duas posições antagônicas representativas das mais enraizadas orientações sociais latinoamericanas desde as suas independências nacionais, e não deveríamos deixar nossas emoções e crenças desfocar esse contexto maior. O resultado coletivo da decisão de cada indivíduo, seja ele qual for, provavelmente será estudado por séculos futuros. Continuar lendo Um dia que vai durar séculos

Tesouro Direto e o risco fiscal atual

A taxa SELIC costuma ser muito lembrada pelo aspecto de controle monetário, em especial quando aumenta a restrição de moeda (elevação da taxa). Porém, a mesma taxa também tem um papel fiscal muito importante: indica o grau de atratividade ao investidor para o financiamento do tesouro público. A um determinado nível de risco, o investidor observa a taxa de remuneração de seu capital para decidir se empresta ou não aos cofres públicos. Inclua nesse “ risco” principalmente a probabilidade de calote dos títulos públicos (default da economia). Continuar lendo Tesouro Direto e o risco fiscal atual

Da ascensão do voto nulo no Brasil

O resultado do Segundo Turno das eleições presidenciais de 2018 ficou marcado pelo salto na proporção de votos nulos em relação ao quantitativo de votos válidos, descolando dos resultados de pleitos anteriores [1]. Porém, há de se observar que esta tendência, apesar de branda, já estava lá. Ou seja, o Segundo Turno de 2018 nada mais fez que explodir algo latente.

Mas que lição levamos da crescente proporção de brasileiros que se dirigem à seção eleitoral para anular o voto? Após décadas de limitações severas à democracia, por que tantos brasileiros se comportam assim na oportunidade de exercê-la? Após tanta luta por recuperar as eleições diretas, o que faz com que sejam cada vez mais desprezadas? Continuar lendo Da ascensão do voto nulo no Brasil

Nossa cicatriz

Quando eu era pequeno, tive uma conversa com meu avô que só vim a compreender há pouco tempo. Conversávamos, caminhando pela praia num suposto dia tranquilo, sobre algo que nos preocupava naquele momento – não vou lembrar exatamente qual era o assunto, mas suponha que fosse a inflação da época. De repente, do nada, meu avô começou a falar de Hitler. Eu não entendi o motivo dele ter mudado de assunto tão repentinamente. E continuava no mesmo tom de voz, como se aquela tivesse sido nossa conversa desde o início. Se você tiver menos de 90 anos de idade, provavelmente não vai entender enquanto não se colocar no lugar de uma pessoa de geração dele. Para nós, Adolf Hitler é mais ou menos tão real quanto Julio Cesar, Ivan IV, Gengis Khan ou Josef Stalin. Habita livros e aulas de história, e tem a mesma personificação tangível (ou até menos) que Darth Vader.

Mas não é assim para quem viveu aquela época. É difícil para nós imaginar o que era ver amigos e conhecidos morrendo aos montes, saber que o mundo estava se destruindo num conflito crescente que se expandia pelo globo sem qualquer perspectiva do que seria o futuro, ou se haveria algum. A Segunda Guerra foi, para eles, algo muito diferente de filmes ou jogos de videogame. Era a navalha na carne, perigo real e imediato. Até que um dia o conflito acabou, os sobreviventes superaram, adentraram a um novo mundo e carregaram essa cicatriz pelo resto de suas vidas. Para a geração de meu avô, Hitler se encaixaria bem em qualquer conversa sobre algo preocupante, e duvido que algum contemporâneo discordasse dele.

Agora chegou a nossa vez. Nossa geração vive, com a covid-19, nenhuma segurança do que será o futuro, novas cepas cada vez mais perigosas de um vírus mortal se multiplicando onde o isolamento social é mais brando, vacinas sendo superadas por variantes de um microorganismo complexo, infinitas consequências econômicas nas rendas de milhões de famílias que tentam sobreviver em ambientes sociais de profundas e repentinas transformações. Hoje é outra navalha cortando a carne da humanidade, amanhã será a nossa cicatriz. Continuar lendo Nossa cicatriz