Importância dos cenários econômico-financeiros

Uma prática comum e perigosa é a construção de estudos econômico-financeiros (planos de negócios, estudos de viabilidade, avaliações, modelagens etc.) baseada em um único cenário mais provável, obtido por meio de ponderações médias. O resultado pode ser perigoso para a tomada de decisão pelo risco de representar um resultado impossível, tal como dizer que o resultado mais provável ao rolar um dado será igual a 3,5.

A prática mais saudável é nunca ignorar riscos, e incluí-los nas previsões de fluxo de caixa, não no custo de capital. E a melhor forma de se fazer isso é construindo cenários alternativos e possíveis de fluxo de caixa. Parece óbvio, mas as empresas tendem a usar “atalhos” para construção de fluxos de caixa projetados, ou seja, a partir de um fluxo hipotético viável, aumentando a taxa de desconto para considerar seus riscos de variação. Continuar lendo Importância dos cenários econômico-financeiros

CAPEX, OPEX e contabilidade de custos

Alguém nos fez um grande desfavor ao chamar os investimentos de capital, erroneamente, de despesas de capital (Capital Expenditures – CAPEX). E o pior é que o erro ficou, pegou e se popularizou. Agora sobrou para nós gastar saliva a cada esquina para explicar que o desembolso em capital fixo instalado nada tem a ver com a classificação de despesa dada pelo rigor das ciências contábeis, uma vez que esse tipo de gasto tem todas as características de investimento.

Para piorar essa nossa missão, o CAPEX costuma fazer par, nas análises, estudos e modelagens econômico-financeiras, com as despesas operacionais, ou Operacional Expenditures – OPEX. E esta, sim, está correta, é realmente uma despesa. Continuar lendo CAPEX, OPEX e contabilidade de custos

A estrutura do mercado profissional [GA]

ferrovia e as concessões de infraestrutura

Hoje continuamos o assunto dos posts anteriores sobre mercados profissionais abordando a estrutura desse tipo de mercado, a qual surge de forma singular: nem todas as pessoas valorizam da mesma forma o capital simbólico, e obter um diploma em determinado campo cultural é um objetivo vantajoso para uns, mas não para outros.

As pessoas perseguem estratégias que acreditam que lhe retornarão rendimentos mais elevados, sejam simbólicos ou econômicos. Todas as decisões a respeito de campo profissional são tomadas em função de como percebem suas chances de sucesso, assim definido o atingimento de acúmulo de capital simbólico, econômico, geração de externalidades externas positivas ou simples satisfação pessoal. Isso significa que tentamos realizar o que acreditamos ser possível, e nos excluímos das áreas nas quais acreditamos que não seremos bem-sucedidos. Ou seja, na estrutura de competição profissional, os menos favorecidos se eliminam voluntariamente, por si próprios, dos campos dominados por outros grupos. Continuar lendo A estrutura do mercado profissional [GA]

O capital simbólico no mercado profissional [GA]

Centro Cultural Gabriel García Márquez. Foto Emilene Miossi

Este texto dá continuidade aos anteriores sobre a concorrência em mercados profissionais. Hoje falaremos sobre o capital simbólico e seu papel na concorrência entre profissionais, uma vez que ele promove o poder simbólico da mesma forma que a posse de capital econômico promove o poder econômico. Da mesma forma que pessoas e grupos concorrem na arena econômica para aumentar riqueza econômica, os profissionais competem também na arena cultural para maximizar capital cultural.

Existem quatro formas básicas de capital cultural [1]:

  1. Capital cultural institucionalizado: qualificações acadêmicas, realizações educacionais, prêmios, certificações, saber coisas;
  2. Capital cultural objetivado: objetos ou bens culturais, como obras de arte ou qualquer um dos inúmeros objetos simbólicos produzidos pela sociedade;
  3. Capital cultural social: redes duráveis de pessoas às quais se pode recorrer para apoio e auxílio ao longo da vida profissional. Este tipo é particularmente útil nas áreas da vida social que não foram burocratizadas pelo Estado, nas quais as habilidades formalmente certificadas valem menos que as habilidades sociais;
  4. Capital cultural corporificado: a forma mais sutil e que torna a noção de capital cultural tão importante, este tipo não depende de nenhum dos três tipos anteriores: a posse de capital cultural simplesmente pelo fato de a pessoa ser culta, um capital que existe no íntimo das pessoas sob a forma de atitudes, gostos, preferências e comportamentos. Este tipo de capital se manifesta na forma como falamos, nos vestimos, o que gostamos de ler, esportes que praticamos, que carro temos, quais passatempos preferimos, ou seja, todas as inúmeras possibilidades em que gosto atitudes se manifestam. Práticas aparentemente triviais e naturais são poderosas manifestações de capital cultural corporificado;

Continuar lendo O capital simbólico no mercado profissional [GA]

Poder simbólico e o mercado profissional [GA]

Escritório de arquitetura

Este texto dá continuidade aos anteriores sobre a concorrência em mercados profissionais, hoje tratando sobre o espaço de mercado no qual os grupos competem entre si em prol de seus próprios interesses. Nesse jogo, alguns grupos são mais bem-sucedidos que outros, controlam mais recursos. Este é o ponto de partida para esse tipo de análise: o reconhecimento da existência de grupos dominantes e subordinados.

Adotaremos aqui a definição bourdiana para poder: a capacidade de impor uma definição específica da realidade que seja desvantajosa para outros. O poder mais óbvio é a força física, mas é pouco usada na disputa entre grupos inclusive por ser ineficiente. Assim, esse tipo de poder é delegado ao Estado. Um segundo tipo de poder é o econômico, com suas estruturas igualmente óbvias.

Entretanto, existe uma terceira forma de poder, desta vez não tão óbvia, mais potente, eficiente e onipresente que as anteriores: o poder simbólico. Trata-se da manipulação de símbolos, conceitos, ideias e crenças para o atingimento de seus objetivos. Em seu nível mais elevado (de toda a sociedade), o poder simbólico é conhecido como “cultura”. Continuar lendo Poder simbólico e o mercado profissional [GA]