Vitalidade e segurança nas cidades: os geradores de diversidade de Jane Jacobs

“Talvez a obra mais influente da história do urbanismo.” Foi assim que a crítica literária do New York Times classificou o mais famoso livro de Jane Jacobs (Morte e vida de grandes cidades) – e é muito provável que esteja correta.

A obra, publicada em 1961 por uma jornalista e política norte-americana em ataque ao urbanismo operacional modernista (que ela chamava de “urbanismo ortodoxo”), redesenhou os preceitos do planejamento urbano daquele ponto em diante. Seus ensinamentos continuam válidos (e muito) a qualquer pessoa que se disponha a dedicar tempo, vida e energia a pensar o mais complexo sistema já construído pela humanidade: a cidade. Prova disso é sua onipresença nos cursos de urbanismo por todo o planeta e as infinitas republicações (tenho em mãos neste momento uma tiragem de 2019).

A mais recente versão em português para o Brasil, da Martins Fontes, tem 510 páginas. Seria de extrema arrogância (e imprudência) tentar sintetizar uma obra seminal tão icônica num mero artigo de blog como este. Assim sendo, se você se interessa (acredito) pela qualidade de vida nas cidades, não há como escapar. É leitura obrigatória.

Por outro lado, não vejo porque não sinalizar aqui os quatro grandes pilares da vitalidade urbana identificados por Jane Jacobs. É muito importante a leitura completa do texto, principalmente da primeira parte (A natureza peculiar das cidades) para entender a linha de raciocínio que a levou a identificar a diversidade urbana como grande gerador de vida e segurança pública nas cidades.

Pruitt-Igoe: ícone do fracasso urbano

Supondo que você já esteja ciente deste caminho racional, e compreenda os fundamentos de tal conclusão, posso aqui lembrar quais são os quatro geradores de diversidade urbana (página 165 na edição da Martins Fontes, tiragem de 2019):

  1. A região da cidade só terá vida se atender a mais de uma função (uso) principal, e de preferência, ter mais de duas. A combinação de usos precisa garantir pessoas nas ruas em horários variados, em todos os dias da semana, por motivos diferentes, e que sejam capazes de usar boa parte da infraestrutura. No livro, Jane Jacobs cita o caso do Distrito Financeiro de Manhattan, no extremo sul da ilha, que concentrou demasiadamente usos relacionados ao mercado financeiro, e assim transformou a região em área perigosa fora do horário comercial. No Brasil, é fácil verificar esse efeito nos centros históricos de grandes cidades, principalmente aqueles que perderam o uso residencial.
  2. A maioria das quadras deve ser curta, criando esquinas frequentes, com mais oportunidades de trajetos, visuais e encontros. Isso beneficia a todos, inclusive o comércio, elemento de destaque na vitalidade urbana.
  3. Combinação de edifícios de idades e estados de conservação variados, com boa proporção de edifícios antigos. Edifícios de rendimentos variados abrigam variadas formas de empreendimentos, e isso se traduz em diversidades de motivos para se usar a cidade e maior variedade de características dos públicos, ajudando também no item 1.
  4. Densidade de pessoas relativamente alta, incluindo aqui concentração suficientemente alta de moradores (uso residencial). A ausência ou a baixa densidade de habitantes numa região provoca o mesmo efeito da concentração de usos, cabendo também aqui os mesmos exemplos dos centros históricos desabitados nas grandes cidades.

Ainda que o atual momento de pandemia tenha colocado em xeque boa parte dos preceitos urbanísticos contemporâneos, como os atuais questionamentos à cidade compacta, os ensinamentos de Jane Jacobs não perdem, em nada, seu valor nem sua validade. Talvez a tendência atual seja de maior isolamento e distanciamento urbano. Mas se isso for verdade, estaremos conscientemente (espero) escolhendo pela redução de vitalidade urbana, e sujeitos a todas as consequências dessa decisão. Incluindo a extensa lista de riscos urbanos levantadas em 1961 por uma senhora inteligente que resolveu observar a vizinhança do Greenwich Village.

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