Arquitetura popular brasileira – indicação de livro

Arquitetura popular brasileira. Livro. Günther Weimer

Este é, sem dúvida alguma, o livro mais interessante que já li sobre o tema, a começar pelo título. Günther Weimer constrói uma argumentação contra a tradicional arquitetura vernacular. E logo as primeiras páginas já valem o livro, trazem um interessante estudo sobre nossas influências culturais a partir das raízes mais antigas de nossa formação étnica, começando pela migração de povos asiáticos para a América do Norte e de lá descendo até nossas terras para formar nossos primeiros povoamentos indígenas, milhares de anos atrás.

Daí em diante, é impossível largar essa obra: aborda as origens do que chamamos de influência européia, a identificação da diversa e rica contribuição africana e as demais correntes imigratórias que recebemos mais fortemente nos últimos 150 anos. Weimer também identifica de forma precisa manifestações construtivas desprezadas pelo poder dominante, incluindo equívocos de se associar adaptações locais de técnicas ancestrais milenares de alhures em nossas terras, tais como as palafitas e a busca pelo contato com a água. Continuar lendo Arquitetura popular brasileira – indicação de livro

A cidade renascentista

A história da arquitetura costuma dividir o Renascimento em várias fases [1]:

  1. Primeiro Renascimento (1420 – 1500, na Itália)
  2. Renascimento tardio (1500 – 1600)
  3. Barroco (1600 – cerca de 1765)
  4. Rococó e Neoclássico (1750 – 1900, variando conforme a região)

Com a recuperação econômica e política europeia da Baixa Idade Média, também houve um resgate de referências culturais clássicas, evidentemente greco-romanas, associado ao desenvolvimento filosófico e científico ocidental. Também houve uma grande assimilação de conhecimentos adquiridos com outros povos, em especial os árabes e orientais.

O novo momento intelectual de retomada do racionalismo, em oposição ao misticismo medieval, provocou mudanças profundas na sociedade da época, o que se refletiu na pintura, escultura, arquitetura e urbanismo. A partir dos desenvolvimentos da perspectiva, sua expressão mais representativa surgiu em Florença e rapidamente se propagou pelo resto da Itália, um território onde o gótico medieval não era muito bem aceito por diversas razões culturais, em especial pelo vínculo com as referências romanas do passado. Em pouco tempo, a influência florentina já alcançava praticamente toda a Europa. Continuar lendo A cidade renascentista

A cidade hipodâmica

Hoje começaremos aqui nossa série sobre Desenho Urbano, uma série de textos nos quais vou falar sobre cidades e suas origens em publicações curtas e objetivas.

Há inúmeras formas de iniciar essa narrativa, que pode variar cronológica e geograficamente. Adotarei, inicialmente, a linha narrativa europeia por ser a linha de influência cultural que recebemos com muita intensidade, para depois retornar a outras referências culturais e fazer esse contraponto (espero que crítico o suficiente, como deveria ser). As origens culturais europeias ocidentais exigem que façamos ao menos alguma menção à Grécia clássica. E, de fato, é de lá uma das referências seminais mais importantes à morfologia urbana ocidental: a cidade hipodâmica.

O traçado urbano regular e ortogonal costuma ser designado por “hipodâmico” em referência a Hipoddamus de Mileto (498 a.C. – 408 a.C.), considerado criador do planejamento urbano em quadrículas e responsável pelo projeto de diversas áreas de cidades gregas da época clássica. Na verdade, não existe nenhuma prova de que a quadrícula urbana tenha realmente sido criada por ele.

Um dos exemplos mais emblemáticos de sua obra, o porto de Pirineu (Atenas) foi desenvolvido em quadras de aproximadamente 2.400m2 para pequenos grupos de casas de dois pavimentos. O projeto pode ser considerado avançado para sua época: as fachadas estavam orientadas para sul (melhor insolação no hemisfério norte), e sua infraestrutura urbana de abastecimento e escoamento hidráulico foram dimensionadas a partir de equações polinomiais. Continuar lendo A cidade hipodâmica

Pensamento urbanístico contemporâneo

Várias das atuais correntes predominantes no pensamento de base ao planejamento urbano internacional tiveram origens nos anos 1980 e 1990. Um dos principais motivos para isso foi o forte impulso dado pela tecnologia da informação à criação do atual contexto socioeconômico global. Entre outros elementos, as taxas de lucro das empresas dominantes cresceram, a internacionalização se acelerou a níveis inéditos, e, em decorrência, surgiram novas agendas políticas por parte dos governos. A geografia regional e urbana apresenta divisões espaciais do trabalho cada vez mais nítidas, as funções de produção foram descentralizadas pelo globo de forma extremamente flexível, enquanto as indústrias informacionais se concentraram em alguns poucos centros urbanos inovativas, como o Vale do Silício. Estes últimos, cristalizados como os centros propulsores da economia capitalista contemporânea, centralizam cada vez mais o poder de decisão de alto nível. Continuar lendo Pensamento urbanístico contemporâneo