Aeroportos como ativos de infraestrutura

A partir de hoje publicaremos uma nova série de textos sobre o setor de aeroportos, sempre buscando a conexão com os temas de interesse deste blog (veja a política do blog aqui). Os textos não seguirão uma sequência contínua, de forma que recomendamos sempre utilizar a ferramenta “Pesquisar” no menu lateral.

O equipamento aeroporto nos interessa por diversas vertentes de interesse deste blog:

  • É um empreendimento gerador de caixa, portanto pode ser avaliado pela NBR 14.653 parte 4;
  • É um ativo público objeto de concessões públicas, portanto também demanda modelagem econômico-financeira (MEF) em diversas etapas do ciclo de vida desse tipo de contrato, em especial na precificação referencial de licitação e nos cálculos de reequilíbrio;
  • É um empreendimento urbano de grande porte, cujos impactos se sentem por uma grande área de influência.

Os sistemas de transportes são compostos por vias, veículos e terminais. Terminal é o nome dado ao local onde acontecem os embarques e desembarques de passageiros e carga, e podem incluir a função de armazenamento de mercadorias. O aeroporto é o terminal do modo aéreo, um ativo de infraestrutura muito relevante em diversos aspectos. Vejamos abaixo alguns desses aspectos:

  1. Infraestrutura de grande porte: exige grandes áreas para sua implantação e impõe restrições importantes ao tecido urbano circundante, principalmente de gabaritos e uso do solo. Como referência, Dario Lopes e Oswaldo Rodrigues Filho [1] informam que a implantação de um pequeno aeroporto para aviação geral (menor configuração básica) necessita de uma área equivalente a sessenta campos de futebol. Um grande aeroporto internacional, como o JFK de Nova York, ocupa mais de 30 quilômetros quadrados. E esses números ainda não incluem as restrições impostas ao espaço urbano circundante.
  2. Exige localização com condições climáticas e de relevo específicas: exige horizonte livre para a plena operação de aeronaves, topografia plana, solo com boa capacidade de suporte, condições climáticas e meteorológicas compatíveis com a operação aeroportuária, reserva de área para potencial expansão e baixo impacto ambiental. Como esse conjunto perfeito de condições é quase impossível de ser encontrado, a implantação de um novo aeroporto é uma atividade complexa e multidisciplinar, a qual pondera os custos necessários para mitigar a distância existente entre as condições existentes e esse ideal.
  3. Demanda infraestrutura básica robusta: exige o fornecimento contínuo, confiável e de alta demanda de serviços urbanos básicos como energia elétrica e abastecimento de água, de forma a garantir prontidão operacional máxima.
  4. Integração com os demais modos: o transporte aéreo não funciona porta a porta, exige a conexão com modos de transporte urbano complementares sobre pneus ou sobre trilhos. Acessibilidade é um aspecto-chave do sucesso de um aeroporto, sua eficiência depende da disponibilidade desses modos complementares terrestres.
  5. Grande poder indutor de urbanização: por ter alta confiabilidade e atrair o desenvolvimento de sistemas de transportes urbanos eficientes, os aeroportos costumam induzir a ocupação urbana de seu entorno, em especial os chamados “aeroportos centrais”, como Congonhas (SP) e Pampulha (MG).
  6. Impacta uso e ocupação do solo do entorno circundante: atrai atividades de apoio à cadeia de valor da aviação, como empresas aéreas, fornecedores do aeroporto e de empresas aéreas, locadoras de veículos e hotéis, mas está longe de parar por aí. O aeroporto também atrai uma miríade de outras atividades que se diversificam e derivam a cada dia, conforme evolui a complexidade econômica local.
  7. Instrumento de importância política e econômica: os aeroportos já superaram, e muito, a função única de terminal, agregando hoje centros de negócios e de comércio, configurando elementos de importante vantagem competitiva para a localidade e região (vide o modelo diamante de Michael Porter aqui).
  8. É um negócio específico: sendo o aeroporto um ativo estratégico, sua construção, operação e manutenção se tornou uma indústria robusta e global, apresentando números expressivos de externalidades positivas na forma de geração de empregos e receitas, possuindo um modelo de negócios (vide aqui) muito próprio de sua atividade. Atualmente, segundo a Airport Key Performance Indicators – ACI, apud Lopes et. al. (2021, p.44), o negócio aeroporto já possui 40% de receitas não-tarifárias, margem líquida média de 22,2% e retorno sobre o capital investido (ROI ou ROIC) de 7,3%.

Leia aqui sobre a diferença entre os conceitos de heliponto, heliporto, aeroporto e aeródromo.

Voltaremos ao assunto.

[1] LOPES, Dario Rais. RODRIGUES FILHO, Oswaldo Sansone. Aeroportos: tópicos em planejamento e projeto. 1a. ed. Curitiba: Appris, 2021. p. 41.

Saiba mais:

Aeroportos tópicos de planejamento e projeto Dario Rais

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