Este é o segundo texto da nova série sobre o setor de aeroportos. Este conjunto de textos não segue uma sequência contínua, de forma que recomendamos sempre utilizar a ferramenta “Pesquisar” no menu lateral.
Um aeroporto é subdividido em três grandes grupos de componentes [1], configurando três zonas bem delimitadas:
- Lado ar: formado pelos componentes cujos requisitos geométricos e construtivos são estabelecidos com base no veículo de transporte do modo aéreo, a aeronave;
- Lado terra: composto por conjuntos de componentes cujas referências são os veículos terrestres, pessoas, sistemas (utilities) de infraestrutura urbana, e serviços de apoio à operação terrestres de aeronaves;
- Interface: componentes intermediários entre os anteriores, com duas faces com acessos independentes (para lado ar e para lado terra), formado por terminal de passageiros (TPS), terminal de cargas e hangares.
1 – Lado ar
São componentes do lado ar:
Pista de pouso e decolagem: maior e mais importante elemento do aeroporto, precisa ser longa o suficiente para permitir manobras de arremetida e interrupção (abortamento) de decolagem. A pista é planejada considerando requisitos operacionais, geométricos, regime de ventos predominantes, e capacidade de suporte de aeronaves. Tal planejamento evita ao máximo a operação com ventos laterais (través), e busca sempre a operação de pousos e decolagens no sentido contrário ao do vento dominante.
Pistas de táxi: são as pistas que conectam a pista de pouso e decolagem com o pátio de aeronaves. Conformam o trajeto: (a) da posição de estacionamento das aeronaves até a cabeceira da pista de decolagem, ou (b) percorrendo o sentido inverso, da pista de pouso até o pátio. A configuração das pistas de táxi é definida pela velocidade de saída da pista de pouso (tipicamente saída rápida e de baixa velocidade).
O sistema de pistas, formado pelas pistas de pouso e decolagem e pelas pistas de táxi, recebe o nome de área de manobras do aeródromo.
Pátio de aeronaves: possui a função de receber aeronaves para estacionamento, manutenção, limpeza, abastecimento (combustíveis e comissaria), operações de embarque e desembarque de passageiros e carga.
A simultaneidade de aeronaves paradas e em circulação na presença de outras pessoas e veículos representa significativo risco para esta área, o qual pode ser parcialmente mitigado pelo projeto e por operações cuidadosamente monitoradas e controladas.
O conjunto de pistas (área de manobras) somado ao pátio de aeronoves conforma a área de movimento do aeródromo.
Torre de controle (TWR): responsável pelo controle de todos os movimentos de aeronaves no espaço aéreo do entorno ao aeroporto, e de todos os movimentos de aeronaves, veículos terrestres e pessoas no lado ar do aeroporto. Pode ser construída fora do lado ar, inclusive ser remota. Seus requisitos de projeto e de visibilidade estão associados às aeronaves e à topografia do lado ar.
Sistema de combate a incêndio (SCI): seu porte, estrutura e equipamentos são decorrentes da frequência de operação da maior aeronave que utiliza o aeroporto.
2 – Lado terra
O lado terra é composto por três conjuntos de componentes:
Componentes cujas referências sejam veículos terrestres e pessoas: recebendo o mesmo tratamento dado a outros projetos de mobilidade urbana. No caso do aeroporto, inclui o “meio-fio” (nome dado ao alinhamento do leito carroçável externo), estações de transbordo para outros modos terrestres (ferroviário, rodoviário etc.).
Sistemas (utilities) de infraestrutura urbana: apesar de atenderem a todo o aeroporto, não possuem a aeronave como parâmetro de base para o projeto. Inclui, entre outros, a subestação de energia elétrica, central de água gelada, estação de tratamento de água (ETA), reservatórios de água, serviços de coleta e destinação de resíduos sólidos (lixo).
Serviços de apoio às operações de aeronaves, restritos aqui àqueles que ficam no lado terra e acessam o pátio de aeronaves por meio de portões controlados: comissaria, oficinas de ground support equiment (GSE), equipamentos de rampa (tratores, escadas, caminhões, veículos) de apoio às aeronaves estacionadas, depósitos e postos de abastecimento de combustíveis das aeronaves.
3 – Interface
Entre o lado ar e o lado terra existem três componentes que permitem a transição de pessoas e cargas entre ambos: terminal de passageiros (TPS), terminal de cargas (TECA) e hangares.
Terminal de passageiros (TPS): é uma edificação que concentra, via de regra, a maior parte dos processos de transferência modal de pessoas. O TPS abriga empresas aéreas, imigração, alfândega, comércio e serviços em geral, os quais operam de forma a promover condições de segurança, funcionalidade e conforto aos passageiros. É no TPS que os clientes do aeroporto passam mais tempo, motivo pelo qual exerce maior influência na percepção dos serviços prestados pelo aeroporto. Alguns autores definem os pórticos e equipamentos de raio-X de bagagem como fronteira entre lado ar e lado terra, mas não há consenso sobre essa definição.
Terminal de cargas (TECA): onde as cargas são preparadas para embarque ou recebidas para transferência. Da mesma forma que no TPS, o TECA também abriga diversos prestadores de serviços, desta vez para recebimento, armazenamento, documentação, despacho de carga e para segurança, limpeza e conservação do ativo.
Hangares: são edificações destinadas ao abrigo, manutenção e preparação de aeronaves para voo. Existe um tipo de hangar específico para a aviação executiva, no qual podem ocorrer também operações de embarque e desembarque de passageiros, respeitadas as normas da agência reguladora. Ou seja, neste último caso, o hangar abriga também algumas das funções do TPS.
Voltaremos ao assunto.
[1] LOPES, Dario Rais. RODRIGUES FILHO, Oswaldo Sansone. Aeroportos: tópicos em planejamento e projeto. 1a. ed. Curitiba: Appris, 2021. p. 46-49.
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