Uma leitura do atual cenário macroeconômico

O ano de 2018, até o presente momento, apresentou instabilidades domésticas e externas relativamente incomuns. A greve de caminhoneiros, inédita em termos de escala e impactos macroeconômicos foi alimentada por fatores políticos de esvaziamento de poder, perda de representatividade e instabilidades presentes desde os protestos de 2013, e provocou importante interrupção na infraestrutura de produção e de consumo no país.

A atividade econômica retraída e baixas taxas inflacionárias no período recente contribuíram para a redução da taxa básica de juro da economia (Selic), criando um cenário de maior atratividade à tomada de crédito e investimentos. Os índices ainda baixos de confiança do consumidor e dos empresários adiam a retomada de investimentos em fatores de produção. Um primeiro movimento de inflexão na confiança foi registrado ainda no ano de 2017 em diversos setores, apontando para a entrada em nova fase do ciclo econômico (possível início da retomada da atividade econômica). Os setores em si também não se apresentam em fases semelhantes, pois alguns apresentam melhores índices que outros. Continue lendo “Uma leitura do atual cenário macroeconômico”

A tríade vitruviana no século 21

Marcus Vitruvius Pollio é autor de um dos mais antigos tratados ocidentais de arquitetura e urbanismo a chegar a nossos dias. De Architectura, escrito em 10 volumes, levou mais de uma década para ser concluído (foi publicado aproximadamente no ano 16 a.C.) e trouxe o princípio de três pontos que inspirou muitos textos do Renascimento, alguns muito influentes até a atualidade.

Os três pontos da tríade vitruviana – utilidade (utilitas), beleza (venustas) e estabilidade (firmitas) não deixaram de estar presentes, apenas são lidas hoje num contexto muito diverso do original da época em que o tratado foi escrito. Mais do que isso, muitas novas preocupações são adicionadas a cada um dos três pontos, levando em consideração o entendimento da edificação como um sistema inserido em um ambiente complexo, com trocas e realimentações constantes. Continue lendo “A tríade vitruviana no século 21”

O que é Project Finance?

Project Finance é uma modalidade de estruturação financeira para a realização de projetos de grande porte, onde a principal fonte de receita para o pagamento do serviço da dívida de seu financiamento e do produto ou serviço resultante vem do fluxo de caixa gerado pela sua própria operação. Quando 100% dos recursos para o pagamento da dívida vem do fluxo do projeto, é chamado project finance non recourse, ou project finance puro. Esta característica de autofinanciamento permite a realização de projetos cujo porte seja superior ao de seu patrocinador. Portanto, é adequado para:

  • Projetos de vulto, onde o patrimônio da empresa seria insuficiente para aproveitar uma oportunidade de investimento tradicional (corporate finance)
  • Projetos de longo prazo de maturação, em que o investidor tradicional não se interessaria pelo período de retorno do capital (payback) alongado
  • Projetos de infraestrutura onde o poder público não possui recursos suficientes para sua realização, especialmente em países em desenvolvimento, onde o Estado tem baixa capacidade de financiamento de obras públicas
  • Parcerias público-privadas (PPP), onde a aliança de capital viabilize projetos de interesse público de forma atraente ao investidor privado. Neste formato, o poder público transfere os riscos da construção e da operação à iniciativa privada para maior eficiência em sua própria operação

O Project Finance possui uma engenharia financeira complexa e altamente alavancada. Por este motivo, o foco de interesse principal é a gestão de seus riscos. Não significa necessariamente que o Project Finance seja mais arriscado que o Corporate Finance – tudo depende da estruturação do projeto, em especial quanto à estruturação das garantias.

Este tipo de financiamento é muito utilizado em todo o mundo há décadas, e tem financiado projetos ligados a Continue lendo “O que é Project Finance?”

A redução do compulsório e o mercado imobiliário

Todo Banco Central que se preze limita a alavancagem bancária (volume de recursos de terceiros em relação aos recursos próprios). A limitação é feita com diversos instrumentos que servem também à política monetária, porque os bancos são multiplicadores de moeda na economia. Um desses instrumentos é aplicado ao seu rico dinheirinho que sobrou na poupança (e não me diga que você não está aproveitando os belos retornos de LCI e Tesouro com risco inferior ao da poupança…).

Funciona assim: o governo exige que uma parte dos depósitos em poupança fique bloqueado na conta movimento do banco no Bacen. O resto, o banco pode emprestar e ganhar o seu lucro na diferença, o spread. Esse bloqueio é chamado depósito compulsório, e reduz a multiplicação da moeda pelo sistema bancário. O que sobra, pode ser Continue lendo “A redução do compulsório e o mercado imobiliário”

O insuperado Brasil rural (ou a Copa Caipira)

A população urbana brasileira só ultrapassou a rural nos anos 1950, muito tarde se compararmos isso com a realidade paralela da Argentina, por exemplo. Nossos “hermanos” já eram extremamente industrializados, urbanos, instruídos, e tinham um presidente da República no final do século XIX. Tinham até água tratada distribuída em redes urbanas por Buenos Aires naquela época, antes mesmo de Chicago. Enquanto isso, nós aqui tínhamos um Imperador, engatinhávamos na construção de um conceito preliminar de nação a ser distribuído entre uma grande massa de imigrantes, ex-escravos e indígenas. Aliás, tínhamos acabado de encerrar a escravidão, um dos últimos países do mundo a fazer isso. Vergonha.

Enquanto os países mais progressistas pensavam em inovação tecnológica, produtividade e vender valor agregado para dar melhor qualidade de vida a seus habitantes, éramos um país agrário-exportador, pouco produtivo, pouco instruído, com profundas deficiências estruturais internas e sem investimentos em instituições que pudessem alterar este quadro. Continue lendo “O insuperado Brasil rural (ou a Copa Caipira)”

Que riscos o Brasil corre?

O Ministro da Fazenda Guido Mantega anunciou no último dia 6, que o país não cumprirá a meta cheia de superávit primário e deixou alguns analistas apreensivos. Isso ocorre porque o tal superávit primário é o resultado das contas do governo, tirando apenas o pagamento dos juros. O conceito é o de sempre: receitas menos despesas. Há vários anos o Brasil vem fazendo sua lição de casa e cumprindo essa meta, motivo pelo qual não estamos mais tão vulneráveis a ataques especulativos estrangeiros, como ocorreu nos primeiros anos do Plano Real.

O que significa não cumprir essa meta? Significa que nossas contas já não estão mais tão positivas, há um equilíbrio maior entre entradas e saídas de recursos. Mas pouco se disse que nos últimos anos o Brasil tem também batido recordes de arrecadação. A União nunca arrecadou tanto. Portanto, o governo nunca gastou tanto como atualmente. E os entusiastas das políticas econômicas atuais podem perguntar: há algum problema nisso?

Façamos uma análise fria para responder. Economias da Europa e Estados Unidos ainda estão em recuperação (e vai demorar para voltarem à linha natural de tendência). A Europa tem profundos problemas fiscais que não serão solucionados do dia para a noite, possuem endividamento muito alto em relação à arrecadação atual. Agora precisam reduzir bruscamente os gastos públicos, penalizando toda a população. Por que se endividaram tanto? Por que no passado suas economias iam bem. Exatamente como ocorre no Brasil de hoje. Mas foram surpreendidos pela crise bancária americana de 2008. Algumas economias, como a espanhola e a grega ampliaram muito seus endividamentos para bancar Jogos Olímpicos, emitindo títulos que não estão agora conseguindo pagar. Alguma semelhança? Continue lendo “Que riscos o Brasil corre?”