Colômbia e Peru estão ganhando do Brasil. Disparado.

Edifício público em Bogotá, Colômbia. Foto Emilene Miossi.

O brasileiro costuma ter certo preconceito em relação à Colômbia e ao Peru. Preconceito é quando formamos um conceito antes de conhecer de verdade. Porque se conhecêssemos, saberíamos que esses dois países estão ganhando do Brasil em desenvolvimento econômico desde 2007. Sem falar que, em distribuição de renda, ganham de nós há muito mais tempo. O Peru, por exemplo, cresce numa média superior a 6% ao ano desde 2007. O Brasil de 2012 não cresceu nem 1%.

O que eles estão fazendo para isso? Afinal, são basicamente exportadores de commodities, assim como nós. Mas as empresas deles estão ganhando valor como nunca. A Ecopetrol, petroleira da Colômbia, já é a terceira empresa de maior valor da América Latina (passou a Vale, o Itaú Unibanco e o Bradesco). O segredo deles é o mesmo que fez o Brasil pré-Dilma deslanchar: controle monetário para dominar a inflação e controle fiscal. Mas adicionaram algo que não temos, carga tributária em patamares mais racionais. Continuar lendo Colômbia e Peru estão ganhando do Brasil. Disparado.

Ferramentas que o prefeito tem – e não usa

A lei federal 10.257, também conhecida como Estatuto da Cidade, foi criada em 2001 e trouxe vários instrumentos urbanísticos para as mãos dos prefeitos. Só alguns desses instrumentos estão sendo utilizados, mesmo estando em vigor há mais de 11 anos. Não sei o motivo de não serem utilizados, mas veja só o que sua prefeitura poderia estar fazendo há vários anos:

  1. Parcelamento, edificação e utilização compulsórios: permite que a prefeitura utilize os terrenos e edifícios abandonados que hoje degradam sua cidade para resolver problemas variados. O princípio da propriedade privada é preservado, mas lembre-se que a Constituição trouxe também o princípio da função social da propriedade. Você tem direito à propriedade se ela cumprir sua função social. O objetivo é combater a retenção especulativa de terras urbanas, que historicamente transfere investimento público em infra-estrutura a bolsos particulares através do lucro imobiliário. O especulador tradicional compra terras em áreas de expansão urbana e não faz nada com elas esperando por sua valorização. O desenvolvimento urbano se vê obrigado a ocorrer cada vez mais longe dos centros e dos centros de emprego e trabalho da população. Resultado: a prefeitura (dinheiro público) tem que investir em expandir redes de água, luz, esgoto, transportes, educação, saúde, etc. para bairros cada vez mais distantes, cobrindo, por tabela, as áreas vazias. Quando o terreno valoriza, o proprietário vende ou empreende se apropriando do lucro financiado por todos nós.
    Este instrumento permite que a prefeitura notifique estes proprietários para que façam alguma coisa com o imóvel vazio ou não utilizado em dois anos. Caso contrário, passa-se ao instrumento seguinte (IPTU progressivo). A utilização deste instrumento em vários municípios permitiu que vários terrenos fossem oferecidos ao mercado imobiliário, reduzindo o preço da terra e viabilizando a oferta de habitação mais barata (pelo menos durante algum tempo, antes do boom imobiliário). Vários municípios utilizam este instrumento. Continuar lendo Ferramentas que o prefeito tem – e não usa

O que é BDI?

A construção civil tem uma particularidade em relação a outras indústrias: seus clientes exigem o detalhamento do orçamento item a item, mostrando o preço de custo de cada um. E como não há quem sobreviva vendendo a preço de custo, a incidência de indiretos e as margens devem ser, de alguma forma, adicionados ao preço de custo para que o preço de venda ao cliente final apareça na própria planilha orçamentária, pois esta é também a quantificação da proposta comercial. Para resolver esse problema, foi estabelecida a prática de criar um índice único aplicado a todos os itens do orçamento, agregando a incidência de indiretos e as margens de forma global.

Há alguns problemas conceituais com o BDI. As duas últimas letras da sigla significam Despesas Indiretas, porém o BDI inclui também os Custos Indiretos (se você não conhece a diferença, veja o post anterior). Outro problema terminológico é quando afirma que inclui “impostos”, quando inclui também outros tipos de tributos. E há alguns tipos de tributos (impostos inclusive) que NÃO estão incluídos no BDI. O Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ) é um exemplo. A letra B significa benefícios ou bonificação, no sentido de margem de lucro (e não no do Lucro em si, como está em sua definição).

Mas é claro que o maior problema não é o terminológico com o BDI, e sim os que trazem consequências práticas para a construtora. E calcular um índice único para toda a produção com orçamento aberto ao cliente é o maior desafio. Cada item tem características próprias criando fortes distinções e exigências da administração central entre eles. Mas o BDI, em geral, deve ser único para todo o orçamento. Portanto, para o cálculo do índice, a empresa tem que ter uma estimativa razoavelmente precisa de seus gastos e dos retornos da obra como um pacote fechado. E precisa conhecer bem suas despesas centrais a serem diluídas entre diversas obras, assim como a margem de lucro possível frente a seu mercado.

A definição do BDI (que não é necessariamente a forma como ele é efetivamente calculado pelas construtoras) é a seguinte: Continuar lendo O que é BDI?

Adm para arquitetos 7: alavancagem operacional do escritório

Talvez você esteja se perguntando por que sempre citamos custos e despesas, se há alguma diferença entre eles. Pode parecer um preciosismo terminológico inútil dividir os gastos em duas categorias, mas não é. A gestão financeira correta e sobrevivência da empresa dependem de visualizá-los no dia a dia e geri-los adequadamente. Falhas nesse sentido costumam estar presentes em empresas insolventes – aquelas que não conseguem mais honrar seus compromissos financeiros e estão com um pé na cova e outra na casca de banana.

Os conceitos são, na verdade, bem simples. Veja o seguinte exemplo: um arquiteto recém-formado resolveu construir um escritório atelier seu, do zero. Para isso, usou suas economias para os itens básicos de um arquiteto: comprou um computador, uma mesa, cadeira, telefone, impressora, papel, etc. Para cada item pesquisou preços e qualidade pesando a melhor decisão em cada caso – procurou economizar onde fosse possível, mas não abriu mão de um mínimo de qualidade. Este é o custo, são gastos diretamente ligados à produção.

Custo: gasto relativo a bem ou serviço utilizado na produção de outros bens ou serviços. Martins (2001, p.25)

Logo o pobre arquiteto percebeu que nenhum cliente aparecia porque não o conhecia. Precisava fazer alguma propaganda, vender seu peixe. Fez cartões de visita e uma página na Internet. Quando os primeiros clientes apareceram, percebeu que não gostavam muito de vê-lo trabalhando em casa, não parecia muito profissional e confiável. Teve que alugar uma pequena sala comercial, para a qual foi necessário também combinar com uma faxineira que o limpasse de vez em quando. Outros clientes passaram a exigir Nota Fiscal ou Recibo de Pagamento a Autônomo – RPA. Teve que se regularizar perante o fisco, pagar tributos, pagar contador. Todo este segundo bloco de gastos são as despesas. Elas não estão ligadas à produção, este é o conceito chave para diferenciá-las dos custos.

Despesa: bem ou serviço consumido direta ou indiretamente para a obtenção de receitas.

A despesa pode ser vista como uma espécie de “mal necessário”. Não era onde o arquiteto pretendia investir suas economias, mas não há como permanecer no mercado se não atender a essas necessidades.

Agora vejamos a diferença entre elas para a saúde da empresa. Imagine uma empresa que teve este resultado financeiro:

Receita:                                   7.000

(-) Gastos:                               6.500

Resultado:                                  500

Veja como é difícil imaginarmos uma forma de melhorar o resultado com tão poucas informações. Seria muito diferente se os gastos estivessem bem discriminados:

Receita:                                   7.000

(-) Custos:                               2.000  (28,6%)

Resultado operacional:            5.000

(-) Despesas fixas:                 4.500  (64,3%)

Resultado:                                  500

Há uma desproporção entre custos e despesas – estas últimas representam 64,3% da receita, mais que o dobro dos custos. Talvez nosso amigo arquiteto devesse procurar um imóvel mais barato, estudar modalidades de empresas que pagam menos tributos, ou se associar a outras pessoas na mesma situação para compartilhar espaços ou mesmo a empresa (um sócio).

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Administração para arquitetos 6: a conta errada dos escritórios de arquitetura

Apresentarei agora uma situação absurda – e real, infelizmente. Trata-se de um erro grosseiro de matemática de ensino primário. O absurdo é que muitos escritórios de arquitetura cometem exatamente este erro, de forma sistemática, a toda proposta comercial que emitem. Presenciei inúmeras vezes isso ocorrer em diversos escritórios em que trabalhei, até desenvolvi este exemplo abaixo para explicar a diversos “arquitetos-empresários” que a conta está errada. E, acredite, é difícil convencer um arquiteto com argumentos matemáticos. Talvez se eu usasse conceitos metafísicos seria mais fácil…

Suponha a seguinte situação hipotética: um arquiteto desavisado estima que determinado projeto lhe custará R$1.000. Além disso, foi informado que além dos custos, é essencial adicionar uma margem para continuar trabalhando e reinvestir no escritório (na empresa). Ele define uma margem de 5%. Sabe também que há uma incidência de 15% de tributos sobre o preço. Assim, calcula o preço mínimo do projeto:

Custo do projeto                        R$ 1.000

Margem (5%)                              R$      50

Preço antes dos tributos           R$ 1.050

Tributos (15% x R$ 1.050)        R$    157,50

          Preço do projeto                  R$ 1.207,50

Está tudo errado, mas muita gente faz este raciocínio, mesmo sendo incorreto. Fazem com mais números e com uma conta mais comprida numa planilha eletrônica bonitinha (nisso somos bons), mas fazem exatamente esse raciocínio equivocado. Vejamos o que aconteceu com o pobre arquiteto do exemplo, considerando que o cliente aceitou o preço, com centavos e tudo. Calculemos a tributação:

Tributos = 1.207,50 x 15% = 181,13

Sobrou então para o arquiteto:

Valor pago pelo cliente        R$ 1.207,50

(-) Tributos                            R$    181,13

Sobra ao arquiteto             R$ 1.026,37 (!)

O que aconteceu? Devia ter sobrado R$ 1.050 pela conta do novato… A margem caiu para 2,6% porque o pobre arquiteto (agora mais pobre ainda) não aprendeu matemática direito. O erro pode parecer pequeno, mas o exemplo é para um projetinho que custa R$ 1.000. Imagine com um projeto que custe R$ 1 milhão. O erro seria de mais de R$ 23 mil reais!

Aí vai o cálculo correto (em destaque onde normalmente se erra):

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