Recebi esta imagem de uma amiga, achei muito interessante. Um “Rockefeller Center de São Paulo”.
Valeu, Skity!
A construção civil tem uma particularidade em relação a outras indústrias: seus clientes exigem o detalhamento do orçamento item a item, mostrando o preço de custo de cada um. E como não há quem sobreviva vendendo a preço de custo, a incidência de indiretos e as margens devem ser, de alguma forma, adicionados ao preço de custo para que o preço de venda ao cliente final apareça na própria planilha orçamentária, pois esta é também a quantificação da proposta comercial. Para resolver esse problema, foi estabelecida a prática de criar um índice único aplicado a todos os itens do orçamento, agregando a incidência de indiretos e as margens de forma global.
Há alguns problemas conceituais com o BDI. As duas últimas letras da sigla significam Despesas Indiretas, porém o BDI inclui também os Custos Indiretos (se você não conhece a diferença, veja o post anterior). Outro problema terminológico é quando afirma que inclui “impostos”, quando inclui também outros tipos de tributos. E há alguns tipos de tributos (impostos inclusive) que NÃO estão incluídos no BDI. O Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ) é um exemplo. A letra B significa benefícios ou bonificação, no sentido de margem de lucro (e não no do Lucro em si, como está em sua definição).
Mas é claro que o maior problema não é o terminológico com o BDI, e sim os que trazem consequências práticas para a construtora. E calcular um índice único para toda a produção com orçamento aberto ao cliente é o maior desafio. Cada item tem características próprias criando fortes distinções e exigências da administração central entre eles. Mas o BDI, em geral, deve ser único para todo o orçamento. Portanto, para o cálculo do índice, a empresa tem que ter uma estimativa razoavelmente precisa de seus gastos e dos retornos da obra como um pacote fechado. E precisa conhecer bem suas despesas centrais a serem diluídas entre diversas obras, assim como a margem de lucro possível frente a seu mercado.
A definição do BDI (que não é necessariamente a forma como ele é efetivamente calculado pelas construtoras) é a seguinte: Continuar lendo O que é BDI?
Talvez você esteja se perguntando por que sempre citamos custos e despesas, se há alguma diferença entre eles. Pode parecer um preciosismo terminológico inútil dividir os gastos em duas categorias, mas não é. A gestão financeira correta e sobrevivência da empresa dependem de visualizá-los no dia a dia e geri-los adequadamente. Falhas nesse sentido costumam estar presentes em empresas insolventes – aquelas que não conseguem mais honrar seus compromissos financeiros e estão com um pé na cova e outra na casca de banana.
Os conceitos são, na verdade, bem simples. Veja o seguinte exemplo: um arquiteto recém-formado resolveu construir um escritório atelier seu, do zero. Para isso, usou suas economias para os itens básicos de um arquiteto: comprou um computador, uma mesa, cadeira, telefone, impressora, papel, etc. Para cada item pesquisou preços e qualidade pesando a melhor decisão em cada caso – procurou economizar onde fosse possível, mas não abriu mão de um mínimo de qualidade. Este é o custo, são gastos diretamente ligados à produção.
Custo: gasto relativo a bem ou serviço utilizado na produção de outros bens ou serviços. Martins (2001, p.25)
Logo o pobre arquiteto percebeu que nenhum cliente aparecia porque não o conhecia. Precisava fazer alguma propaganda, vender seu peixe. Fez cartões de visita e uma página na Internet. Quando os primeiros clientes apareceram, percebeu que não gostavam muito de vê-lo trabalhando em casa, não parecia muito profissional e confiável. Teve que alugar uma pequena sala comercial, para a qual foi necessário também combinar com uma faxineira que o limpasse de vez em quando. Outros clientes passaram a exigir Nota Fiscal ou Recibo de Pagamento a Autônomo – RPA. Teve que se regularizar perante o fisco, pagar tributos, pagar contador. Todo este segundo bloco de gastos são as despesas. Elas não estão ligadas à produção, este é o conceito chave para diferenciá-las dos custos.
Despesa: bem ou serviço consumido direta ou indiretamente para a obtenção de receitas.
A despesa pode ser vista como uma espécie de “mal necessário”. Não era onde o arquiteto pretendia investir suas economias, mas não há como permanecer no mercado se não atender a essas necessidades.
Agora vejamos a diferença entre elas para a saúde da empresa. Imagine uma empresa que teve este resultado financeiro:
Receita: 7.000
(-) Gastos: 6.500
Resultado: 500
Veja como é difícil imaginarmos uma forma de melhorar o resultado com tão poucas informações. Seria muito diferente se os gastos estivessem bem discriminados:
Receita: 7.000
(-) Custos: 2.000 (28,6%)
Resultado operacional: 5.000
(-) Despesas fixas: 4.500 (64,3%)
Resultado: 500
Há uma desproporção entre custos e despesas – estas últimas representam 64,3% da receita, mais que o dobro dos custos. Talvez nosso amigo arquiteto devesse procurar um imóvel mais barato, estudar modalidades de empresas que pagam menos tributos, ou se associar a outras pessoas na mesma situação para compartilhar espaços ou mesmo a empresa (um sócio).
Continuar lendo Adm para arquitetos 7: alavancagem operacional do escritório
Apresentarei agora uma situação absurda – e real, infelizmente. Trata-se de um erro grosseiro de matemática de ensino primário. O absurdo é que muitos escritórios de arquitetura cometem exatamente este erro, de forma sistemática, a toda proposta comercial que emitem. Presenciei inúmeras vezes isso ocorrer em diversos escritórios em que trabalhei, até desenvolvi este exemplo abaixo para explicar a diversos “arquitetos-empresários” que a conta está errada. E, acredite, é difícil convencer um arquiteto com argumentos matemáticos. Talvez se eu usasse conceitos metafísicos seria mais fácil…
Suponha a seguinte situação hipotética: um arquiteto desavisado estima que determinado projeto lhe custará R$1.000. Além disso, foi informado que além dos custos, é essencial adicionar uma margem para continuar trabalhando e reinvestir no escritório (na empresa). Ele define uma margem de 5%. Sabe também que há uma incidência de 15% de tributos sobre o preço. Assim, calcula o preço mínimo do projeto:
Custo do projeto R$ 1.000
Margem (5%) R$ 50
Preço antes dos tributos R$ 1.050
Tributos (15% x R$ 1.050) R$ 157,50
Preço do projeto R$ 1.207,50
Está tudo errado, mas muita gente faz este raciocínio, mesmo sendo incorreto. Fazem com mais números e com uma conta mais comprida numa planilha eletrônica bonitinha (nisso somos bons), mas fazem exatamente esse raciocínio equivocado. Vejamos o que aconteceu com o pobre arquiteto do exemplo, considerando que o cliente aceitou o preço, com centavos e tudo. Calculemos a tributação:
Tributos = 1.207,50 x 15% = 181,13
Sobrou então para o arquiteto:
Valor pago pelo cliente R$ 1.207,50
(-) Tributos R$ 181,13
Sobra ao arquiteto R$ 1.026,37 (!)
O que aconteceu? Devia ter sobrado R$ 1.050 pela conta do novato… A margem caiu para 2,6% porque o pobre arquiteto (agora mais pobre ainda) não aprendeu matemática direito. O erro pode parecer pequeno, mas o exemplo é para um projetinho que custa R$ 1.000. Imagine com um projeto que custe R$ 1 milhão. O erro seria de mais de R$ 23 mil reais!
Aí vai o cálculo correto (em destaque onde normalmente se erra):
Continuar lendo Administração para arquitetos 6: a conta errada dos escritórios de arquitetura
O formato de escritório-atelier é muito comum entre os arquitetos do mundo todo. O principal trade-off enfrentado por este tipo de profissional quanto ao tamanho da empresa é a dificuldade de crescer e obter economia de escala sem perder a qualidade, a singularidade e a personalidade de projetos ao tentar diluir demais recursos especializados. Assim sendo, existem dois formatos básicos em que se enquadram a maioria das empresas de arquitetura no Brasil: Continuar lendo Administração para arquitetos 3: as duas estratégias principais