A lição da assertividade Inca

Entendo que as mitologias são metáforas para transmitir e perpetuar conceitos considerados importantes para uma cultura. E a atualidade dos conceitos embutidos em mitos Incas são impressionantes. Estou pensando em um caso específico, o da constituição da Cusco incaica, tal como os espanhois a encontraram em 1536.

Cusco. Foto de Emilene Miossi.
Cusco. Foto de Emilene Miossi.

Inca Garcilaso de la Vega, filho da união de uma princesa Inca com um capitão espanhol, viveu entre dois mundos durante o século 17. Não tinha interesse em ser historiador, mas registrou em linguagem escrita boa parte da mitologia Inca, até então transmitida apenas de oralmente. Ele conta que “Nosso Pai Sol”, vendo que os seres humanos levavam uma vida muito primitiva, se apiedou e deixou aqui uma filha e um filho seus. Estes teriam a missão de nos trazer leis e orientações para que vivêssemos em razão e urbanidade, para nos ensinar a vivermos em casas e cidades, a trabalhar a terra de forma mais produtiva, o cultivo de plantas, a criação de gado. Continuar lendo A lição da assertividade Inca

América hispânica como espelho

Estou percebendo que conhecer nossos vizinhos é um ótimo exercício de auto-conhecimento. Nos ensina sobre nossas virtudes e pecados.

Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi nossa violência. Nem Bogotá é tão violenta quanto o Rio de Janeiro. E a crescente onda de violência que acompanha pari passu a decadência econômica da Argentina ainda não os levou a nossos níveis de amedrontamento urbano. Incrível como é possível viver com paz nas cidades, mesmo as mais pobres. E é nítido que o crime não tem, necessariamente, correlação com desempenho econômico ou pobreza. Chegando em Lima, ouvi: “Brasileiro? Não se preocupe, a área central daqui é segura, pode andar com câmera, celular e relógio sem se preocupar.” E é mesmo. Quando chego a Cusco, descubro que é mais segura que Lima. Em Montevideo, o comentário: “aqui também está ficando perigoso, estamos tendo que trancar a porta quando saímos de casa”. Não sei se dá pena ou inveja. Por que temos que conviver com essa guerra civil todo dia?

Por outro lado, o problema não é exclusividade nossa. A moça de El Salvador na trilha de Intipunku, Machu Picchu comenta: “Estava com receio de subir sozinha, de ser muito ermo. Ainda bem que havia mais gente no caminho.” Pensamento brasileiro. Duas mulheres no aeroporto comentando sobre a violência urbana da Guatemala: “temos que aprender a conviver com isso, qualquer lugar é perigoso”. Quem nunca ouviu isso em São Paulo? Uma amiga me relatou um assalto violento em Buenos Aires que sofreu com o namorado. E o argentino que pensava que era inglês, onde foi parar? Continuar lendo América hispânica como espelho

Ferramentas que o prefeito tem – e não usa

A lei federal 10.257, também conhecida como Estatuto da Cidade, foi criada em 2001 e trouxe vários instrumentos urbanísticos para as mãos dos prefeitos. Só alguns desses instrumentos estão sendo utilizados, mesmo estando em vigor há mais de 11 anos. Não sei o motivo de não serem utilizados, mas veja só o que sua prefeitura poderia estar fazendo há vários anos:

  1. Parcelamento, edificação e utilização compulsórios: permite que a prefeitura utilize os terrenos e edifícios abandonados que hoje degradam sua cidade para resolver problemas variados. O princípio da propriedade privada é preservado, mas lembre-se que a Constituição trouxe também o princípio da função social da propriedade. Você tem direito à propriedade se ela cumprir sua função social. O objetivo é combater a retenção especulativa de terras urbanas, que historicamente transfere investimento público em infra-estrutura a bolsos particulares através do lucro imobiliário. O especulador tradicional compra terras em áreas de expansão urbana e não faz nada com elas esperando por sua valorização. O desenvolvimento urbano se vê obrigado a ocorrer cada vez mais longe dos centros e dos centros de emprego e trabalho da população. Resultado: a prefeitura (dinheiro público) tem que investir em expandir redes de água, luz, esgoto, transportes, educação, saúde, etc. para bairros cada vez mais distantes, cobrindo, por tabela, as áreas vazias. Quando o terreno valoriza, o proprietário vende ou empreende se apropriando do lucro financiado por todos nós.
    Este instrumento permite que a prefeitura notifique estes proprietários para que façam alguma coisa com o imóvel vazio ou não utilizado em dois anos. Caso contrário, passa-se ao instrumento seguinte (IPTU progressivo). A utilização deste instrumento em vários municípios permitiu que vários terrenos fossem oferecidos ao mercado imobiliário, reduzindo o preço da terra e viabilizando a oferta de habitação mais barata (pelo menos durante algum tempo, antes do boom imobiliário). Vários municípios utilizam este instrumento. Continuar lendo Ferramentas que o prefeito tem – e não usa

Adm para arquitetos 7: alavancagem operacional do escritório

Talvez você esteja se perguntando por que sempre citamos custos e despesas, se há alguma diferença entre eles. Pode parecer um preciosismo terminológico inútil dividir os gastos em duas categorias, mas não é. A gestão financeira correta e sobrevivência da empresa dependem de visualizá-los no dia a dia e geri-los adequadamente. Falhas nesse sentido costumam estar presentes em empresas insolventes – aquelas que não conseguem mais honrar seus compromissos financeiros e estão com um pé na cova e outra na casca de banana.

Os conceitos são, na verdade, bem simples. Veja o seguinte exemplo: um arquiteto recém-formado resolveu construir um escritório atelier seu, do zero. Para isso, usou suas economias para os itens básicos de um arquiteto: comprou um computador, uma mesa, cadeira, telefone, impressora, papel, etc. Para cada item pesquisou preços e qualidade pesando a melhor decisão em cada caso – procurou economizar onde fosse possível, mas não abriu mão de um mínimo de qualidade. Este é o custo, são gastos diretamente ligados à produção.

Custo: gasto relativo a bem ou serviço utilizado na produção de outros bens ou serviços. Martins (2001, p.25)

Logo o pobre arquiteto percebeu que nenhum cliente aparecia porque não o conhecia. Precisava fazer alguma propaganda, vender seu peixe. Fez cartões de visita e uma página na Internet. Quando os primeiros clientes apareceram, percebeu que não gostavam muito de vê-lo trabalhando em casa, não parecia muito profissional e confiável. Teve que alugar uma pequena sala comercial, para a qual foi necessário também combinar com uma faxineira que o limpasse de vez em quando. Outros clientes passaram a exigir Nota Fiscal ou Recibo de Pagamento a Autônomo – RPA. Teve que se regularizar perante o fisco, pagar tributos, pagar contador. Todo este segundo bloco de gastos são as despesas. Elas não estão ligadas à produção, este é o conceito chave para diferenciá-las dos custos.

Despesa: bem ou serviço consumido direta ou indiretamente para a obtenção de receitas.

A despesa pode ser vista como uma espécie de “mal necessário”. Não era onde o arquiteto pretendia investir suas economias, mas não há como permanecer no mercado se não atender a essas necessidades.

Agora vejamos a diferença entre elas para a saúde da empresa. Imagine uma empresa que teve este resultado financeiro:

Receita:                                   7.000

(-) Gastos:                               6.500

Resultado:                                  500

Veja como é difícil imaginarmos uma forma de melhorar o resultado com tão poucas informações. Seria muito diferente se os gastos estivessem bem discriminados:

Receita:                                   7.000

(-) Custos:                               2.000  (28,6%)

Resultado operacional:            5.000

(-) Despesas fixas:                 4.500  (64,3%)

Resultado:                                  500

Há uma desproporção entre custos e despesas – estas últimas representam 64,3% da receita, mais que o dobro dos custos. Talvez nosso amigo arquiteto devesse procurar um imóvel mais barato, estudar modalidades de empresas que pagam menos tributos, ou se associar a outras pessoas na mesma situação para compartilhar espaços ou mesmo a empresa (um sócio).

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