A metáfora de La casa de papel

Se você ficou com a impressão de que o seriado La Casa de Papel, da Netflix, é mais que um simples seriado de assalto, acertou. Mas, para entender o que está nas entrelinhas da série, é necessário entender o contexto espanhol do roteiro.

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Essa história começa em 2002, quando o euro entrou em circulação. O Banco Central Europeu (BCE) transmitia para a moeda a imagem de segurança de sólidas instituições financeiras alemãs, belgas e holandesas. E, mesmo países que não possuíam o mesmo nível de renda per capita (como a Espanha, Portugal, Itália e Grécia), beneficiaram-se da classificação de risco e puderam tomar empréstimos a baixo custo financeiro.

O segundo capítulo da história veio em 2008, quando o governo dos Estados Unidos não salvou o banco Lehman Brothers da falência. Isso significava que a crise hipotecária americana, já identificada em 2007, não seria absorvida pelo Fed (o banco central dos Estados Unidos). Uma série de fundos europeus poderiam não valer nada, e a fase mais aguda da crise na Europa viria nos anos seguintes.

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A Espanha pagou um preço caro pelo euro: quebra de seu mercado imobiliário, crise fiscal, desemprego altíssimo foram só alguns dos problemas. Em meio à miséria econômica, o Banco Central Europeu emitia moeda como nunca, injetando liquidez na economia através da garantia de liquidez dos bancos.

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Hoje, dez anos após o estopim da crise, a recuperada Espanha ainda sente as feridas deixadas pelo passado recente, e é natural o questionamento sobre custos e benefícios da moeda unificada. Continue lendo “A metáfora de La casa de papel”

Por que devo ficar com o título do tesouro até o vencimento?

O tesouro direto é um dos investimentos mais seguros hoje no Brasil. Em outros países isso significaria baixo rendimento (ou até negativo). Mas aqui, por uma série de idiossincrasias de nossas políticas econômica e fiscal, é também um investimento de retorno interessante mesmo para riscos maiores.

Porém, o retorno só é garantido para a data do vencimento do título. Antes disso, uma eventual venda seria feita em mercado secundário, precificada por marcação a mercado. Portanto, antes do vencimento, tudo pode acontecer, e este título se comporta como renda variável. Continue lendo “Por que devo ficar com o título do tesouro até o vencimento?”

Retrospectiva da crise 2014-2016

A crise política virou crise econômica, que depois virou crise política de novo. Mas ficou meio esquecido que a origem disso tudo está nas políticas fiscal e monetária do governo na última década. A leniência com o desequilíbrio fiscal e a intervenção pesada do planalto no Bacen forçou a Selic meta artificialmente para baixo. Explico: quando um país não fecha suas contas no azul, o investidor pede um prêmio maior pelo risco (o risco-país). Desequilíbrios nas contas públicas ampliaram este risco, o que deveria elevar a Selic – mas ocorreu o contrário por intervenção política. Em países de nível educacional elevado, seria uma ação sumariamente condenada pela opinião pública. Mas não no Brasil da ignorância econômica. Nesta terra de consumo, o crédito fácil era comemorado, e o governo ficava livre para se endividar ainda mais.

Quem observou direito o cenário percebeu que a conta que não fechava não se sustentaria por muito tempo – em algum momento o orçamento do governo seria pressionado. E quem faz investimentos tem este tipo de percepção. O crescimento baseado no consumo é voo de galinha, logo cai. E a queda na poupança agregada ajudou a frear os investimentos. Produzindo pouco, o país ficava mais pobre em silêncio, enquanto as massas continuavam enfeitiçadas pelo consumo sem lastro. Aumentaram as dívidas das famílias, e o risco aumentava mais. Continue lendo “Retrospectiva da crise 2014-2016”

Preços de imóveis no Brasil: retrato da alta dos últimos anos

A revista britânica The Economist disponibilizou um comparativo de evolução de preços de imóveis em diversos países.

Mesmo sabendo que tivemos uma recuperação de preços defasados desde o final da década de 1970, o crescimento é impressionante. O explosivo mercado de Hong Kong ficou abaixo da nossa alta.

Veja como é raro observar queda nominal de preços. Só na Grécia isso ocorreu no longo prazo.

O comparativo toma por base o primeiro trimestre de 2008.

  

Aluguel, o pior negócio 

Já falamos aqui sobre o mau negócio que tem sido investir em imóveis para aluguel.

Veja agora a comparação entre o preço dos aluguéis de São Paulo (capital) e o IGP-M (FGV).

  
Gráfico desenvolvido pelo Secovi-SP.

Detalhe: no início do gráfico (nov/14), a situação já era desvantajosa para o proprietário.

Por que a inflação voltou?

Inflação é um bichinho esquisito, que se alimenta dele mesmo. E não é uma coisa só. A inflação brasileira, por tradição, nasce de desajustes monetários e fiscais do governo. Depois ganha uns impulsos quando nossa moeda se desvaloriza (inflação cambial), quando os custos de insumos básicos sobem por queda na oferta (inflação de custos). Além disso, muitos ofertantes precisam decidir preços com antecedência, e projetam o cenário futuro a partir do histórico disponível. Em outras palavras, se os preços vinham subindo, a formação de preços considera que continuarão subindo no próximo período, e ajusta seus preços para cima. E este movimento dá novo impulso à inflação e a torna permanente (inflação inercial). O governo deve, para evitar que tudo isso comece, controlar rigorosamente seus gastos e suas emissões monetárias. Quanto mais moeda há na economia, mais inflação aparece. É por isso que o Plano Real só deu certo e se consolidou com a Lei de Responsabilidade Fiscal em vigor.

Mas, nos últimos anos, nosso governo deixou de lado estas premissas, relaxou o controle monetário e fiscal e “maquiou” sua própria contabilidade para cumprir com suas metas fiscais “oficiais”, enquanto inundava o mercado com mais moeda em busca de crescimento econômico. O Brasil cresce muito pouco atualmente, perde para quase todos os países da América do Sul (Peru e Colômbia ganham de goleada de nós) e perde para os demais BRICS. Algumas vezes, o que freia o crescimento de um país é falta de moeda, e a solução é colocar mais moeda no mercado. Não foi o nosso caso. Mesmo com mais moeda em circulação, a economia não andou. E a inflação apareceu, ameaçando trazer ao Brasil um dos piores cenários econômicos possíveis, a estagflação (estagnação econômica + inflação).

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