Blade Runner 2049: a confirmação da condição pós-moderna

Se pelo lado ontológico da vida permanecem e se aguçam as características pós-modernas identificados por Harvey e Baudrillard (apesar de nossa arquitetura e mercado imobiliário ainda não as interpretarem adequadamente à cultura nacional), pelo lado metafórico da arte elas se confirmam na mais recente evidência qualificada, em Blade Runner 2049. A condição contemporânea é tão evidente que questões cotidianas aparecem com naturalidade e até certo humor irônico no roteiro que dá sequência ao filme de 1982. Desumanização, fragmentação, virtualidade, predominância da representação sobre o representado, contextualismo são alguns pontos que permanecem de forma harmônica com a época atual, corroborando previsões que não são do início dos anos 1980, e sim (apesar de parcialmente) originadas no romance de Philip K. Dick, Do androids dream of electric sheep?, de 1968.

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Os mesmos replicantes que fornecem respostas a necessidades e desejos humanos pouco entendem da real humanidade dessas demandas, numa possível analogia às sombras na caverna de Platão. Um estranhamento que não por acaso se assemelha ao humano atual frente a um mundo em rápida transformação, cujo controle provavelmente não está ao alcance de nenhum indivíduo de nossa espécie. A fragmentação, personalidade definida pelo contexto e a imagem do ser humano incompleto e imperfeito sendo substituído por constructos variados são características que flagrantemente denotam a contemporaneidade de um roteiro do início dos anos 1980, época em que o cyberpunk possivelmente não suspeitava do quão acertadas eram suas previsões. Continue lendo “Blade Runner 2049: a confirmação da condição pós-moderna”

Antecedentes ao Plano Real

A beleza da história da economia é sua continuidade coesa de eventos fortemente relacionados entre si. O Plano Real (assim como qualquer outro evento econômico) só faz sentido para quem estuda o cenário anterior – quanto maior o tempo de retrospecto, melhor.

Serei sucinto e resumirei os eventos anteriores ao máximo. Existem basicamente três tipos de inflação:

  • inflação de demanda (excesso de consumo frente à restrição de oferta, basicamente)
  • inflação de custos (quando os fatores de produção encarecem por algum motivo, como alta do dólar ou aumento de salários em um setor da economia, por exemplo)
  • inflação inercial (quando o preço de um item aumenta porque há expectativa de que todos os preços demais também aumentem)

Quando o Plano Real foi idealizado (ainda sem esse nome), tínhamos os três tipos juntos. Chegamos a este ponto através de uma série de eventos que se iniciam nos anos 1970, mais exatamente no II PND (Plano Nacional de Desenvolvimento), que corresponde ao período 1974 – 1979. Continue lendo “Antecedentes ao Plano Real”