Administração para arquitetos 12: gestão por processos no escritório

Durante os anos 1980 e 1990, para sobreviver à ameaça dos japoneses, as empresas ocidentais (principalmente as norte-americanas) tiveram que rever suas estruturas para se adaptar à alta eficiência asiática. O foco deixou de ser a estrutura e passou a ser o processo produtivo. Surgiram conceitos novos, como os trazidos pela chamada reengenharia. O colaborador ganhou autonomia (empowerment), e passou a tomar decisões e negociar com o cliente. Os departamentos, os títulos de cargos e a estrutura administrativa intermediária foram fortemente reduzidas. Algum tempo depois, várias iniciativas dessa época foram questionadas por seu radicalismo e algumas chegaram a ser acusadas de oportunismo comercial para vender livros e consultoria. Mas muitos conceitos e mudanças ficaram, e podem ser vistas nas grandes manufaturas, como as indústrias de automóveis e de bens de consumo em geral. Os colaboradores possuem hoje mais autonomia e mais responsabilidade. Há também acesso facilitado aos níveis hierárquicos mais altos da empresa. A terceirização é muito presente (apesar de já estar em questionamento) e os contratos de trabalho são mais negociados e flexíveis, apesar de nossa arcaica e rígida legislação trabalhista.

E os escritórios de arquitetura? Onde ficam nisso? Nossa atividade aproxima-se mais dos profissionais liberais (advogados, médicos, etc) e dos consultores do que da manufatura de grande porte. A presença do profissional no produto entregue ao cliente (ou a percepção dela), seja este produto bem ou serviço, é essencial para o sucesso do empreendimento e para o nome do arquiteto no mercado. Ao mesmo tempo em que essa proximidade é uma exigência, há uma crescente necessidade de crescimento e consolidação da marca do escritório para sua sobrevivência e posterior perenidade, o que deveria ser o objetivo de qualquer arquiteto empreendedor. Essa situação aparentemente paradoxal obriga a um planejamento estratégico bem conduzido, de forma a encontrar caminhos para a fixação de marca em escritórios que buscam crescimento. Exige também um tratamento especial às relações de emprego e, consequentemente, aos processos internos. Continuar lendo Administração para arquitetos 12: gestão por processos no escritório

O que é BDI?

A construção civil tem uma particularidade em relação a outras indústrias: seus clientes exigem o detalhamento do orçamento item a item, mostrando o preço de custo de cada um. E como não há quem sobreviva vendendo a preço de custo, a incidência de indiretos e as margens devem ser, de alguma forma, adicionados ao preço de custo para que o preço de venda ao cliente final apareça na própria planilha orçamentária, pois esta é também a quantificação da proposta comercial. Para resolver esse problema, foi estabelecida a prática de criar um índice único aplicado a todos os itens do orçamento, agregando a incidência de indiretos e as margens de forma global.

Há alguns problemas conceituais com o BDI. As duas últimas letras da sigla significam Despesas Indiretas, porém o BDI inclui também os Custos Indiretos (se você não conhece a diferença, veja o post anterior). Outro problema terminológico é quando afirma que inclui “impostos”, quando inclui também outros tipos de tributos. E há alguns tipos de tributos (impostos inclusive) que NÃO estão incluídos no BDI. O Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ) é um exemplo. A letra B significa benefícios ou bonificação, no sentido de margem de lucro (e não no do Lucro em si, como está em sua definição).

Mas é claro que o maior problema não é o terminológico com o BDI, e sim os que trazem consequências práticas para a construtora. E calcular um índice único para toda a produção com orçamento aberto ao cliente é o maior desafio. Cada item tem características próprias criando fortes distinções e exigências da administração central entre eles. Mas o BDI, em geral, deve ser único para todo o orçamento. Portanto, para o cálculo do índice, a empresa tem que ter uma estimativa razoavelmente precisa de seus gastos e dos retornos da obra como um pacote fechado. E precisa conhecer bem suas despesas centrais a serem diluídas entre diversas obras, assim como a margem de lucro possível frente a seu mercado.

A definição do BDI (que não é necessariamente a forma como ele é efetivamente calculado pelas construtoras) é a seguinte: Continuar lendo O que é BDI?

Adm para arquitetos 7: alavancagem operacional do escritório

Talvez você esteja se perguntando por que sempre citamos custos e despesas, se há alguma diferença entre eles. Pode parecer um preciosismo terminológico inútil dividir os gastos em duas categorias, mas não é. A gestão financeira correta e sobrevivência da empresa dependem de visualizá-los no dia a dia e geri-los adequadamente. Falhas nesse sentido costumam estar presentes em empresas insolventes – aquelas que não conseguem mais honrar seus compromissos financeiros e estão com um pé na cova e outra na casca de banana.

Os conceitos são, na verdade, bem simples. Veja o seguinte exemplo: um arquiteto recém-formado resolveu construir um escritório atelier seu, do zero. Para isso, usou suas economias para os itens básicos de um arquiteto: comprou um computador, uma mesa, cadeira, telefone, impressora, papel, etc. Para cada item pesquisou preços e qualidade pesando a melhor decisão em cada caso – procurou economizar onde fosse possível, mas não abriu mão de um mínimo de qualidade. Este é o custo, são gastos diretamente ligados à produção.

Custo: gasto relativo a bem ou serviço utilizado na produção de outros bens ou serviços. Martins (2001, p.25)

Logo o pobre arquiteto percebeu que nenhum cliente aparecia porque não o conhecia. Precisava fazer alguma propaganda, vender seu peixe. Fez cartões de visita e uma página na Internet. Quando os primeiros clientes apareceram, percebeu que não gostavam muito de vê-lo trabalhando em casa, não parecia muito profissional e confiável. Teve que alugar uma pequena sala comercial, para a qual foi necessário também combinar com uma faxineira que o limpasse de vez em quando. Outros clientes passaram a exigir Nota Fiscal ou Recibo de Pagamento a Autônomo – RPA. Teve que se regularizar perante o fisco, pagar tributos, pagar contador. Todo este segundo bloco de gastos são as despesas. Elas não estão ligadas à produção, este é o conceito chave para diferenciá-las dos custos.

Despesa: bem ou serviço consumido direta ou indiretamente para a obtenção de receitas.

A despesa pode ser vista como uma espécie de “mal necessário”. Não era onde o arquiteto pretendia investir suas economias, mas não há como permanecer no mercado se não atender a essas necessidades.

Agora vejamos a diferença entre elas para a saúde da empresa. Imagine uma empresa que teve este resultado financeiro:

Receita:                                   7.000

(-) Gastos:                               6.500

Resultado:                                  500

Veja como é difícil imaginarmos uma forma de melhorar o resultado com tão poucas informações. Seria muito diferente se os gastos estivessem bem discriminados:

Receita:                                   7.000

(-) Custos:                               2.000  (28,6%)

Resultado operacional:            5.000

(-) Despesas fixas:                 4.500  (64,3%)

Resultado:                                  500

Há uma desproporção entre custos e despesas – estas últimas representam 64,3% da receita, mais que o dobro dos custos. Talvez nosso amigo arquiteto devesse procurar um imóvel mais barato, estudar modalidades de empresas que pagam menos tributos, ou se associar a outras pessoas na mesma situação para compartilhar espaços ou mesmo a empresa (um sócio).

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O Apple Mac é fantástico!

Tive a oportunidade de experimentar um Mac (Apple) e confirmo o que se diz dele: é fantástico! Simples de usar, não precisa ficar perdendo tempo com configurações e procurando coisas, como no PC. Sem dizer que ele é muito rápido e não trava, mesmo abrindo arquivos e programas pesados. Não precisa instalar nem a impressora, já vem com todos os drivers instalados pelo Mac OS X (sistema operacional que dá de 10 a zero no Windows)! Adorei. Recomendo.

Os programas que nós arquitetos usamos já estão disponíveis para Mac, como o AutoCAD, DraftSight, SketchUp e Google Earth. E se não tiver para Mac, não tem problema, você instala o Boot Camp (freeware) ou o Parallels e emula o ambiente Windows. E com folga, porque o Mac é rápido.

Agora sei porque a Apple cresce tanto no Brasil em computadores.

 

Atualização de 15 mar 2017

Quem está usando o Mac OS El Capitán, aviso que será necessário instalar AutoCAD 2014 ou mais recente. Versões anteriores não rodam no El Capitán. Para isso, instale o Service Pack 4 for AutoCAD (baixe gratuitamente no site da Autodesk).

Os AutoCAD mais recentes já permitem a edição e criação de arquivos CTB dentro da edição normal de seu arquivo DWG (era um problema antigo que foi solucionado).

Captura de Tela 2016-05-21 às 20.17.14

 

Dica para quem só vai trabalhar em 2D: o DraftSight (Dassault Systémes) funciona muito bem no Mac e tem praticamente todas as funcionalidades do AutoCAD que usamos no dia a dia. E com uma imensa vantagem: é 100% gratuito! E, diga-se de passagem, é mais fácil de usar o DraftSight que o AutoCAD no Mac… Para quem usa CAD há mais tempo e pegou versões anteriores, vai ter a sensação de que as coisas estão mais nos “lugares certos”.

Você só paga se quiser usar a versão profissional (LISP, 3D, etc.).

Tela do DraftSight no Mac
Tela do DraftSight no Mac

 

Atualização de 06 de novembro de 2017

MacMini

Os elogios acima não valem para o MacMini em sua versão básica. Pode ser frustrante, extremamente lento com HD convencional. É possível resolver substituindo por um HD SSD, mas você deverá considerar este custo no caso do MacMini. Por isso, recomendo apenas MacBook Pro ou iMac para arquitetura.

Outro problema do MacMini: não permite aumentar a memória RAM. Mesmo tendo configurações até 16GB, quem comprou 4GB nunca poderá melhorar esta configuração.

Saiba mais:

Gestão do escritório de arquitetura - capa do livro

Como construir em terrenos acidentados

DIREITOS AUTORAIS PROTEGIDOS NA FORMA DA LEI. CITE A FONTE.

por Ricardo Trevisan, arquiteto

Os terrenos acidentados são críticos para a implantação, exigem maior cuidado e investimento. Quase sempre existe solução, o problema é o quanto você pode gastar.

A estratégia mais inteligente é utilizar o menor número possível de apoios, pois o custo elevado é de cada fundação, e não do sistema estrutural como um todo. Por isso nós arquitetos preferimos modelos estruturais suspensos e com poucos blocos de apoio.

A arquitetura pode ter uma complexidade espacial de forma independente do terreno e se aproveitar da vista oferecida pela inclinação do terreno. A dificuldade de execução da obra pode ser recompensada por um resultado final que valoriza seu patrimônio. O design e a arquitetura agregam valores intangíveis ao imóvel que podem elevar significativamente seu valor de mercado e aumentar a liquidez de revenda.

 

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Casa Hélio Olga, com um mínimo de apoios no solo. Projeto arquitetônico de Marcos Acayaba

 

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O segredo são os poucos pontos de apoio. Projeto arquitetônico de Marcos Acayaba.

 

A movimentação de terra em situações assim é sempre complexa. Além disso, alterar a morfologia natural do terreno tira a capa vegetal da superfície que é justamente o que o estabiliza. Quando isso acontece, passam a ser necessários muros e paredes de contenção, elementos que aumentam muito o custo da obra. Procure sempre manter o perfil do terreno o mais natural possível – mas isso depende de estudos técnicos, porque alguns terrenos exigem intervenção para estabilização.

 

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Villa Amanzi, acomodações em Phuket, Tailândia. Projeto arquitetônico de Adrian McCarroll, Waiman Cheung, Jamie Jamieson

 

E qual terreno vale a pena? Como saber se o custo será muito elevado? E como saber se as condições técnicas de construção são viáveis? Não há como fazer mágica: será necessário fazer, no mínimo, uma sondagem. Às vezes também precisaremos de um teste de cisalhamento do solo, ou do parecer e orientação técnica de um especialista.

Sugiro que, antes de comprar o terreno, seja feita uma vistoria com um arquiteto. Será mais barato que ficar com um problemão, e esclarecerá as possibilidades de execução da obra.

Leia também: Como escolher um terreno para construir