Marketing para arquitetos 3: o que define o mix de marketing?

O profissional de marketing define ações desejáveis para a empresa sempre em mais de uma frente – o esforço isolado não perdura. O conjunto dessas frentes é chamado de composto (ou mix) de marketing. A composição mínima desse conjunto é a dos chamados quatro “P”s: produto, preço, promoção e praça:

  • Ações sobre o produto: a definição das características importantes para um determinado mercado, os atributos essenciais para a percepção dos benefícios de maior valor ao cliente alvo. Quais atributos do projeto de arquitetura são mais valorizados pelo seu mercado? Mais do que isso: que tipo de produto devo oferecer e qual tipo não devo oferecer ao mercado?
  • Ações sobre preços: em que faixa de preços devo trabalhar para transmitir uma mensagem adequada ao mercado alvo? Se o preço for muito baixo, a mensagem é de corte de custos, qualidade limitada, necessidade imediata de capital, agressividade comercial. Se o preço for muito alto, o potencial cliente pode ver a transação como irracional, pode sentir que não faz parte do mercado daquela empresa, ver injustiça no negócio, ambição de seus gestores, e assim por diante. E também vai comparar preços com seu concorrente e colocar sua marca em uma determinada posição em relação a outras empresas, marcas e conceitos abstratos. O chamado “posicionamento” ocorre na mente do consumidor, e apenas lá.
  • Ações sobre promoção: são as movimentações ativas da empresa no sentido de se apresentar ao mercado e associar a marca a conceitos abstratos na mente do consumidor, como adjetivos, por exemplo. A propaganda é uma ação de promoção, tenta associar sabonete a carinho, seguros a proteção, serviços financeiros a decisões inteligentes, etc. A forma mais popular é a inserção comercial de TV, mas participar de uma determinada festa ou almoço para divulgar seu escritório de arquitetura também é uma ação de promoção. Quando um veículo qualquer, como uma revista, fala sobre sua empresa sem seu controle sobre o que está sendo dito, é chamada publicidade.
  • Ações de acesso ao consumidor: canais, ou a praça. Como o mercado me encontra? Como me solicitar? Como me aproximo e entrego o produto ao mercado? A prestação de serviços cria sérias limitações aos canais, principalmente quando a entrega exige o contato pessoal com alguém com poder de decisão na empresa, caso comum na arquitetura. Há apenas duas opções para este problema: a) limitar o crescimento vegetativo da empresa e apostar em entrega de valor, diferenciação e posicionamento premium da marca, ou b) delegar poder a colaboradores treinados e estabelecer uma padronização mínima de condutas com diretrizes claras e permanentemente reforçadas, o que permitiria o crescimento vegetativo sem necessariamente abrir mão de um posicionamento mais interessante da marca em busca de melhor markup. O que é um melhor markup? É um retorno acima do esperado para as empresas de arquitetura, considerando os custos de oportunidade e riscos envolvidos. Continuar lendo Marketing para arquitetos 3: o que define o mix de marketing?

Entrevista concedida à revista aU (n.231, jun/13)

Deixo aqui a íntegra da entrevista que concedi à jornalista Juliana Nakamura, da revista aU (Pini) para matéria sobre planejamento financeiro do escritório de arquitetura. Saiu neste mês (junho/2013), páginas 76-77.

Parabenizo e agradeço à Juliana por respeitar e ser fiel a minhas colocações. Boa sorte em sua carreira.

1) Qual é a importância do planejamento financeiro para um escritório de arquitetura?

Planejar, não apenas financeiramente, é condicionante para a sobrevivência do negócio. Planejar não é desenhar como será, e sim avaliar cenários possíveis e estar, dentro do possível, preparado para cada um deles. Mesmo o menor dos escritórios precisa disso. Aliás, estes são os que mais precisam, pois são os mais impactados pelos cenários hostis. Um planejamento financeiro básico levaria muitos arquitetos a repensar muita coisa em seus escritórios. Alguns provavelmente se veriam obrigados a escolher entre promover revoluções ou fechar as portas.

 

2) Quais são os maiores desafios e dificuldades na hora de elaborar o planejamento financeiro de seus escritórios?

Infelizmente nós arquitetos não somos treinados para planejar. O currículo de graduação inclui planejamento urbano, mas entrega 95% de urbanismo e 5% de planejamento aos alunos. Matemática e Estatística, ferramentas básicas de planejamento, são pouco (ou nada) aprofundadas, e outras muito importantes, como análise multivariada, simulação, modelos de redes, matemática financeira, análise de sensibilidade, pesquisa operacional soam como grego. Instituições consagradas da área de gerenciamento de projetos, como o PMBOK, são desconhecidas. O resultado é que não fazemos planejamento estratégico, nem financeiro, nem de marketing, nem de pessoas de nossos escritórios. Muitos não fazem nem o planejamento operacional. As dificuldades estouram no dia a dia, por exemplo na hora de fechar propostas: qual a remuneração mínima a ser exigida? Qual é meu custo de oportunidade? Há lucro econômico nesse mercado? Há mercados mais interessantes? As dúvidas do despreparo avançam sobre a vida pessoal. Vários colegas já me pediram ajuda para escolher entre pagar à vista ou parcelar uma compra. Continuar lendo Entrevista concedida à revista aU (n.231, jun/13)

Machu Picchu para arquitetos: Intipunku

A vida nos coloca frente a muitos possíveis caminhos, dos quais escolhemos quais trilhar. Alguns são obrigatórios, encontros com o divino. Quem caminha é a alma. O encontro é consigo. E o homem que vai não volta, pois quem volta é outro.

A casa do guardião, início da trilha
A casa do guardião, início da trilha

Um desses caminhos parte de Machu Picchu para o Portal do Sol (Intipunku), uma caminhada de 3 horas ida e volta, mais ou menos. Altamente recomendado para qualquer ser humano. Obrigatório para arquitetos. Poderia estar num evangelho apócrifo: “o arquiteto que se aproxima daquele caminho de pedra, dele não deve se escusar, sob pena de seguir o resto de sua vida na escuridão”.

Trilha para Intipunku
Trilha para Intipunku. Machu Picchu ao fundo

A altitude é a prova a que a criação se submete e sublima, uma evolução em poucas horas para levar o oxigênio aos confins do corpo. Continuar lendo Machu Picchu para arquitetos: Intipunku

A lição da assertividade Inca

Entendo que as mitologias são metáforas para transmitir e perpetuar conceitos considerados importantes para uma cultura. E a atualidade dos conceitos embutidos em mitos Incas são impressionantes. Estou pensando em um caso específico, o da constituição da Cusco incaica, tal como os espanhois a encontraram em 1536.

Cusco. Foto de Emilene Miossi.
Cusco. Foto de Emilene Miossi.

Inca Garcilaso de la Vega, filho da união de uma princesa Inca com um capitão espanhol, viveu entre dois mundos durante o século 17. Não tinha interesse em ser historiador, mas registrou em linguagem escrita boa parte da mitologia Inca, até então transmitida apenas de oralmente. Ele conta que “Nosso Pai Sol”, vendo que os seres humanos levavam uma vida muito primitiva, se apiedou e deixou aqui uma filha e um filho seus. Estes teriam a missão de nos trazer leis e orientações para que vivêssemos em razão e urbanidade, para nos ensinar a vivermos em casas e cidades, a trabalhar a terra de forma mais produtiva, o cultivo de plantas, a criação de gado. Continuar lendo A lição da assertividade Inca