A tríade vitruviana no século 21

Marcus Vitruvius Pollio é autor de um dos mais antigos tratados ocidentais de arquitetura e urbanismo a chegar a nossos dias. De Architectura, escrito em 10 volumes, levou mais de uma década para ser concluído (foi publicado aproximadamente no ano 16 a.C.) e trouxe o princípio de três pontos que inspirou muitos textos do Renascimento, alguns muito influentes até a atualidade.

Os três pontos da tríade vitruviana – utilidade (utilitas), beleza (venustas) e estabilidade (firmitas) não deixaram de estar presentes, apenas são lidas hoje num contexto muito diverso do original da época em que o tratado foi escrito. Mais do que isso, muitas novas preocupações são adicionadas a cada um dos três pontos, levando em consideração o entendimento da edificação como um sistema inserido em um ambiente complexo, com trocas e realimentações constantes. Continue lendo “A tríade vitruviana no século 21”

Blade Runner 2049: a confirmação da condição pós-moderna

Se pelo lado ontológico da vida permanecem e se aguçam as características pós-modernas identificados por Harvey e Baudrillard (apesar de nossa arquitetura e mercado imobiliário ainda não as interpretarem adequadamente à cultura nacional), pelo lado metafórico da arte elas se confirmam na mais recente evidência qualificada, em Blade Runner 2049. A condição contemporânea é tão evidente que questões cotidianas aparecem com naturalidade e até certo humor irônico no roteiro que dá sequência ao filme de 1982. Desumanização, fragmentação, virtualidade, predominância da representação sobre o representado, contextualismo são alguns pontos que permanecem de forma harmônica com a época atual, corroborando previsões que não são do início dos anos 1980, e sim (apesar de parcialmente) originadas no romance de Philip K. Dick, Do androids dream of electric sheep?, de 1968.

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Os mesmos replicantes que fornecem respostas a necessidades e desejos humanos pouco entendem da real humanidade dessas demandas, numa possível analogia às sombras na caverna de Platão. Um estranhamento que não por acaso se assemelha ao humano atual frente a um mundo em rápida transformação, cujo controle provavelmente não está ao alcance de nenhum indivíduo de nossa espécie. A fragmentação, personalidade definida pelo contexto e a imagem do ser humano incompleto e imperfeito sendo substituído por constructos variados são características que flagrantemente denotam a contemporaneidade de um roteiro do início dos anos 1980, época em que o cyberpunk possivelmente não suspeitava do quão acertadas eram suas previsões. Continue lendo “Blade Runner 2049: a confirmação da condição pós-moderna”

Ópera de Sydney, Jørn Utzon

O que é arquitetura pós-moderna?

Ópera de Sydney, Jørn Utzon
Ópera de Sydney, Jørn Utzon
O movimento pós-modernista na arquitetura não deve ser entendido como antítese ao modernismo. Trata-se de sua evolução natural, permeada pela adaptação da arquitetura ao contexto histórico que se consolidou nas décadas finais do século 20. O pós-modernismo como movimento cultural amplo nada tem de pós-capitalista ou pós-industrial, como alguns autores chegaram a colocar.

A arquitetura europeia se ressentiu da massificação na produção de reconstrução do pós-guerra. A reprodução em escala de habitação sem identidade com seu entorno de implantação (modernismo operacional), sofreu severas críticas e virou ícone do esgotamento do movimento moderno.E este foi só o início de um processo que trazia de volta um individualismo subjetivo até então Continue lendo “O que é arquitetura pós-moderna?”

Da antiguidade do pós-moderno: o caso Carlitos

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Quando Charlie Chaplin colhia os primeiros frutos de seu personagem criado em segundos num camarim da Keystone, ainda no início do século 20, surgiram inúmeras cópias do inconfundível vagabundo do cinema. Após um processo judicial, Chaplin conseguiu garantir os direitos sobre seu personagem. Os autos tinham uma descrição detalhada do personagem incluindo um desenho que definia pormenores do figurino.

Até aqui, confirmamos o modernismo de Chaplin. Mas uma curiosidade nos traz as palavras de Baudrillard que, ao descrever o pós-modernismo de nossos dias, explica que hoje o mapa pode ser muito mais importante que o território por ele representado. Percebendo o alcance mundial e a popularização do Vagabundo, foram organizados vários concursos de sósias de Carlitos. Numa viagem a San Francisco, Chaplin Continue lendo “Da antiguidade do pós-moderno: o caso Carlitos”