O que é arquitetura pós-moderna?


Ópera de Sydney, Jørn Utzon

Ópera de Sydney, Jørn Utzon

O movimento pós-modernista na arquitetura não deve ser entendido como antítese ao modernismo. Trata-se de sua evolução natural, permeada pela adaptação da arquitetura ao contexto histórico que se consolidou nas décadas finais do século 20. O pós-modernismo como movimento cultural amplo nada tem de pós-capitalista ou pós-industrial, como alguns autores chegaram a colocar.

A arquitetura europeia se ressentiu da massificação na produção de reconstrução do pós-guerra. A reprodução em escala de habitação sem identidade com seu entorno de implantação (modernismo operacional), sofreu severas críticas e virou ícone do esgotamento do movimento moderno.E este foi só o início de um processo que trazia de volta um individualismo subjetivo até então soterrado pela retórica coletivista dos anos 1960.

A revista PRECIS 6 (1987, 7-24) identificou o pós-modernismo como reação legítima à “monotonia” da visão de mundo do modernismo ocidental. Mas o que significa exatamente ser pós-moderno? Harvey cita esta revista para nos introduzir ao assunto:

O pós-moderno (…) privilegia a ‘heterogeneidade e a diferença como forças libertadoras na redefinição do discurso cultural’. A fragmentação, a indeterminação e a intensa desconfiança de todos os discursos universais ‘totalizantes’ são o marco do pensamento pós-moderno. (HARVEY, 1992:19).

E continua, citando os novos desenvolvimentos da matemática que acentuam a indeterminação (teoria do caos, geometria de fractais, etc.). Learning from Las Vegas (Venturi, Scott Brown, Izenour), publicado em 1972, dizia que os arquitetos teriam mais a aprender com o estudo de paisagens populares e comerciais que com ideais abstratos, teóricos e doutrinários. Chama a atenção o sucesso editorial de uma inversão tão grande dos ideais dos CIAM e da Bauhaus no último quartil do século 20, sem dizer que outras publicações logo vieram em coro, seja denunciando o fim dos modelos de planejamento em larga escala, seja clamando por pluralismo e organicismo na abordagem do desenvolvimento humano.

Na filosofia, a mescla de um pragmatismo americano revivido com a onda pós-marxista e pós-estruturalista que abalou Paris depois de 1968 produziu o que Bernstein chama de ‘raiva do humanismo e do legado do Iluminismo’. Isso desembocou numa vigorosa denúncia da razão abstrata e numa profunda aversão a todo projeto que buscasse a emancipação humana universal pela mobilização das forças da tecnologia, da ciência e da razão. (HARVEY, 1992:47).

Harvey cita Hassan para elencar a estrutura de diferenças modernismo x pós-modernismo. Segundo ele, enquanto o modernismo era pautado por romantismo / simbolismo, forma conjuntiva e fechada, propósito, projeto, hierarquia, domínio / logos, objeto de arte como obra acabada, distância, criação / totalização / síntese, presença, centração, gênero / fronteira, semântica, paradigma, hipotaxe, metáfora, seleção, raiz / profundidade, interpretação / leitura, significado, lisible (legível), narrativa / grande história, código mestre, sintonia, tipo, genital / fálico, paranoia / alienação, origem / causa, Deus pai, metafísica, determinação e transcendência, o pós-modernismo traria respostas diferentes para cada um destes pontos, alterando a cultura ocidental para parafísica / dadaísmo, antiforma disjuntiva e aberta, jogo, acaso, anarquia, exaustão / silêncio, objeto de arte como processo / performance / happening, participação,  descriação / desconstrução / antítese, ausência, dispersão, texto / intertexto, retórica, sintagma, parataxe, metonímia, combinação, rizoma, superfície, contra a interpretação / desleitura, significante, scriptible (escrevível), antinarrativa / pequena história, idioleto, desejo, mutante, polimorfo / andrógino, esquizofrenia, diferença – diferença / vestígio, Espírito Santo, ironia, indeterminação, imanência.

Não entenda este esquema como um mapa fechado ou definitivo. O próprio Harvey o considera como um ponto de partida (p.49). Trata-se de uma identificação de tendências ontológicas mais universais, escancaradas nos anos 1980. E, segundo Venturi, não há nada de errado em dar às pessoas o que elas querem. A Disneyworld estaria, segundo ele, mais próxima à utopia americana simbólica que qualquer coisa que os arquitetos já tivessem produzido até então.

Segundo Daniel Bell, a degeneração da autoridade intelectual sobre o gosto cultural nos anos 1960, e a sua substituição pela pop arte, pela cultura pop, pela moda efêmera e pelo gosto da massa são sinais de hedonismo inconsciente do consumo capitalista. Este vem justamente a ser um dos principais combustíveis do movimento.

O pós-moderno é fragmentado, com superposições e colagens. E cada forma pode ser efêmera, ter vida curta, porque toda a realização humana está em processo. Não existe o acabado. O espaço é uma coisa independente e autônoma, a ser moldada segundo objetivos e princípios estéticos que não têm necessariamente relação com um objetivo social abrangente. O planejamento urbano procura o multifuncional, a riqueza de multiplicidade de usos apontada por Jane Jacobs. A multiplicidade é também de escalas, e as cidades podem ser cidades dentro de cidades. Os processos urbanos são parte integrante de seus próprios catalisadores, e isso é também essência (conceito da Jacobs).

O arquiteto pós-moderno tem maior facilidade em lidar com grupos distintos simultaneamente, porque introduz o conceito de personalização que o modernismo estanque não permite. Um único projeto pode ser muitos projetos, e possibilita atender à “cultura de gosto”.

HARVEY, David. Condição pós-moderna. São Paulo: Edições Loyola, 1992

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