Construção sem movimento de terra

Se você está pensando em construir, deixo aqui uma dica valiosa que pode trazer uma significativa economia para a sua obra: invista num bom projeto que aproveite a topografia do terreno de forma inteligente. Com certeza você já ouviu isso, eu sei, mas estou repetindo mais uma vez porque tenho visto que poucos proprietários seguem a dica. O resultado é que acabam gastando muito mais que o necessário.

O sintoma de um projeto mal-elaborado aparece logo no início da obra: se você observar bem, vai perceber que a regra é fazer movimentos de terra de volumes desproporcionais em residências unifamiliares. Não é raro ver máquinas de terraplenagem típicas de obras grandes, como abertura de rodovias, fazendo malabarismos épicos em obras relativamente pequenas – observe que estou falando de obras pequenas para os padrões da construção civil, ainda que a casa seja grande. Isso é algo incompreensível e incompatível com a necessidade do cliente em 99% dos casos. Continuar lendo Construção sem movimento de terra

Empreendimentos pioneiros de habitação social

Iniciativa pioneira de habitação social: Streatham Street, Henry Roberts, 1850

A cidade medieval, que já vinha sendo superada desde a Revolução Comercial burguesa na Europa, teve seu fim acelerado pela Revolução Industrial, em especial a partir de 1767 com a produção em massa de trilhos de ferro (Abraham Darby). Observe que, até então, as referências que consideramos urbanas nos dias atuais praticamente não existiam, e as primeiras indústrias têxteis se instalaram primeiro em zonas rurais (próximas à produção de matéria-prima), para depois se deslocarem a sítios próximos a cursos d’água (quando perceberam que este recurso era mais difícil de ser transportado que fardos de algodão). Foi só depois deste ciclo que essas indústrias ganharam escala e precisaram se posicionar próximas a fontes de carvão (força motriz das máquinas a vapor).

A cidade manufatureira inglesa já era um fato estabelecido por volta de 1820, quando havia cerca de 24.000 teares a vapor em operação. Porém, as referências rurais ainda não haviam sofrido evolução condizente aos grandes contingentes de trabalhadores, e sem qualquer estrutura urbana mínima de transporte, os operários precisavam se acomodar a distâncias viáveis de serem  vencidas a pé. Com isso, velhos bairros foram adensados ao extremo e transformados em áreas miseráveis, sem condições mínimas de salubridade ou de saneamento básico, o que logo se transformou em grandes epidemias de tuberculose (num primeiro momento) e de cólera e febre amarela (em momentos seguintes). Continuar lendo Empreendimentos pioneiros de habitação social

Das atividades técnicas nos negócios da arquitetura [e]

Agora que já tratamos da diversidade de atuação em segmentos de mercado (veja aqui), o passo seguinte – e essencial – é falarmos das atividades técnicas desempenhadas pelos arquitetos e urbanistas nos escritórios [1]. Isso porque esses dados mostram de forma muito mais explícita a concentração de atividades técnicas em alguns poucos segmentos. Em outras palavras, nós arquitetos estamos nos debatendo em alguns nichos de mercado, o que tende a baixar os preços praticados e precarizar nossas condições de trabalho. Esses são os oceanos vermelhos.

Enquanto isso, outros nichos de mercado são ocupados por pouquíssimos arquitetos, que provavelmente fortalecem sua marca naqueles segmentos, trabalham com maior estabilidade de demanda e provavelmente podem praticar preços com markup positivo – ou seja, com retornos superiores ao seu custo de oportunidade financeiro. Isso não é pouco: grande parte dos escritórios de arquitetura estão hoje trabalhando com retornos negativos em relação ao seu custo de oportunidade, porque tomam por base apenas o retorno contábil ou o fluxo de caixa. Esses são os oceanos azuis.

Destaco aqui também que, até este ponto, eu só falei das atividades regulamentadas, ou seja, que a lei reconhece como sendo de atribuição do profissional de arquitetura e urbanismo (ainda que não seja exclusiva). Porém, nos dias atuais impera a inovação e novos negócios, principalmente aqueles que se fortalecem com as plataformas digitais. Apesar de já termos encontrado alguns escritórios (e outras empresas lideradas por arquitetos que não se intitulam como “escritórios de arquitetura”) tirando partido dessas possibilidades, a grande maioria parece não se mobilizar quanto ao modelo de negócios, insistindo em mecanismos ultrapassados de criação e entrega de valor ao cliente. Estas últimas também parecem ser as que mais sofrem para obter a remuneração mínima para sua viabilidade econômico-financeira. Continuar lendo Das atividades técnicas nos negócios da arquitetura [e]

Diferença entre luminância e iluminância

Segundo Tregenza et al. (2015, p.7, Bookman), os dois conceitos são definidos da seguinte forma:

Iluminância é a quantidade de luz que incide sobre uma área unitária de superfície.

Luminância é o brilho de uma fonte medida com um fotômetro. Fonte é qualquer coisa que emite luz. O que nós, de fato, percebemos, depende do estado de adaptação do olho e de outros fatores. Também é chamada de “luminosidade aparente”. Continuar lendo Diferença entre luminância e iluminância

Como dimensionar uma broca de concreto para fundação?

Atenção: a leitura deste texto não dispensa a consulta às normas técnicas vigentes, as quais podem ser alteradas sem prévio aviso. Toda obra deve ser projetada e acompanhada por profissional técnico habilitado, engenheiro civil ou arquiteto, com registro no CREA ou no CAU, e ART ou RRT recolhido.

As fundações em brocas escavadas de concreto são instituições nacionais. Se você não disser nada a um construtor experiente sobre como será a fundação de uma obra, na maior parte do território nacional, suporá ser em brocas escavadas e concretadas, coroadas por um bloco de concreto armado.

Apresento abaixo um método bastante prático para o dimensionamento das brocas (deixemos os blocos para outro post por enquanto), desenvolvido em 1975 por Aoki e Veloso.

Antes de adentrarmos aos cálculos, é importante ressaltar que, apesar de costumar ser escavada manualmente por trado, a broca é uma fundação profunda, ou seja, que busca uma cota de apoio de ponta mais profunda e conta com o atrito lateral em sua consideração teórica de tensões de ruptura geotécnica.

A tensão de ruptura total da broca é composta, portanto, pela soma de dois componentes: a tensão de ruptura geotécnica de ponta, e a tensão de ruptura lateral (por atrito): Continuar lendo Como dimensionar uma broca de concreto para fundação?