Nossa cicatriz

Quando eu era pequeno, tive uma conversa com meu avô que só vim a compreender há pouco tempo. Conversávamos, caminhando pela praia num suposto dia tranquilo, sobre algo que nos preocupava naquele momento – não vou lembrar exatamente qual era o assunto, mas suponha que fosse a inflação da época. De repente, do nada, meu avô começou a falar de Hitler. Eu não entendi o motivo dele ter mudado de assunto tão repentinamente. E continuava no mesmo tom de voz, como se aquela tivesse sido nossa conversa desde o início. Se você tiver menos de 90 anos de idade, provavelmente não vai entender enquanto não se colocar no lugar de uma pessoa de geração dele. Para nós, Adolf Hitler é mais ou menos tão real quanto Julio Cesar, Ivan IV, Gengis Khan ou Josef Stalin. Habita livros e aulas de história, e tem a mesma personificação tangível (ou até menos) que Darth Vader.

Mas não é assim para quem viveu aquela época. É difícil para nós imaginar o que era ver amigos e conhecidos morrendo aos montes, saber que o mundo estava se destruindo num conflito crescente que se expandia pelo globo sem qualquer perspectiva do que seria o futuro, ou se haveria algum. A Segunda Guerra foi, para eles, algo muito diferente de filmes ou jogos de videogame. Era a navalha na carne, perigo real e imediato. Até que um dia o conflito acabou, os sobreviventes superaram, adentraram a um novo mundo e carregaram essa cicatriz pelo resto de suas vidas. Para a geração de meu avô, Hitler se encaixaria bem em qualquer conversa sobre algo preocupante, e duvido que algum contemporâneo discordasse dele.

Agora chegou a nossa vez. Nossa geração vive, com a covid-19, nenhuma segurança do que será o futuro, novas cepas cada vez mais perigosas de um vírus mortal se multiplicando onde o isolamento social é mais brando, vacinas sendo superadas por variantes de um microorganismo complexo, infinitas consequências econômicas nas rendas de milhões de famílias que tentam sobreviver em ambientes sociais de profundas e repentinas transformações. Hoje é outra navalha cortando a carne da humanidade, amanhã será a nossa cicatriz. Continuar lendo Nossa cicatriz

Das atividades técnicas nos negócios da arquitetura [e]

Agora que já tratamos da diversidade de atuação em segmentos de mercado (veja aqui), o passo seguinte – e essencial – é falarmos das atividades técnicas desempenhadas pelos arquitetos e urbanistas nos escritórios [1]. Isso porque esses dados mostram de forma muito mais explícita a concentração de atividades técnicas em alguns poucos segmentos. Em outras palavras, nós arquitetos estamos nos debatendo em alguns nichos de mercado, o que tende a baixar os preços praticados e precarizar nossas condições de trabalho. Esses são os oceanos vermelhos.

Enquanto isso, outros nichos de mercado são ocupados por pouquíssimos arquitetos, que provavelmente fortalecem sua marca naqueles segmentos, trabalham com maior estabilidade de demanda e provavelmente podem praticar preços com markup positivo – ou seja, com retornos superiores ao seu custo de oportunidade financeiro. Isso não é pouco: grande parte dos escritórios de arquitetura estão hoje trabalhando com retornos negativos em relação ao seu custo de oportunidade, porque tomam por base apenas o retorno contábil ou o fluxo de caixa. Esses são os oceanos azuis.

Destaco aqui também que, até este ponto, eu só falei das atividades regulamentadas, ou seja, que a lei reconhece como sendo de atribuição do profissional de arquitetura e urbanismo (ainda que não seja exclusiva). Porém, nos dias atuais impera a inovação e novos negócios, principalmente aqueles que se fortalecem com as plataformas digitais. Apesar de já termos encontrado alguns escritórios (e outras empresas lideradas por arquitetos que não se intitulam como “escritórios de arquitetura”) tirando partido dessas possibilidades, a grande maioria parece não se mobilizar quanto ao modelo de negócios, insistindo em mecanismos ultrapassados de criação e entrega de valor ao cliente. Estas últimas também parecem ser as que mais sofrem para obter a remuneração mínima para sua viabilidade econômico-financeira. Continuar lendo Das atividades técnicas nos negócios da arquitetura [e]

Plataforma educacional com vídeos gratuitos

Olá!

Atendendo a pedidos de alguns leitores, nossa Plataforma Educacional voltou a disponibilizar também os vídeos gratuitos de nosso canal no YouTube. Agora você volta a poder escolher onde prefere assistir aos vídeos.

Lembrando que pela nossa plataforma a exibição do vídeo não é interrompida por intervalos comerciais, mesmo para quem nunca adquiriu nenhum de nossos cursos pagos. Continuar lendo Plataforma educacional com vídeos gratuitos

Taxa de desconto e custo de capital para saneamento e energia: algumas notas

Setores que exigem grandes investimentos e longos prazos de maturação sempre conviverão com estes dois elementos constantes de elevação de riscos. E, aos olhos do investidor, mais riscos significam maior exigência de retornos – caso contrário, não haveria sentido em assumir os riscos do empreendimento. Assim sendo, para que haja investimento privado nesses setores, existem pelo menos duas condições básicas: um bom marco regulatório e uma taxa de retorno atraente. O segundo item, para cumprir a condição de atratividade, precisa, no mínimo, igualar o custo de capital total do empreendimento.

Existem vários métodos para esse cálculo, sendo o mais utilizado, em qualquer natureza de projeto contemporâneo, o WACC (Custo Médio Ponderado de Capital). Por este motivo, o WACC tem sido usado como referencial para investimentos em infraestrutura, pois procura retratar o investimento mínimo que viabiliza economicamente o projeto, indicando qual seria o custo de oportunidade do investidor, considerados os riscos específicos do negócio. Continuar lendo Taxa de desconto e custo de capital para saneamento e energia: algumas notas

A questão das garantias em parcerias público-privadas

A Lei Federal 11.079/2004, também conhecida como Lei de PPPs, consolidou em nosso ordenamento jurídico uma demanda represada havia mais de uma década: permitir uma mudança no paradigma de relacionamento entre Poder Público e iniciativa privada, superando as simples contratações de fornecimento de materiais e obras, em direção a relacionamentos mais maduros em parcerias de longo prazo.

Ocorre que estes projetos costumam ter uma fase inicial de investimentos robustos, os quais, em parcerias público-privadas, são amortizados via contraprestações pagas (ou aportes de recursos) pelo ente público contratante ao longo de prazos extensos, que podem chegar a 35 anos. Obviamente, para que haja segurança entre as partes nessa relação, ambas exigem garantias de que o pactuado será mantido. Continuar lendo A questão das garantias em parcerias público-privadas