O prelúdio do êxodo urbano

Seria irresponsável de minha parte apresentar, para o curto prazo, qualquer vislumbre de sociedade completamente conectada à distância e funcionando bem dessa forma. Alguns estudos mostram que a proporção de trabalhadores que podem desempenhar adequadamente suas atividades laborais à distância representam algo entre 10% a 20% do total da força de trabalho ativa no Brasil.

De fato, os demais 80% a 90% parecem estar dependentes da localização geográfica das oportunidades de trabalho. Porém, algo importante a ser considerado é que uma parte considerável deste segundo grupo mais vinculado ao território também está vinculado ao local em que o primeiro grupo escolher se instalar. São atividades direta ou indiretamente relacionadas à escolha que outras pessoas fazem para moradia (fixação de residência). Isso inclui uma ampla gama de atividades comerciais, de prestação de serviços, institucionais e administrativas no sentido estrito (atividades de Governo).

O que importa nisso tudo é a seguinte conta: a população urbana brasileira atual (sem entrar no mérito de discussões metodológicas) é de aproximadamente 160 milhões de pessoas. Se considerarmos que algo em torno de 15% dessa população é elegível para o home office permanente, estamos desvinculando nada menos que 24 milhões de brasileiros do território em que se encontram. Isso representa desvincular da localização física um Chile e um Uruguai inteiros somados em termos populacionais. E lembre-se que eu nem incluí nessa conta a parcela de movimentação indireta do segundo grupo populacional.

Caso você esteja imaginando que esta é uma elucubração hipotética improvável, recomendo uma rápida visita aos arredores de sua cidade (seja ela qual for) para ver o que está acontecendo. Essa massa populacional está se preparando, há meses, para o que pode vir a ser um dos maiores êxodos urbanos da história, e isso se manifesta fisicamente de forma inequívoca em um verdadeiro oceano de obras de pequenas construções para moradias afastadas (mas não muito) dos principais centros urbanos do país – com seus consequentes impactos ambientais, sociais e econômicos.

Caso você não tenha visto ao vivo o fenômeno, apresento aqui uma outra evidência do mesmo processo: a disparada de preços da construção civil justamente no período de retração econômica decorrente da pandemia da covid-19, conforme divulgado pelo jornal Valor Econômico.

Ainda que a alta dos preços acima tenha relação com a formação de poupança pelas famílias durante o período de isolamento social, uma questão surge naturalmente a qualquer profissional que se interesse pelos movimentos das cidades: estaria o ciclo urbanístico iniciado Jane Jacobs em 1961 chegando a um ponto de ruptura? Ainda parece ser cedo para uma conclusão segura, mas certamente os cânones urbanos atuais estão em xeque. E a revisão será implacavelmente provocada pelos próximos movimentos da realidade de fato – as quais parecem estar em pleno andamento.

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