Das atividades técnicas nos negócios da arquitetura [e]

Agora que já tratamos da diversidade de atuação em segmentos de mercado (veja aqui), o passo seguinte – e essencial – é falarmos das atividades técnicas desempenhadas pelos arquitetos e urbanistas nos escritórios [1]. Isso porque esses dados mostram de forma muito mais explícita a concentração de atividades técnicas em alguns poucos segmentos. Em outras palavras, nós arquitetos estamos nos debatendo em alguns nichos de mercado, o que tende a baixar os preços praticados e precarizar nossas condições de trabalho. Esses são os oceanos vermelhos.

Enquanto isso, outros nichos de mercado são ocupados por pouquíssimos arquitetos, que provavelmente fortalecem sua marca naqueles segmentos, trabalham com maior estabilidade de demanda e provavelmente podem praticar preços com markup positivo – ou seja, com retornos superiores ao seu custo de oportunidade financeiro. Isso não é pouco: grande parte dos escritórios de arquitetura estão hoje trabalhando com retornos negativos em relação ao seu custo de oportunidade, porque tomam por base apenas o retorno contábil ou o fluxo de caixa. Esses são os oceanos azuis.

Destaco aqui também que, até este ponto, eu só falei das atividades regulamentadas, ou seja, que a lei reconhece como sendo de atribuição do profissional de arquitetura e urbanismo (ainda que não seja exclusiva). Porém, nos dias atuais impera a inovação e novos negócios, principalmente aqueles que se fortalecem com as plataformas digitais. Apesar de já termos encontrado alguns escritórios (e outras empresas lideradas por arquitetos que não se intitulam como “escritórios de arquitetura”) tirando partido dessas possibilidades, a grande maioria parece não se mobilizar quanto ao modelo de negócios, insistindo em mecanismos ultrapassados de criação e entrega de valor ao cliente. Estas últimas também parecem ser as que mais sofrem para obter a remuneração mínima para sua viabilidade econômico-financeira.

As atividades registradas em RRT até o ano de 2017 foram sistematizadas no Anuário do CAU 2018. Foram 1,4 milhões de atividades registradas em 2017, quando havia 22.147 empresas de arquitetura e urbanismo registradas no CAU/BR em todo o país. É importante observar nesses dados que a quantidade de empresas crescia, segundo dados acumulados até então, a uma taxa média de 10% ao ano, superior ao ritmo de crescimento do número de arquitetos formados (taxa média de crescimento de 8% ao ano). Isso demonstra o crescente interesse dos arquitetos pelo empreendedorismo.

O dado mais importante vem agora: de todos os RRT registrados em 2017, 85% se concentra em apenas 2 dos 7 grupos de atividades possíveis de serem realizadas pelos arquitetos e urbanistas graduados (esses grupos são Projeto e Execução). Ou seja, existem outros 5 grupos de atividades que estamos explorando muito pouco. E dizemos isso com bastante segurança, pois são grupos notadamente formados por atividades técnicas compartilhadas com profissionais de outras formações acadêmicas que – sabemos – exploram, e muito, essas atividades.

Excluindo as atividades de Ensino e pesquisa, Engenharia de segurança do trabalho (que exige uma pós-graduação específica) e Exercício de cargo e função (uma atividade de vínculo que não registra uma atividade técnica em si), havia, em 2017, 42 atividades técnicas possíveis de serem exercidas por qualquer profissional formado em arquitetura e urbanismo. Desse total, 31 atividades (73,8%) foram registradas em número inferior ao número de empresas de arquitetura e urbanismo registradas no CAU em todo o país.

Resumindo, esses dados apontam de forma contundente para a rejeição da hipótese de que os escritórios de arquitetura teriam uma atividade generalista ou massificada. Ou seja, aponta para uma realidade de especialização em atividades e nichos de mercado. Essa conclusão é ainda mais forte quando se considera que:

  • RRT é registrada por cada profissional. Portanto, um trabalho executado por três profissionais co-autores, terá três RRT registradas (no mínimo);
  • Empresas possuem mais de 1 profissional numa mesma atividade, o que geraria mais de um RRT daquele tipo de atividade, principalmente as de curta duração, como costumam ser justamente as atividades menos registradas, apontando para extrema especialização de poucos escritórios de arquitetura, enquanto a grande massa de arquitetos continua batalhando pelo oceano vermelho;
  • Exceto atividades de longa duração (que não costuma ser o caso das atividades menos registradas), é muito improvável que um escritório que atue efetivamente com aquela atividade sobreviva executando apenas um trabalho por ano.

Esse conjunto de informações pode eventualmente parecer pouco, ou mero preciosismo, mas não é. Esse retrato é a base de qualquer diagnóstico do setor para a construção de planos de negócios e políticas de gestão a um setor desafiador. Nos próximos textos mostraremos por que nosso métier é mais desafiador que a média.

Até a próxima!

[1] Esse levantamento também foi feito em nossa pesquisa desenvolvida no âmbito do Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da FAU-USP.

[e] Textos com esta marcação tratam do assunto empreendedorismo.

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