Empreendimentos pioneiros de habitação social

Iniciativa pioneira de habitação social: Streatham Street, Henry Roberts, 1850

A cidade medieval, que já vinha sendo superada desde a Revolução Comercial burguesa na Europa, teve seu fim acelerado pela Revolução Industrial, em especial a partir de 1767 com a produção em massa de trilhos de ferro (Abraham Darby). Observe que, até então, as referências que consideramos urbanas nos dias atuais praticamente não existiam, e as primeiras indústrias têxteis se instalaram primeiro em zonas rurais (próximas à produção de matéria-prima), para depois se deslocarem a sítios próximos a cursos d’água (quando perceberam que este recurso era mais difícil de ser transportado que fardos de algodão). Foi só depois deste ciclo que essas indústrias ganharam escala e precisaram se posicionar próximas a fontes de carvão (força motriz das máquinas a vapor).

A cidade manufatureira inglesa já era um fato estabelecido por volta de 1820, quando havia cerca de 24.000 teares a vapor em operação. Porém, as referências rurais ainda não haviam sofrido evolução condizente aos grandes contingentes de trabalhadores, e sem qualquer estrutura urbana mínima de transporte, os operários precisavam se acomodar a distâncias viáveis de serem  vencidas a pé. Com isso, velhos bairros foram adensados ao extremo e transformados em áreas miseráveis, sem condições mínimas de salubridade ou de saneamento básico, o que logo se transformou em grandes epidemias de tuberculose (num primeiro momento) e de cólera e febre amarela (em momentos seguintes).

E o problema não era mais restrito à Europa: Nova York, por exemplo, saltou de 33.000 habitantes (1801) para 3,5 milhões (1901); Chicago saltou de 3.000 habitantes (1801) para 2 milhões (1901) [1]. São Paulo saltou de 21.933 habitantes (1836) para 239.820 (1900), e depois para mais de 1 milhão (1934) [2].

Como efeito, as epidemias precipitaram (na Europa de pensamento liberal) reformas sanitárias, e puseram em prática leis sobre conurbações e adensamentos. Algumas leis britânicas responsabilizavam as administrações locais pelo esgoto, coleta de lixo, fornecimento de água, vias públicas, inspeção de matadouros e enterro dos mortos [1].

Pressionadas, essas administrações acabaram produzindo empreendimentos pioneiros do que hoje conhecemos por habitação social, ainda que a consciência da necessidade de melhorar as condições de habitabilidade aos operários permanecessem muito vagas. Por consequência, não havia muita concordância inicial quanto ao modelo ou os meios para se promover essas melhorias.

Ainda assim, a Sociedade para a Melhoria das Condições das Classes Trabalhadoras patrocinou a construção das primeiras unidades habitacionais operárias londrinas em 1844, com projeto do arquiteto Henry Roberts. Na sequência, surgiram também os apartamentos da Streatham Street (1848-1850), patrocinados pela mesma entidade.

Roberts também desenvolveu, para a Exposição Universal de 1851, um protótipo de edifício operário de dois andares, com quatro apartamentos no total e escada compartilhada. Eles nem desconfiavam, na época, que este protótipo viria a influenciar o planejamento da habitação social no Mundo Ocidental pelo resto do século.

Aviso: importante observar que essas referências estão pautadas pela literatura anglo-saxã (ocidental). De forma geral, o universo árabe e o asiático costumam ser ignorados por essas obras seminais, motivo pelo qual evitamos aqui colocar estes empreendimentos como pioneiros absolutos.

[1] FRAMPTON, Kenneth. História crítica da arquitetura modernaSão Paulo, 1997.

[2] TREVISAN, R. M. Condomínios tipo Vila em São Paulo. Dissertação de mestrado. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Projeto de Arquitetura. São Paulo: FAU-USP, 2006.

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