BIM e o processo de projeto [GA]

escritório de arquitetura

Estamos em um momento histórico de transição para um ecossistema de desenvolvimento de projetos mais colaborativo e interconectado. As ferramentas, processos e formas de trabalhar estão mudando rapidamente para uma realidade de projeto simultâneo e de interoperabilidade em tempo real. E os desafios se apresentam com a mesma rapidez em diversos aspectos. Um dos mais importantes certamente é a transformação do processo projetual, o que suscita muita discussão sobre potencialidades e limitações trazidas a reboque.

Uma vantagem óbvia deste novo cenário é a possibilidade real de avanços em um ideal que já existe há algum tempo: o do projeto integrado, ou seja, de quebra da linearidade de projetos desenvolvidos em sequências de tarefas em diferentes disciplinas e acompanhados por cronogramas em cascata. Segundo Andrade e Ruschel (2011), a forma tradicional de projetar promove uma integração parcial após a etapa de concepção arquitetônica, reduzindo o potencial que as demais disciplinas possuem de contribuir para uma concepção de excelência global. Ou seja, a concepção estrutural, de instalações, os custos etc. ficam limitados aos ganhos marginais e propostas de pequenos ganhos de eficiência. Continuar lendo BIM e o processo de projeto [GA]

Diferença entre project e design [GA]

project e design - diferença

A língua portuguesa é, sem dúvida alguma, muito mais rica que o inglês de forma geral. Afirmo isso no sentido de que temos diversas alternativas com variações sutis para uma mesma definição, além de quase não utilizar mesmas palavras para designar muitos sentidos distintos. Isso é muito diferente no inglês, em especial nos “phrasal verbs”, uma combinatória imensa de um conjunto limitado de palavras para dar uma grande diversidade de significados diferentes.

Mas isso não acontece com a palavra projeto, o que nos causa algumas confusões de interpretação por haver mais de um sentido para ela. Uma forma relativamente fácil de explicar essa diferença é recorrer justamente ao inglês. Esta é uma das poucas oportunidades que temos de fazer isso, uma vez que o inglês diferencia esses dois sentidos entre project design. Esses dois sentidos nos afetam muito, especialmente em tempos de adoção do BIM.

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Escritório de arquitetura e engenharia não se paga em horas [GA]

Escritório de arquitetura

Um dos maiores avanços na gestão de empresas de serviços do campo da Arquitetura, Engenharia, Construção e Operação do ativo construído (AECO) veio entre as décadas de 1980 e 1990, quando se popularizaram alguns conceitos-chave, como custos diretos variáveis e as despesas indiretas fixas. Com a adoção destes conceitos de controle contábil da prestação dos serviços, chegou também também o conceito de medição de custeio por horas trabalhadas dos profissionais envolvidos (os chamados “homens-hora”). E tivemos sucesso na democratização ampla desses conceitos entre os colegas.

Este avanço foi fundamental para importantes avanços na precificação e controle de custos e despesas dos escritórios. Mas também trouxe algumas armadilhas que se replicam muitas vezes sem o questionamento crítico adequado. Uma das mais perigosas é a utilização do método de quantificação de horas trabalhadas pelos profissionais como referência única e irrestrita de precificação dos serviços prestados em arquitetura e engenharia. O principal problema advém da prática de não observar a realidade do escritório como um todo na construção de preços – problema este que se torna crítico em escritórios em que existam custos fixos significativos. E fica ainda pior em escritórios de pequeno porte.
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Da taxa de desconto na modelagem econômico-financeira

A definição da taxa de desconto pelo custo médio ponderado de capital nas modelagens traz discussões adicionais àquelas naturais do método de construção do WACC. Dois dos mais importantes são o regime de tributação sobre a renda e a variação na estrutura de capital da empresa, que se apresenta na forma de Sociedade de Propósito Específico tanto para project finance quanto para parcerias público-privadas (PPP). Esses dois elementos precisam estar bem equacionados para que não potencializem os demais diversos graus de liberdade que essas estruturações corriqueiramente apresentam.

Curva financeira típica de planos de negócios de concessões públicas e parcerias público-privadas
Curva financeira típica de planos de negócios de concessões públicas e parcerias público-privadas

O primeiro aspecto, regime de tributação, afeta diretamente a taxa de desconto a ser utilizada porque interfere diretamente no custo de capital total. O regime de tributação por lucro real permite a dedução do serviço da dívida no cálculo do imposto devido, gerando o que se conhece em finanças como benefício fiscal (tax shield). Porém, esse benefício não existe no regime de lucro presumido. E isso gera uma outra discussão, porque as fases iniciais de investimentos, nas quais a SPE costuma registrar prejuízos significativos, criam situações vantajosas para o uso do lucro reral, e as fases seguintes (de amortização dos investimentos) geram vantagens para o uso do lucro presumido. Ou seja, na prática, o custo de capital varia ao longo do tempo, e muitos estruturadores preferem usar uma WACC diferente para cada período. Continuar lendo Da taxa de desconto na modelagem econômico-financeira

O combate ao uso do automóvel nas cidades

Barcelona, 2023: via exclusiva para transporte coletivo sobre trilhos. Automóveis foram banidos deste tipo de via
Barcelona, 2023: via exclusiva para transporte coletivo sobre trilhos. Automóveis foram banidos deste tipo de via

Quanto mais o tempo passa, menor fica o espaço social para o automóvel particular nas cidades. Qualquer iniciativa, política ou programa de sustentabilidade urbana que se preze adota ações de desincentivo ao uso do carro para deslocamentos cotidianos. Não há como desenvolver soluções sustentáveis de mobilidade no longo prazo mantendo este modal com uso intenso.

Qualquer brasileiro habitando uma cidade com mais de 300 mil habitantes percebe facilmente que obras de ampliação viária se tornam obsoletas e insuficientes em muito pouco tempo. Como já se disse, tratar o problema do trânsito alargando vias é semelhante a tratar o problema da obesidade comprando roupas mais largas.

As propostas de transporte urbano que mais funcionam, e que certamente serão as soluções de um futuro próximo, estão muito mais alinhadas com o que se observa hoje em cidades europeias ocidentais e nórdicas. São pautadas pela oferta de um conjunto de ofertas de transporte público de alta, média e baixa capacidade, interconectadas entre si, e aliadas a políticas de restrição ao uso do carro e contenção do espraiamento da mancha urbana (urban sprawl). Continuar lendo O combate ao uso do automóvel nas cidades