Vitalidade e segurança nas cidades: os geradores de diversidade de Jane Jacobs

“Talvez a obra mais influente da história do urbanismo.” Foi assim que a crítica literária do New York Times classificou o mais famoso livro de Jane Jacobs (Morte e vida de grandes cidades) – e é muito provável que esteja correta.

A obra, publicada em 1961 por uma jornalista e política norte-americana em ataque ao urbanismo operacional modernista (que ela chamava de “urbanismo ortodoxo”), redesenhou os preceitos do planejamento urbano daquele ponto em diante. Seus ensinamentos continuam válidos (e muito) a qualquer pessoa que se disponha a dedicar tempo, vida e energia a pensar o mais complexo sistema já construído pela humanidade: a cidade. Prova disso é sua onipresença nos cursos de urbanismo por todo o planeta e as infinitas republicações (tenho em mãos neste momento uma tiragem de 2019).

A mais recente versão em português para o Brasil, da Martins Fontes, tem 510 páginas. Seria de extrema arrogância (e imprudência) tentar sintetizar uma obra seminal tão icônica num mero artigo de blog como este. Assim sendo, se você se interessa (acredito) pela qualidade de vida nas cidades, não há como escapar. É leitura obrigatória. Continuar lendo Vitalidade e segurança nas cidades: os geradores de diversidade de Jane Jacobs

Planos de negócios para escritórios de arquitetura e urbanismo [e]

Hoje farei aqui a abertura de um assunto que deve vir a tomar o espaço deste blog em uma sequência de textos nos quais falaremos sobre aspectos de planejamento e gestão dos escritórios de arquitetura e urbanismo. Fique à vontade para comentar, fazer sugestões ou solicitações, a ideia é abrir um debate tão amplo quanto possível sobre estas que (segundo os próprios arquitetos titulares dos escritórios brasileiros) são grandes dificuldades enfrentadas diariamente no espaço de trabalho dos arquitetos por excelência.

Ao longo dos anos de 2018 a 2020, foi realizada uma pesquisa no âmbito do curso de pós-graduação em arquitetura e urbanismo da FAU-USP (primeira publicidade dada aos resultados em 17/12/2020, na defesa de tese) sobre os desafios e aspectos críticos para a construção de planos de negócios para escritórios de arquitetura e urbanismo. Há muito o que comentar sobre esse estudo, que nos alimentou com um volume muito grande de informações, e pretendemos divulgar o máximo possível, de forma organizada a partir de agora, de diversas formas: através de organizações profissionais de classe, publicação de artigos científicos, por este blog, e assim por diante. Fique à vontade para sugerir que assunto você gostaria que fosse abordado primeiro – e para isso também escrevo hoje, abrindo o espaço de comentários abaixo para suas sugestões. Continuar lendo Planos de negócios para escritórios de arquitetura e urbanismo [e]

José Canziani: aula sobre assentamentos pré-colombianos nos Andes Centrais

O arquiteto peruano José Canziani ministra, neste vídeo, uma magistral aula sobre a arquitetura pública em assentamentos humanos pré-colombianos no atual território do Peru. Continuar lendo José Canziani: aula sobre assentamentos pré-colombianos nos Andes Centrais

A emblemática PPP educacional do Uruguai

Se você está se perguntando porque uma PPP de educação no Uruguai seria emblemática, provavelmente está fazendo uma questão muito pertinente. Nosso vizinho é, sem qualquer dúvida, o Estado de bem-estar social (welfare state) mais bem-sucedido da América do Sul, e não é de hoje. Há muitas décadas que os uruguaios conheceram soluções (de fato) democratizantes no que diz respeito a direitos e benefícios sociais básicos. A habitação teve um gigantesco salto de qualidade (e quantidade) com uma construção de parcerias entre Governo e entidades setoriais de trabalhadores. Educação é de amplo acesso a todos, a ponto dos uruguaios desconhecerem a nossa realidade de vestibulares para educação superior. A Universidade da República oferece um número de vagas condizente com a demanda. Tanto que em vários cursos concorridos (Direito, por exemplo), sobram vagas para o atendimento à demanda interna, e eles recebem estudantes estrangeiros, entre os quais se incluem brasileiros.

Então por que um país como o Uruguai está fazendo uma PPP de educação? Continuar lendo A emblemática PPP educacional do Uruguai

A maior crítica à PPP: a barganha faustiniana

Um dos textos mais lúcidos que encontrei sobre este assunto foi o de Luis Felipe Vidal Arellano [1], e mesmo a este entendo que ainda cabem alguns comentários. O relato abaixo tem essa obra como referência primordial, complementada por comentários pessoais meus.

O que parece haver de interessante no mecanismo legal da PPP é a possibilidade de se mobilizar recursos privados para projetos de interesse da sociedade que demandem grandes montantes de investimento – características essas típicas de projetos de infraestrutura. Além disso, também parece haver potencial para maior eficiência econômica na prestação de serviços públicos via Lei 11.704/2009 (Lei de PPP).

Porém, a contrapartida disso é o risco à sustentabilidade fiscal dos entes públicos frente a contratos de longo prazo com compromissos financeiros constantes. Esse risco é identificado principalmente quanto à tendência dos concedentes utilizarem o mecanismo de PPP não pela recomendação econômica ou operacional, mas para “afastar os efeitos financeiros da contratação do orçamento público e do balanço patrimonial do governo” [1]. Essa tendência, conhecida como “barganha faustiniana” em referência à obra de Goethe, sacrificaria o longo prazo em prol dos benefícios de curto prazo. Continuar lendo A maior crítica à PPP: a barganha faustiniana