A terra da penúria



Repare bem nesta foto. À primeira vista pode parecer que não, mas ela diz muito sobre o seu desconforto diário. Este é o edifício do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, em São Paulo. Mas poderia ser em qualquer lugar do Brasil.

Existem dois usos coexistindo aí: conjuntos comerciais (escritórios, consultórios, etc.) e residências. Agora olhe com cuidado para a foto novamente e veja se consegue ver a divisão entre os dois usos.

Pois é. Mais evidente é impossível. A diferença é, curiosamente, o conforto térmico. Esse mesmo, que prezamos em nossos carros e ambientes de trabalho, mas que não são prioridade em nosso espaço de repouso, alimentação, lazer, vivência e convivência familiar. (Se tiver alguma dúvida disso, volte para a foto).

O paradigma nacional é que aqui nesta nação (do Oiapoque ao Chuí) não temos temperaturas extremas, então isolamento e condicionamento térmicos são desnecessários?

Sério? São Joaquim ou Campos do Jordão no inverno? Fortaleza, Manaus, Rio Branco, Cuiabá? Tem certeza?

Ou será este um traço cultural herdado de nosso modelo econômico escravocrata, onde a força de trabalho era convencida do berço esplêndido em que “pequenos desconfortos” são normais.

Não defendo aqui o consumo energético para as regalias de conforto da raça humana. Estou apenas dizendo que não temos clima ameno o suficiente para justificar a economia exagerada de nossas construtoras e incorporadoras quando estas entregam portas e janelas com o pior isolamento termoacústico entre os países comparáveis ao Brasil.

Por que temos que continuar aceitando a penúria quando já temos capacidade técnica e econômica para adequar nossos empreendimentos residenciais? Vamos ter que esperar o público começar a processar as construtoras com base na NBR 15.575, a norma técnica oficial de desempenho da edificação? Isso não vai demorar para começar a acontecer quando descobrirem como é fácil comprovar que uma janela padrão de mercado não isola nada… E esta norma não exige nada mais que o mínimo esperado de uma edificação digna.

Em outros países, o desempenho é garantido ao consumidor. Isso não acontece porque o empreendedor é bonzinho, e sim porque já descobriu como sai caro não fazê-lo.

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