Cidades jardim do amanhã: uma leitura de Ebenezer Howard


A leitura do livro mais famoso de Ebenezer Howard (Garden cities of to-morrow, de 1898) neste momento histórico brasileiro é no mínimo interessante. Howard, assim como seus contemporâneos utopistas da Inglaterra da virada do século, imaginou um modelo para a cidade industrial que resolvesse as questões de salubridade e qualidade de vida da população operária. Mas a proposta de Howard foi ouvida, ficou famosa, e deu origem às new towns inglesas, cidades jardim, bairros jardim e subúrbios jardim por todo o mundo ocidental. Em São Paulo, os bairros do Pacaembu, Jardim América e Alto da Lapa são exemplos diretos da concretização de seu plano. Raymond Unwin e Barry Parker, discípulos de Ebenezer Howard, vieram da Inglaterra para desenhar estes bairros no planalto paulista.

Mas por que Howard fez tanto sucesso enquanto seus colegas foram relegados ao ostracismo e desapareceram dos livros de história ou teoria do urbanismo? A leitura da versão original é muito esclarecedora neste aspecto. Recomendo muito a todos (a versão original para o Kindle não custa nem 3 reais).

A ideia se inicia com o ideal liberal do livre arbítrio do cidadão, que seria atraído por três forças magnéticas, cada uma com suas vantagens e desvantagens:

  1. A cidade insalubre onde estavam os empregos e os equipamentos da modernidade;
  2. O campo saudável, onde faltava emprego, renda e socialização;
  3. O campo-cidade, uma proposta de Howard para o aproveitamento do que cada um dos anteriores pode oferecer de melhor para o ser humano.

Para este último, objeto da defesa de Howard, é proposto um modelo detalhado. E é aqui que reside um dos principais motivos do sucesso da proposta. Nós arquitetos temos contato com a proposta urbanística na faculdade (muito inteligente, por sinal). Howard propõe um modelo espacial circular, cuja evolução pode ocorrer por “gomos”. Mas, ao contrário do barroco latino com origens em Sixto V, no centro está um espaço da população, uma praça central da qual partem vias arborizadas radiais. Os círculos concêntricos são avenidas numeradas a partir do centro, todas amplas e ajardinadas. A terceira avenida, maior que as demais, abriga os equipamentos comunitários (escolas, parques infantis, bibliotecas, etc.). Na periferia ficam as indústrias e entrepostos comerciais, e além deles está o cinturão verde agrícola de abastecimento (sim, fazem parte do projeto). As residências operárias ficam no cerne do espaço urbano, invertendo a lógica do mercado imobiliário britânico da época.

A conexão com outras cidades além do conturão verde seria feita por ferrovia, a qual passaria externamente à área central da cidade, preservando-a do incômodo do transporte de cargas e alimentação das indústrias periféricas com matéria prima.

O conceito espacial é interessante, mas não é o motivo principal do sucesso do conceito de Howard. Outras ideias contemporâneas, de comparável qualidade espacial desapareceram dos livros de história. Por que?

Talvez o motivo esteja ligado ao detalhamento que Howard faz da viabilidade do projeto em todos os aspectos. E o projeto, neste caso, entendido em sentido amplo, cumprindo os principais pontos do PMBOK/PMI. A descrição espacial do projeto não é nem 10% do livro. O restante detalha a operação financeira e fundiária, como um projeto de empreendimento privado sem fins lucrativos baseado no aluguel. Conceitos financeiros atuais e de maior complexidade como lastro em debêntures e alavancagem financeira são utilizados com propriedade, demonstrando sempre sua atratividade aos usuários considerando valores reais em opções concorrentes. Com isso, fica evidente que o projeto se tornava tangível para o leitor da época.

Há uma grande vantagem em se comprar a terra antes desta receber benfeitorias. A mais-valia, neste caso, seria socializada entre os investidores/usuários para a amortização da dívida original de aquisição do terreno e obras públicas lastreada em debêntures, inclusive emitindo debêntures outras de menor custo financeiro decorrente da consolidação da nova cidade e melhoria de seu rating. Além da conhecida aula de urbanismo, uma magistral aula de administração financeira, conhecimento que tanto falta a nossos arquitetos e urbanistas. Talvez um dos primeiros casos de project finance da história.

Todo o custeio é apresentado de forma verificável, em termos reais, numa defesa muito interessante da ideia, que traz muito a se pensar aos idealizadores urbanísticos de hoje.

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