O conceito cidade-jardim


por Cintia Pessolato Efraim

 

O conceito de garden-city consagrou-se ligado a experiências britânicas do início do século XX e é entendido de formas diversas; acabou sendo popularizado pela associação a uma terminologia, que transita pelos termos cidade-jardim e subúrbio-jardim, nem sempre de maneira precisa. O termo cidade-jardim refere-se a núcleos urbanos, que buscam independência de outras cidades, possuindo planejamento com finalidades sociais amplas e a união entre cidade e campo em um só todo, procurando a harmonia que não existe na cidade industrial. Já o subúrbio–jardim constitui uma extensão de uma cidade pré-existente, da qual é dependente e, pode ser ou não, conectado ao tecido urbano. Portanto, enquanto a cidade-jardim propunha um espaço de rejeição e autonomia da cidade industrial, os subúrbios-jardim não só, eram implantados aos arredores das cidades industriais, como dependiam delas totalmente.

O termo cidade-jardim acaba se popularizando após o sucesso das idéias de Ebenezer Howard, concretizadas pelos arquitetos Raymond Unwin e Barry Parker, em 1903, na cidade de Letchworth – considerada a primeira cidade-jardim da história, e no subúrbio londrino de Hampstead. A proposta de cidade-jardim de Ebenezer Howard não se referia a um modelo espacial: constituía um “esquema teórico de uma cidade autônoma” com gestão comunitária, de dimensão limitada por uma faixa agrícola circundante, com uma grande taxa de área verde, bem diferente das cidades de até então. Esta teoria foi sistematizada no livro Garden Cities of Tomorrow (1° ed. 1898). Para Howard, as cidades-jardim constituíam uma alternativa à cidade industrial, não apenas do ponto de vista formal, como também no de proporcionar habitações de qualidade ao operariado, que seriam alugadas através de cooperativas. Além de a cidade oferecer recursos industriais e agrícolas, os jardins, junto às casas, deveriam constituir hortas, e os cinturões verdes tratariam de limitar o crescimento das cidades, mantendo a escala humana.

No entanto, a denominação cidade-jardim e os aspectos formais, como o de fornecer habitações de qualidade e ambiente saudável para seus moradores, acabaram sendo utilizados em várias experiências urbanas. Esta aceitação das paisagens, criadas a partir das experiências britânicas, e a conseqüente adoção como modelo, acabou induzindo ao uso indiscriminado do termo garden-city, tanto para conjuntos habitacionais populares e de classe média ou alta, como para cidades planejadas.

Segundo WOLFF (2001, p.29), a paisagem urbana de Letchworth influenciou os subúrbios do século XX nas formas de ocupação, que integram arquitetura e paisagem e as tipologias arquitetônicas. Suscitou também pesquisas de habitação social na Europa do entre-guerras, resultando na busca por habitações dignas, mas com baixo custo para o operariado. Os subúrbios ou bairros-jardim proliferaram mundialmente, ligados a cidades existentes, ao contrário dos conceitos de Howard, avesso a grandes distâncias e concentrações urbanas. Este modelo foi, e ainda é, amplamente aplicado no contexto norte-americano.

O sucesso deste padrão urbano está fundamentado em referências formais como: ruas sinuosas e arborizadas, integração entre edificações e jardins, acomodação às condições naturais e à variedade de modelos de casas desenvolvidos, o que levou a ser aplicado em diversos contextos urbanos por todo o mundo. Nos subúrbios-jardim britânicos, por exemplo, a construção isolada era um objetivo, como forma de contraposição às residências geminadas e enfileiradas dos centros urbanos. Nos projetos habitacionais econômicos, ainda que não fossem residências unifamiliares, as unidades eram agrupadas duas a duas ou quatro a quatro em um ou dois pavimentos, mas buscava-se sempre a aparência de casa isolada.

A partir da segunda metade do século XIX, a expansão do transporte coletivo acaba favorecendo o surgimento de subúrbios-jardim, geralmente localizados em zonas de expansão, ou destacados do restante da malha urbana. Esse modelo urbanístico foi muito valorizado no século XX. As paisagens criadas nas cidades-jardim e subúrbios-jardim inspiraram a implantação de vários bairros na Europa, EUA e América do Sul, inclusive no Brasil, como é o caso do Jardim América e do Pacaembu, ambos em São Paulo.

BIBLIOGRAFIA

WOLFF, Silvia F. S. Jardim América: Primeiro Bairro-Jardim de São Paulo e Sua Arquitetura.1° ed. São Paulo: Imprensa Oficial SP, 2001.

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