(in)sustentabilidade da empresa prestadora de serviços

Muito se fala sobre sustentabilidade, mas pouco se explica sobre o quê. Termo este que hoje em dia se adere às políticas de responsabilidade ambiental, social e de governança (ASG) tem uma motivação muito mais primitiva no mundo dos negócios: o da busca pela perenidade da empresa. As motivações de Fayol para tirar gente da operação para isolar num escritório pensante não caíam muito longe dessa árvore.

Qualquer empresa que nasça sem uma intenção de perenidade consome recursos sociais custosos para atender a um objetivo relativamente curto para o mundo, justamente por estar limitado aos prazos de vidas humanas. Ou seja, abriga uma nada desprezível carga de egoísmo. Tais recursos sociais custosos são limitados, e o acesso a eles é particularmente concorrido em economias de alta desigualdade social.

As empresas prestadoras de serviços, em qualquer setor, costumam repetir um incansável mantra de recorte visual extremamente compartimentado por oferta individual na precificação, como se pudessem estocar suas ofertas e fingindo que a teoria das restrições não existe. Com isso, qualquer margem arbitrada para esse tipo de formação de preços é absolutamente fictícia. Isso acontece porque os custos dessas empresas insistem em se comportar como fixos, enquanto seus gestores que lutem para fechar essas contas com contratos vendidos que se fossem variáveis.

Ilustro aqui com um exemplo, para que não me acusem de abstracionismo, e até acredito que você o conheça de perto. Uma proposta comercial é formatada no tradicional esquema de pirâmide (não, a do outro tipo), na qual indivíduos específicos do operacional são alocados 100% nesse possível projeto, reduzindo esse percentual a cada degrau que se sobe na escadinha corporativa até chegarmos a uma irrisória participação da alta administração. Tudo o que sabemos com isso é que, se for aceita, tal proposta cobrirá apenas os custos (fixos, insisto) dos nomeados cidadãos operacionais.

Ocorre que o universo não colabora sempre com nossas vontades, e de vez em quando a soma dos projetos em carteira não cobre os rendimentos do povo que está lá no alto da escada. A solução adotada é simples: fechar mais contratos, sobrecarregando de trabalho os cidadãos que agora estão com mais de 100% de seu tempo tomado, de forma a compensar um pequeno erro de cálculo, ou deveria dizer de governança, para que a empresa continue promovendo tais “benefícios” a seus empregados.

O mais impressionante é que a fórmula que não se sustenta no longo prazo parece ter dominado todo o espectro corporativo da prestação de serviços. E, para surpresa de alguns, pessoas com mais de 100% de dedicação planejada eventualmente adoecem, se afastam do trabalho, ou apenas se retiram de potenciais oportunidades internas para que isso não aconteça com elas. Os que não deram o passinho para trás recebem mais trabalho, e temos um círculo vicioso perfeito. E silencioso.

Uma das principais causas, pasme, é a simples não observância de que pessoas de dedicação exclusiva à empresa são custos fixos, nunca variáveis. Se a precificação das propostas comerciais não entendeu isso, uma coisa é certa: a incompatibilidade de estratégias interna e externa da organização não aceitará desaforo para sempre.

Algum tempo atrás, escrevi um pequeno ensaio sobre esse aspecto para escritórios de arquitetura (aqui), mas o problema é, sem dúvida, pandêmico.

Saiba mais:

Gestão do escritório de arquitetura - capa do livro

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