O projeto de uma casa


Por que saber onde fica o norte?

Sabendo a orientação do terreno (onde está o norte), podemos prever a trajetória aparente do sol (insolação) e os ventos predominantes. A insolação orienta o projeto quanto ao posicionamento dos ambientes. No hemisfério sul (que corresponde a quase todas as cidades brasileiras), a face norte recebe mais sol no inverno e menos (ou nenhum sol, dependendo da latitude) no verão. A face leste recebe insolação bastante horizontal pela manhã e nenhuma à tarde. A face oeste recebe a insolação horizontal da tarde e anoitecer.

Para cada região do país, a melhor orientação dos ambientes depende de seu clima, topografia e elementos naturais (visuais, corpos d`água, etc.). Por exemplo, do trópico de Capricórnio para baixo (regiões sudeste, sul e Mato Grosso do Sul), a face norte é valorizada por ser fresca no verão e aquecida pelo sol no inverno. Mais ao norte, receber mais sol nunca será uma opção desejada, mesmo no inverno.

A face sul, que recebe algum sol no inverno na região sudeste e Mato Grosso do Sul, não é desejada para qualquer ambiente de estar prolongado. Por isso nós, arquitetos, preferimos colocar na face sul da residência banheiros, áreas de serviço, depósitos, circulação, escadas, etc. O mesmo se aplica à face oeste em cidades quentes. A diferença é que a face sul tende a ter menor temperatura média. Quando a casa tem uma cave, o ideal é que fique em seu centro geométrico (local mais fresco). Mas se tiver que ficar na periferia do edifício, o ideal é que seja na face sul.

As faces mais nobres (em geral variando de norte a leste, dependendo da região do país) recebem os ambientes de permanência prolongada (salas, dormitórios, escritórios, etc.). Nossa cultura é de permanência prolongada na cozinha. Esta área nos é cara e nobre, não importa o que se diga em livros estrangeiros.

Por onde começar?

Uma de minhas primeiras professoras de projeto dizia que temos que considerar três aspectos básicos: o que se tem, o que se quer e o que se pode.

  • O que se tem refere-se ao nosso ponto de partida, nossas condicionantes iniciais de projeto: como é a topografia do terreno (para isso se faz o levantamento topográfico planialtimétrico), como é o seu entorno (vizinhança), as visuais mais interessantes, a orientação (norte), a resistência do solo para apoiar o edifício (sondagem), etc.;
  • O que se quer são os desejos de quem vai morar na casa. O que ela precisa ter, e como (programa de necessidades)? Quantas pessoas amararão ali? Qual o estilo de vida delas? Terão animais domésticos? De que tipo? Gostam de jardins? De que tipo? Terão quantos carros? Quais seus hobbies? Em que período do ciclo de vida estão? Quais adaptações previsíveis serão necessárias no futuro? Com que se identificam? Quanto tempo passam em casa? Como é seu final de semana? Como se divertem? Para onde viajam? Quais seus sonhos e objetivos pessoais? Pergunte o máximo que puder, até entender completamente o que é necessário ter nesta casa;
  • O que se pode são as restrições, as limitações. São as leis municipais, as regras de condomínios, o orçamento dos donos da futura casa, as limitações naturais do terreno, as impossibilidades pessoais dos moradores.

Destas considerações começa o projeto de arquitetura.

Os setores da casa

Toda casa é um equipamento com três setores, mesmo que a casa seja minúscula e não exista divisão física entre eles. Estes setores representam suas três funções essenciais:

  1. Íntimo: aqui está a função básica da habitação, conectada com suas origens mais primitivas para o ser humano: abrigo e proteção. São basicamente os dormitórios, banheiros da família, salas íntimas, etc. Portanto, precisa ser segura. Isso não significa necessariamente estar mais distante da entrada, mas como esta é a solução mais simples, é o que acaba acontecendo. Por exemplo, em sobrados esta função costuma ficar no pavimento superior (menos acessível), mesmo que nosso país tropical tenha um sol implacável que deixa estas áreas mais quentes – portanto, o pior lugar da casa para dormir;
  2. Serviços: a continuidade primitiva do abrigo era garantir a permanência mais prolongada possível em caso de necessidade. A necessidade de se proteger de animais selvagens trouxe o problema do armazenamento de alimentos. Antes de Jacob Perkins trazer o refrigerador para a civilização, em 1834, armazenar proteína significava salgar a carne (vide o bacalhau). Por isso a literatura universal coloca a cozinha neste setor. Além dela, estão os ambientes de apoio ao funcionamento da residência, portanto a área de serviço também está aqui, assim como despensas, depósitos, casas de máquinas, etc.;
  3. Social: este setor é o mais recente da residência, considerando a evolução da humanidade. Também vem, no mundo ocidental, de costumes burgueses europeus derivados da necessidade anterior da vassalagem. Com a queda da aristocracia desde o Iluminismo, a burguesia comercial europeia deu continuidade ao costume de receber pessoas e “fazer sala”, desta vez com propósitos mais pragmáticos. Hoje em dia, o setor social é também um setor de estar, e abriga as maravilhas tecnológicas do cinema em casa, por exemplo. No Brasil, a cozinha também faz parte do setor social, é nossa tradição trazer a visita à mesa, compartilhar de nossas refeições.

O ideal é que o projeto separe estas três funções, e que permita circulações independentes entre elas. Na impossibilidade de cumprir esta exigência, o estilo de vida e desejo dos moradores deverá ser observado.

Enfim…

A origem da arquitetura se confunde com a busca do ser humano por abrigo. E a construção de seu próprio abrigo pelo homem é simbólico, marca o domínio da humanidade sobre os recursos naturais num nível mínimo essencial. Essa marca está dentro de cada um de nós, passada de geração para geração, e aparece no fascínio que vejo nos olhos de qualquer pessoa quando falo sobre a construção de sua própria residência. Ficamos transparentes, abrimos nossos corações colocando à mesa nossos sonhos e desejos que nem conhecíamos. É um dos momentos mais interessantes do ofício do arquiteto, e ele não se reduziu em nada em 23 anos trabalhando com construção civil. Eu sempre quis que todo mundo tivesse acesso a esta oportunidade, mesmo a quem nunca teve a oportunidade de conversar com um arquiteto sobre sua própria casa ideal. Fiz o possível para democratizar alguns conhecimentos básicos do ofício da arquitetura.

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