A revolução do BIM bate à porta

O BIM (Building Information Model) converge interesses de diversas partes. As principais:

  • Proprietários: TCO (total cost of ownership), que é a soma dos gastos de implantação/construção (CAPEX) e gastos de manutenção (OPEX); risco de não receber obras ou de receber com atraso; desejo de antecipar receitas sempre que possível; situação recorrente de estouro de orçamento. Para o proprietário, “caro” é relativo, pois um investimento pode ser coberto muitas vezes pelo retorno adicional obtido.
  • Incorporadores: redução de incompatibilidades entre projetos, interface entre áreas, suporte à área de assistência técnica, criação de diferencial em relação aos concorrentes.
  • Projetistas: qualidade dos projetos, eliminação de retrabalho, redução de prazo, redução de equipe, penetração em novos mercados (necessário para a permanência no mercado).

O setor de construção civil em todo o mundo representa hoje 13% do PIB global e 7% da mão de obra total. Entretanto, enquanto os demais setores vivem um aumento de produtividade, este índice na construção civil está em queda. As necessidades de mudanças aliadas às possibilidades trazidas pela tecnologia e telecomunicações levam a uma tendência de integração entre sistemas. Com isso, as prefeituras estão mudando procedimentos de aprovação de projetos, o formato dos contratos está se alterando. A forma de entregar um projeto técnico é outra, assim como a de fornecer suprimentos. Esta mesma integração de sistemas digitais já altera a produtividade do canteiro.

O setor agora passa pela fase de investir em equipamentos condizentes, treinamento de pessoal, investimentos pesados em impressão 3D e pré-fabricação. Até a agricultura é mais informatizada que a construção, então não há mais como voltar atrás nessa tendência.

Um levantamento recente realizado nos EUA mostrou que 70% das obras realizadas com sistemas informatizados anteriores ao BIM atrasam, e 73% ficam acima do orçamento. O confronto com dados brasileiros (Sinduscon de alguns estados) mostram números muito semelhantes (não estamos nem pior nem melhor que isso). O mesmo estudo realizou um amplo diagnóstico de causas para tais problemas e constatou que 10% custo de projeto é perdido em retrabalho e colisões evitáveis em equipe de canteiro, e o desperdício de material gira em torno de 30% (para sistemas construtivos norte-americanos).

Após a implantação do BIM, aliado ao IPD (Integrated Project Delivery) e pré-fabricação off-site, recordes de produtividade estão sendo quebrados com frequência cada vez maior. Já não é incomum encontrar pintura autolimpante com nanopartículas (“pintura fria”), edifícios que funcionam como robôs, e não é só no exterior. A Vitacon acaba de estabelecer uma parceria com a Intel para a produção de um prédio para startups desenvolvimento de aplicativos para dispositivos móveis no território brasileiro. Também já existem escritórios que funcionam 24 horas, entregando seus produtos em 1/3 do prazo dos concorrentes convencionais – a forma de se viabilizar é a integração com outros escritórios no exterior deslocados em 1/3 do fuso horário total do globo terrestre.

Segundo o arquiteto Luiz Augusto Contier diz que implantar BIM é uma decisão de negócio, não é mais uma decisão técnica. Há uma forte tendência à integração com as regras de Corpo de Bombeiros, prefeitura e outros órgãos governamentais através de verificação de parâmetros pelo próprio sistema utilizado para o projeto. Em média, hoje, 25% do TCO é custo de construção e implantação do edifício (CAPEX), e 75% se refere à sua manutenção (OPEX). Ou seja, ¾ do custo total de propriedade não está sendo observado em sistemas convencionais, e os gastos não costumam ser alimentados em nenhum sistema além de um arquivo de planilha eletrônica.

A Método Engenharia fez uma apresentação e mostrou que 53% das modificações de projeto são solicitadas pelo próprio cliente, e o principal motivo é que este não enxerga adequadamente o projeto. Através de sistemas BIM, além de facilitar a visualização (tudo é construído virtualmente em 3D, rompendo o paradigma da “representação”), qualquer informação pode ser facilmente obtida em tempo real. Em outras palavras, pode facilmente se integrar com um ERP (por exemplo, com o SAP/Oracle).

O BIM já possui norma técnica brasileira (NBR 15.965/2011, originada na ISO 12.006-2). Os termos já estão em português, pronto para a padronização de integração. E o BIM pode se integrar com qualquer outro sistema, inclusive usar realidade aumentada. Por exemplo, permite ver a obra que ainda não existe com a câmera de um dispositivo móvel comum (tablet ou celular). Também é eficaz e eficiente para levantar custos do espaço, aproveitamento, taxa de utilização, etc. Uma faculdade ou empresa rapidamente sabe o custo por aluno ou por funcionário em termos de consumo relacionados ao espaço físico (energia elétrica, manutenção, aluguel, etc.)

Os softwares EnergyPlus e DesignBuilding fazem de simulação de desempenho do edifício para o cumprimento da NBR 15.575, e já estão sendo utilizados por construtoras no Brasil. O software Primavera realiza o 4D (planejamento de obra no BIM) com probabilidades através de simulação de Monte Carlo, e já está em uso pela Petrobrás. Há tecnologias que constroem modelos 3D a partir de um passeio feito com a câmera de um dispositivo móvel comum ligada. São sistemas que literalmente fazem um levantamento da realidade (sistemas from point cloud to BIM).

Os processos em BIM também são radicalmente diferentes daqueles convencionais. Permite engenharia simultânea (todos os projetistas trabalhando ao mesmo tempo num mesmo modelo, mediados pelo coordenador do projeto. É colaborativo. Não se baseia em entregas (ninguém entrega, e o cliente – em geral quando é o poder público, como o britânico – tem acesso e acompanha todo o desenvolvimento em tempo real).

Também muda a forma de gerir pessoas, exigindo um perfil muito claro de CHA (competências, habilidades e atitudes): são necessárias pessoas que decidem por si próprias. E, preferencialmente, que o façam com rapidez. Isto está acontecendo porque cada posto de trabalho ficou muito mais caro, sistemas e máquinas não mais custosos. Um caso real deste tipo está acontecendo no escritório de Henrique Cambiaghi.

Um forte aliado ao BIM (integração de sistemas) é o IPD – Integrated Project Delivery (integração de processos). Nota: observar que o inglês project tem sentido diferente do projeto técnico de arquitetura ou engenharia, os quais são designados pelo termo design. No IPD, as equipes passam a maior parte do tempo construindo a obra virtual previamente e planejando (BIM 4D) a execução mais rápida e enxuta possível. O IPD traz todas as equipes para o início do processo.

No Brasil, uma lei de 2017 já tornou obrigatório uso de BIM para projetos e obras públicas. Portanto, já existem vantagens em concorrência pública a quem está preparado para trabalhar em BIM desde o início (termos de referência, documentação de referência, etc já são entregues em formado IFC, por exemplo).

A Método relatou o uso de QR Code em pranchas para saber se a versão é válida. Usa um sistema de medição de obras em parceria com a Autodoc que reduziu 60% do tempo tempo de execução e ganho de 80% no tempo de extração de quantitativos (inclusive medições).

[anotações pessoais do Curso de introdução ao BIM, realizado no Sinduscon São Paulo, conduzido pelo prof. Rogério, realizado em 26 de outubro de 2018]

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