A crise financeira de 2008


Os desdobramentos da crise de 2008 são sentidos até hoje em todo o mundo. Inclusive no Brasil, onde nossos raquíticos resultados de crescimento do PIB comprovam que a “marolinha” foi mais forte do que se pretendeu.

Esta história pode ser contada tomando por início o segundo mandato de Bill Clinton, ainda no ano 2000, quando a crise do momento era o estouro da bolha das “ponto-com”. As empresas de tecnologia baseadas na internet estavam em pleno crescimento, quase todas com capital tangível mínimo. Era difícil avaliar estas empresas, ninguém sabia ao certo seu potencial de criação de valor, ou de potencial geração de caixa futuro, ou valor de marca, ou qualquer outro parâmetro utilizado em outras empresas. Muitas delas cresciam com prejuízos em sequência. Para se ter uma ideia da falta de indicadores, algumas delas eram avaliadas pelo número de cliques que recebiam dos usuários. Isso criou um ambiente especulativo quando estas empresas abriram o capital, e a rápida circulação de suas ações nas mãos de investidores de curto prazo criaram uma elevação irreal de valor de mercado – uma bolha.

O estouro da bolha ocorreu em 2000, quando os investidores perceberam que o valor das negociações não eram coerentes com o potencial de geração de lucro das firmas. O mundo ainda estava se recuperando do estouro da bolha em 2001, quando houve os ataques de 11 de setembro. A confiança do investidor se retraiu ainda mais, e os efeitos na economia real já eram sentidos. Como sempre se faz em tempos de crise, as taxas de juros foram fortemente reduzidas.

Quando os lucros começaram a se recuperar, ainda continuavam pequenos frente aos riscos. As taxas de juros ainda estavam em patamares muito baixos, haviam sido reduzidas para estimular o consumo (exatamente como o Banco Central está agindo hoje no Brasil). A pressão dos acionistas por retornos condizentes com os riscos pressionava por exploração de novos produtos. Os departamentos de projetos e desenvolvimento de novos produtos rapidamente se tornaram os mais pressionados nas empresas. A pressão era grande o suficiente para que a tolerância ao risco fosse mais flexibilizada. Neste momento começava a gestação de uma nova crise.

Projetos antigos, que estavam engavetados por risco elevado foram trazidos novamente à baila, em todos os segmentos empresariais, inclusive nos bancos. A invenção destes últimos foi um produto aparentemente de baixo risco: financiamento imobiliário. Acreditava-se que o risco era reduzido porque, na eventualidade de inadimplência, o imóvel dado em garantia seria retomado pelo credor. O raciocínio não está errado, a não ser que o imóvel seja passível de refinanciamento (e isso está ocorrendo no Brasil de hoje), ou que perca completamente seu valor. Assim, os bancos avançaram sobre mercados com baixa capacidade de pagamento, conhecidos como subprime (os melhores mercados são chamados de superprime prime). Os mais pobres de repente tinham crédito para comprar casas.

Desnecessário dizer que o mercado imobiliário foi fortemente impulsionado, e o aquecimento do mercado valorizou os imóveis. Mesmo com a esperada inadimplência do mercado subprime, a valorização dos imóveis tornou o negócio muito atraente. A competição cada vez mais acirrada num mercado em expansão levou os bancos a avançarem sobre mercados de risco cada vez maiores, valorizando cada vez mais os imóveis a aquecendo o mercado imobiliário.

As operações financeiras desses financiamentos eram lastreadas em produtos tangíveis, que raramente perdem valor: os próprios imóveis. Os próprios compradores, percebendo os potenciais de ganho, passaram a refinanciar suas casas para avançar sobre imóveis maiores e melhor localizados. A inadimplência era muito maior que a média observada nos EUA, mas o aumento de preços sustentava a viabilidade das operações.

Mais produtos foram desenvolvidos, especialmente títulos de securitização destas dívidas. Um exemplo para entender como funciona este tipo de título: o banco A tem $1000 para receber de um mutuário. Havia um imóvel como lastro, então as agências de rating consideravam o título seguro, e davam nota máxima (baixíssimo risco, como AAA ou AA+) para o título. Para antecipar o recebimento, o banco aceitava colocar este título no mercado por, por exemplo, $900. Um título norte-americano, com nota máxima, lastreado em imóveis, num período de juros baixos eram muito atraentes. Foram comprados por fundos de pensão e aposentadorias de vários países, por fundos soberanos de países economicamente fortes, por bancos de investimentos europeus e asiáticos. Boa parte da economia global comprou estes títulos.

O esquema funcionou bem por poucos anos. Em 2004, alguns analistas começaram a apontar riscos de inadimplência. Em 2006 ganharam coro de vozes importantes, inclusive diretores do Fed. Em 2007, já era evidente que a inadimplência estava criando problemas de liquidez no sistema bancário norte-americano. Mas nada disso abalou a confiança dos investidores. Afinal de contas, os preços continuavam subindo. Até que, em algum momento, o mercado começou a se dar conta que os preços de mercado estavam elevados muito acima da realidade dos valores dos imóveis, e começou o movimento de retomada e busca de liquidez (para entender este risco, leia Como funciona a poupança). Os imóveis começaram a ser repassados a valores que caíam muito rapidamente, e os títulos estavam lastreados em valores muito mais altos pelos mesmos imóveis. Isto significa que os títulos perdiam valor com muita rapidez, e os bancos de investimentos perdiam valor na mesma velocidade.

Os resgates crescentes colocaram os bancos contra a parede, e o primeiro a secar foi o Citibank, que pediu ajuda ao governo e obteve. Em seguida, foi o Lehman Brothers, um tradicional banco de investimento criado como casa de comércio de algodão em meados do século 19 por imigrantes da Bavária. Um dos maiores bancos norte-americanos. Quando se viram na mesma situação do Citibank, não tiveram dúvida em pedir ajuda ao governo. Mas o pedido foi negado. Os correntistas de um dos maiores bancos do mundo assistiram então ao pedido de concordata mais impactante da história.

A quebra do tradicional banco de investimentos Lehman Brothers, no dia 15 de setembro de 2008, foi apenas o ponto culminante de um processo em curso já havia quase uma década. Não era, naquele momento, uma crise da economia real, ou uma crise financeira. Mas viria a ser em poucos dias. Boa parte da economia global estava encadeada como dominós em pé, e o Lehman Brothers era um dos primeiros da fila.

A crise de liquidez se espalhou pelo mundo todo. Para resgatar os bancos locais, os bancos centrais de várias regiões emitiram moeda flexibilizando o controle fiscal imaginando que a economia se recuperaria a tempo, mas isso não ocorreu. Grécia, Itália, Portugal, Espanha, Irlanda sofrem hoje para honrar compromissos monetários criados naquela época, cujos efeitos ainda são sentidos hoje.

Nota: o texto acima foi elaborado com base em três relatos aos quais assisti: uma aula do prof. Roy Martelanc (FEA-USP), uma palestra de William Handorf (Fed) na Fecomércio, em São Paulo e uma aula do professor Silvio Carvalho (FEA-USP e Itaú), esta última proferida no primeiro semestre de 2007, bem antes do auge da crise.
Esse post foi publicado em administração, finanças, textos e marcado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para A crise financeira de 2008

  1. Pingback: Que riscos o Brasil corre? | Ricardo Trevisan

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s