Montevideo para arquitetos


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Montevideo é uma cidade fantástica, especialmente para arquitetos. A escala urbana reduzida, edifícios do colonial ao contemporâneo, com grande presença do Art Déco (em geral bem preservados), o urbanismo hispânico para a América, a topografia suave de colinas e sua história singular fazem desta cidade um lugar extremamente interessante, a minha preferida na América do Sul.

Jardín Japonês - Montevideo

Primeiro olhar

O Uruguai impressiona logo na chegada, e deixa com inveja qualquer brasileiro com seu aeroporto moderno e adequado a uma capital nacional (e reforça o atraso de nossa própria infraestrutura…). O aeroporto de Carrasco, localidade próxima a Montevideo (faço questão de escrever o nome da cidade na forma nativa, até porque também não quero que escrevam a minha como “San Pablo”).

Carrasco_aerop

Quem chega a Montevideo vê a cidade na ordem contrária a seu desenvolvimento urbano. A cidade surgiu com fins militares, durante a disputa ibérica pelo controle do acesso ao Rio da Prata, com uma ocupação da península da Ciudad Vieja, seu centro histórico. O próprio nome tem origem nas cartas náuticas que identificavam um território totalmente desocupado (os nativos indígenas foram exterminados) por marcos geográficos. Um deles em especial tinha evidentes vantagens militares por ter uma baía ao lado de uma elevação. Esta última era o 6o. monte contado de leste para oeste ao se adentrar o impreciso Rio da Prata, e como os mapas utilizavam algarismos romanos, a toponímia era “Monte VI E-O”, que logo passou a ser pronunciado Montevideo.

A singularidade uruguaia não para por aí, e permeia toda a cultura nacional. Um dos países menos populosos do mundo, tem apenas 3,4 milhões de habitantes em todo seu território (menos que a Região Metropolitana de Recife). A capital, Montevideo, tem pouco mais de 1,3 milhões de habitantes (menos que o município de Porto Alegre). A pequena população, concentrada na capital, não impede um desempenho econômico respeitável: seu PIB per capita nominal é de US$ 14.671 (dado do FMI, estimativa 2011), o que o coloca entre os 50 melhores do mundo (o do Brasil era US$ 12.078 em 2012). Entre 2007 e 2009, o Uruguai foi o único país das Américas que não entrou em recessão (2 trimestres seguidos de retração). E é a melhor qualidade de vida da América Latina. E sua economia já foi tão forte, que era conhecido como a “Suíça da América”.

Como sempre, estas características estão gravadas na arquitetura e no urbanismo. A forte presença de materiais importados da Europa, o Art Dèco e o urbanismo são exemplos. O desenvolvimento urbano revela uma cultura muito próxima e, ao mesmo tempo, muito diferente da brasileira. Montevideo se expandiu para leste e norte, pelo continente, de forma que a distância do centro tem alguma correlação com a época do loteamento. A avenida beira-mar, la Rambla, foi inspirada na equivalente de Copacabana, no Rio de Janeiro, mas de uma forma pitoresca e muito agradável, por onde vale a pena dar um passeio de bicicleta ao entardecer. Já nesta avenida você vai perceber uma grande diferença em relação ao Brasil: muito menos muros e cercas, edifícios implantados em gramados sem barreiras físicas. Um bom exemplo é o Hotel NH Columbia, na Rambla Grã-Bretanha (um bom local para se hospedar, por sinal).

Vista da Rambla a partir do Hotel NH Columbia, Montevideo

Para entender a cidade, sugiro que comece pelo museu do Cabildo, Plaza Constitución. Lá você vai entender o desenvolvimento primário da cidade. Os arquitetos uruguaios gostam de dizer que o crescimento da cidade pode ser entendido pelo caminho formado pelas praças Zabala, Constitución, Independência, Fabini, Cagancha (onde fica o marco zero da cidade). Cada uma corresponde a um período histórico. Há uma curiosa rotação da Plaza Zabala em relação ao damero.

Plaza Constitución. Foto Emilene Miossi

Depois, recomendo que percorra este trajeto a pé. Uma boa ideia é iniciar a caminhada com um almoço no Mercado do Porto. O caminho é composto pela Peatonal Sarandí e pela Avenida 18 de Julio. Na Peatonal Sarandí, próximo à Plaza Independencia, não deixe de visitar o Museu Torres Garcia (e sua livraria). Esta também é uma região de pubs e do Teatro Solís (vale uma visita guiada e assistir a um espetáculo).

O caminho está recheado de edifícios importantes para a arquitetura e a história política e econômica do país. Existem bons guias de arquitetura da cidade publicados pela Elarqa, seria legal consegui-los antes de iniciar a caminhada. Estes guias possuem mapas, plantas dos edifícios, nomes dos arquitetos e um breve relato da importância da edificação. A intendência de Montevideo está no final deste trajeto, não deixe de visitar o Museu que existe em seu subsolo: fantásticas maquetes do coliseu romano, do Partenon grego, uma múmia egípcia real, e muito material sobre a América pré-colombiana. Não se engane pela pequena entrada à direita do edifício, o museu ocupa o subsolo todo.

Os parques de Montevideo são fantásticos por suas implantações e a relação de uso que estabelecem com o entorno. Viste o Estádio Centenário, veja que interessante sua implantação em relação ao parque e à cidade.

Facultad de Arquitectura de Montevideo

Também não deixe de visitar a Facultad de Arquitectura da Universidad de la Republica, que fica em Punta Carretas, no Boulevard Artigas. O prédio e o currículo da faculdade são muito interessantes. De lá, vale a pena caminhar pelas ruas deste bairro charmoso e pelo Parque Rodó.

Estique até uma ruazinha chamada Zorilla de San Martín, e vá até uma casinha azul chamada Museo Zorilla de San Martín, casa deste ilustre escritor, equivalente a nosso José de Alencar (autor de Iracema, O Guarani, etc.), escreveu Tabaré, o mito indígena uruguaio. San Martín (que nada tem a ver com o libertador da Argentina), foi diplomata no Vaticano, e há uma curiosidade interessante nesta casa: uma autorização papal a rezar missa nela. Foi onde a filha dele se casou.

Museo Zorrilla de San Martín

Vá também ao Prado. O Jardim Botânico e Rosedal valem a pena, principalmente o urbanismo (muito verde) do entorno. Dali é interessante caminhar até o Museo Blanes, onde estão grandes símbolos nacionais, e atrás desse museu tem um fantástico Jardim Japonês.

Jardim Japonês de Montevideo. Foto Emilene Miossi

Alugando um carro é possível ir até Atlântida, cidade próxima a Montevideo, onde fica a Igreja Cristo Obrero, uma das mais interessantes obras em ladrilho estruturado de Eladio Dieste, que ao lado de Lorente Escudero, talvez seja um dos maiores nomes da arquitetura uruguaia.

Iglesia Cristo Obrero. Foto Emilene Miossi

Gastronomia

  • Mercado do Porto: sugiro o entrecôt do restaurante Don Tiburón com um vinho tannat, especialidade uruguaia. Um Bouza é uma ótima escolha. É possível sentar na lateral, com uma agradável vista da rua e sem a fumaça do mercado no ambiente. O preço é honesto, a comida é ótima e o atendimento não deixa a desejar.
  • Perto do Punta Carretas Shopping e do Museu Zorilla de San Martín há um excelente restaurante chamado La Perdiz. Reserve com antecedência porque costuma lotar. Calle Guipúzcoa, 350 esquina com Bolívar Balinas.

Leia também: Mendoza para arquitetos  /  Bogotá para arquitetos   /   Machu Picchu: Intipunku

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6 respostas para Montevideo para arquitetos

  1. DANI TREVIZAN disse:

    AMEI RICARDO ESTA ARQUITETURA PARABENS !!!!!!!!!!! SUCESSO ADOREI O SITE ……….BEIJOS DANI TREVIZAN

  2. Pingback: Mendoza para arquitetos | Ricardo Trevisan

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