Montevideo para arquitetos (2017)


Quando os portugueses mapearam a costa norte do Rio da Prata no século XVI, não havia muitos pontos de referência para se orientar. A topografia uruguaia é formada por uma infinidade de colinas e pontas eventuais. De vez em quando aparecia um monte, os quais nossos amigos lusitanos numeraram, de Leste (E) para Oeste (O). E assim, o sexto desses montes, localizado estrategicamente ao lado de uma baía propícia para a instalação de um porto protegido, aparecia nesses mapas como Monte VI de E-O. Daí a origem portuguesa da palavra Montevideo (“morro” em espanhol é cerro). Um forte foi construído no topo do morro, e na península do lado oposto foi construída uma cidade murada, chamada San Felipe.

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Vista do porto de Montevideo com o morro que deu nome à cidade ao fundo

Nos cinco séculos que se seguiram, Montevideo derrubou seus muros, transformou a cidadela que havia junto ao portal num mercado, e cresceu para leste e norte. Estamos falando de uma cidade fantástica, uma de minhas preferidas, e uma grande aula para arquitetos e urbanistas. A escala urbana reduzida, edifícios do colonial hispânico ao contemporâneo hispano-americano, com forte presença do Art Déco, a topografia suave de colinas e sua história singular fazem desta cidade um lugar extremamente interessante.

Primeiro olhar

O Uruguai impressiona logo na chegada, e deixa com inveja qualquer brasileiro com seu belo aeroporto moderno, adequado em sua escala à capital nacional: o aeroporto de Carrasco, localidade próxima a Montevideo.

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Quem chega a Montevideo vê a cidade na ordem contrária a seu desenvolvimento. A cidade surgiu com fins militares, durante a disputa ibérica pelo controle do acesso ao Rio da Prata, com uma ocupação da península da atual Ciudad Vieja, seu centro histórico. A singularidade uruguaia permeia toda a cultura nacional. Um dos países menos populosos do mundo, tem apenas 3,4 milhões de habitantes em todo seu território (menos que a Região Metropolitana de Recife). A capital Montevideo tem pouco mais de 1,3 milhões de habitantes (menos que o município de Porto Alegre).

A pequena população, concentrada na capital, não impede um desempenho econômico respeitável: seu PIB per capita nominal é de US$ 15.864 (dado do FMI, estimativa 2016), o que o coloca entre os 45 melhores do mundo (o do Brasil era US$ 11.387 em 2016, posição 64 no mundo). Entre 2007 e 2009, o Uruguai foi o único país das Américas que não entrou em recessão (2 trimestres seguidos de retração). E é a melhor qualidade de vida da América Latina quando medidos um conjunto de indicadores de desenvolvimento humano e econômico, como o índice Gini (desigualdade social), IDH, entre outros. Sua economia já foi tão robusta e resiliente que foi conhecido como a “Suíça da América” até 1933, ano em que a crise de 1929 foi sentida.

Como era de se esperar, as características socioeconômicas da nação estão gravadas em sua arquitetura e urbanismo. A forte presença de materiais importados da Europa, o Art Dèco e o urbanismo hipodâmico são alguns exemplos. O desenvolvimento urbano revela uma cultura próxima e, ao mesmo tempo, diferente da brasileira. Montevideo se expandiu para leste e norte, pelo continente, de forma que a distância do bairro ao centro histórico tem alguma correlação com a data de implantação do loteamento. A avenida beira-mar, a Rambla, foi inspirada na equivalente de Copacabana (Rio) no trecho formado por Punta Carretas, Pocitos e Buceo. Vale a pena um passeio de bicicleta ou mesmo a pé pelo calçadão da Rambla, a qualquer hora do dia.

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Palácio Taranco, Plaza Zabala

Próxima ao Parque Rodó, a Playa Ramírez é um parque urbano muito usado pelo montevideano. Sugiro que você atravesse o Parque Rodó, circule pela pequena vila que existe entre as ruas 21 de Setiembre, Bulevar Artigas e Bulevar España. Depois, atravesse a Bulevar España e faça uma visita à Faculdade de Arquitetura (Universidade da República). Seu pátio central tem um espelho d’água e, ao redor, alunos trabalham em pranchetas no terraço.

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Art Déco numa residência típica da cidade. Proximidades do Parque Batlle.

Já nesta avenida você verá gramados onde antes havia o muro da cidade, e edifícios implantados sem barreiras físicas, como o Hotel NH na Rambla Grã-Bretanha (um bom local para se hospedar, por sinal).

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Pocitos, esquina da General Rivera com Bulevar Artigas.

Para entender a cidade, sugiro que comece pela Plaza Zabala (única rotacionada em relação ao damero), e caminhe pela Rincón ou Sarandí até a Plaza Constitución, onde está o museu do Cabildo. Neste trajeto você vai entender o desenvolvimento primário da cidade. Os arquitetos uruguaios gostam de dizer que o crescimento da cidade pode ser entendido pelo caminho formado pelas praças Zabala, Constitución, Independência, Fabini, Cagancha (onde fica o marco zero da cidade). Cada uma corresponde a um período histórico.

Recomendo percorrer este trajeto entre praças a pé. Uma boa ideia é iniciar a caminhada com um almoço no Mercado do Porto (recomendo o restaurante El Palenque, que fica dentro do mercado). Na Plaza Zabala está o Museu de Artes Decorativas Placio Taranco, um palacete bem conservado que dá uma boa ideia do poderio econômico uruguaio de virada de século. O caminho é composto pela Peatonal Sarandí e pela Avenida 18 de Julio. Na Peatonal Sarandí não deixe de visitar os Museus Gurvitch e Torres Garcia. Na Rincón, 437, está o Museu Histórico Nacional Casa de Rivera, vale a pena fazer esse desvio.

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Mercado del Puerto, com a grelha típica da parrilla

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Mercado del Puerto

Esta também é uma região de pubs e do Teatro Solís (vale uma visita guiada e assistir a um espetáculo, se possível. Visitas às 3as 16h / 4as 11h, 12h, 16h / 5as 16h / 6as 11h, 12h, 16h / sábados 11h, 12h, 13h, 16h / domingos 11h, 12h, 16h).

Próximos à Plaza Constitución estão o Centro Cultural da Espanha (Rincón, 629), o impressionante Museo Andino sobre o acidente aéreo de 1972, a superação das adversidades e relatos dos sobreviventes (Rincón, 619), o qual recomendo muito, e o Museu Pedro Figari (Juan Carlos Gomez).

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Linardi y Risso, uma das mais tradicionais livrarias do Uruguai

Não deixe de visitar a Livraria Linardi y Risso (Juan Carlos Gomez, 1427), uma das mais antigas da América do Sul, com uma linda vista de seu teto em abobadilhas sem revestimento. Ótimo lugar para procurar por bons livros de arquitetura fora de catálogo.

O caminho está recheado de edifícios importantes para a arquitetura e a história política e econômica do país. Existem bons guias de arquitetura da cidade publicados pela Elarqa, seria legal consegui-los antes de iniciar a caminhada. Estes guias possuem mapas, plantas dos edifícios, um breve histórico de cada obra, nomes dos arquitetos e a importância da edificação para a cidade.

Não deixe de visitar o mausoléu a Artigas no subsolo da Plaza Independência (aberto em dias e horários comerciais). Esta é a praça com o famoso pórtico, remansecente da muralha da Cidadela (que virou mercado posteriormente). Daí vem o nome da calle Ciudadela. Na mesma praça está o famoso palácio Salvo, que já foi o edifício mais alto da América do Sul (visitação por R$25, aceita nossa moeda).

A Intendência Municipal de Montevideo (IMM) está no final deste trajeto, e visite o Museu que existe em seu subsolo (acesso pela Calle Ejido): contém uma respeitável coleção arqueológica, maquetes do coliseu romano, do Partenon grego, uma múmia egípcia (real), e material sobre a América pré-colombiana. Não se engane pela pequena entrada à direita do edifício. (das 12h30 às 17h30)

Ali perto, na esquina da San José com Aquiles R. Lanza, está o Mercado de la Abundáncia, com uma estrutura metálica do século XIX que vale a visita por si só. É possível almoçar uma ótima parrilla ali dentro.

Parques

Os parques de Montevideo são fantásticos por suas implantações e a relação de uso que estabelecem com o entorno.

Viste o Estádio Centenário e o Museu do Futebol (Parque Batlle), palco da primeira Copa do Mundo, organizada e financiada pelo poderio uruguaio em 1930. Observe com atenção a implantação do parque. Vale também uma caminhada pelo bairro, sugiro tomar a Av. Ingeniero Luis P. Ponce até a Bulevar Artigas, ou pegar a Av. Dr. Francisco Soca até Ellauri, Pocitos e a Rambla. Ambos são trajetos muito proveitosos para qualquer arquiteto atento à paisagem. O Golf Club de Punta Carretas pode ser visitado aos domingos. Na península que dá nome ao bairro há um farol que pode ser visitado durante o dia.

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Faculdade de Arquitetura, localizada no Bulevar Artigas

Se tiver algum tempo, estique até uma ruazinha chamada Zorilla de San Martín, e vá até uma casinha azul chamada Museo Zorilla de San Martín, casa deste ilustre escritor, equivalente a nosso José de Alencar (autor de Iracema, O Guarani, etc.), escreveu Tabaré, o mito indígena uruguaio (prenome do atual presidente, Tabaré Vasquez). San Martín (que nada tem a ver com o libertador da Argentina), foi diplomata no Vaticano, e há uma curiosidade interessante nesta casa: uma autorização papal a rezar missa nela. Foi onde a filha dele se casou.

Museo Zorrilla de San Martín

Museo Zorrilla de San Martín

Em Punta Carretas é interessante caminhar pelas ruas Luis de la Torre, Miñones, Lagunillas, Montero e Coronel Mora. Se seu interesse é uma bar interessante, recomendo a Avenida Luis Alberto de Herrera antes do Bulevar 26 de Marzo.

Vá também ao Prado. O Jardim Botânico e Parque Prado (onde está o Rosedal e o monumento aos Charrúas) valem a pena, principalmente o urbanismo e arquitetura hispânicas do entorno. Dali é interessante caminhar até o Museo Blanes, onde estão grandes símbolos nacionais, e atrás desse museu tem um fantástico Jardim Japonês.

Jardim Japonês de Montevideo

Jardim Japonês de Montevideo

 

Cercanias para ir de carro

Alugando um carro é possível ir até Atlântida, cidade próxima a Montevideo (pela Ruta que vai para Punta del Leste), onde fica a Igreja Cristo Obrero, uma das mais interessantes obras em tijolo (ladrillo) estruturado de Eladio Dieste, um dos maiores nomes da arquitetura uruguaia.

Iglesia Cristo Obrero

Iglesia Cristo Obrero

Com um pouco mais de tempo, é possível fazer um bate e volta no mesmo dia a Colônia do Sacramento (180km de distância) ou Punta de Leste. As estradas são muito bem conservadas e seguras. O pedágio costuma ser 80 pesos uruguaios (só aceita esta moeda), e o litro de gasolina é algo em torno de 30% a 40% mais caro que no Brasil. Dirija sempre com faróis acesos, uma novidade no Brasil mas regra antiga no Uruguai.

De carro também é muito interessante circular por Carrasco (bairro) e Punta Gorda, em especial pelas ruas residenciais. Recomendo as ruas Almirante Harwood, Lucerna, Av. Bolivia, San Marino, Mar Antártico e Mar Ártico.

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Bodega Bouza, ótimo local para almoçar. Tour pela vinícola com visita à coleção de carros antigos é altamente recomendada.

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Bodega Bouza, restaurante. Recomendo o menu degustação e o famoso carré de carneiro.

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Forte do cerro de Montevideo (permite visitar)

Gastronomia

  • Mercado do Porto: sugiro o restaurante El Palenque com um vinho tannat, especialidade uruguaia. O vinho da casa tem boa relação custo-benefício. Você pode se sentar ao balcão (barra) ou nas mesas, mas o menu é levemente diferente para entre ambos. É possível sentar na lateral, com uma agradável vista da rua e sem a fumaça do mercado no ar. O preço é honesto, a comida é ótima e o atendimento não deixa a desejar.
  • Perto do Punta Carretas Shopping e do Museu Zorilla de San Martín há um excelente restaurante chamado La Perdiz. Reserve com antecedência porque costuma lotar. Calle Guipúzcoa, 350 esquina com Bolívar Balinas.
  • La Corte é uma ótima opção de almoço na Praça Constitución (Sarandí, 586), tento pela comida quanto pelo teto de abobadilhas revestidas
  • No prédio do Teatro Solís está o Rara Avis, uma excelente escolha tanto para almoço quanto para jantar

Para almoçar (sugestões do Hotel Boutique Alma Histórica):

  • Sin Pretensiones – Sarandí, 366
  • Toledo – Cerrito, 499
  • Estrecho – Sarandí, 460
  • La Fonda – Sarandí, 368
  • Para lanches pela rua num momento de desespero: opte por lugares cheios (costumam ser melhores), opções no início do cardápio. Boas pedidas são chivito, parrilla ou pizza.

Para jantar (sugestões do Hotel Boutique Alma Histórica):

  • Jacinto – Sarandí e Alzáibar
  • Bartolomé – Bartolomé Mitre, 1332
  • La Fonda – Pérez Castellano, 1422 (perto do Mercado do Porto)
  • Rara Avis – Buenos Aires, 652 (Teatro Solís)
  • Foc – Ramón Fernández, 285
  • Francis – Luis de la Torre, 502 (esquina com Montero)
  • La Perdiz – Guipúzcoa, 350
  • Tandory – Libertad 2855 (esquina com Massini)
  • Novecento – Rambla Presidente Charles de Gaulle, Kibón
  • El Milongón (com show de música e baile)
  • Primuseum (com show de música)

Onde se hospedar

Recomendo ficar no centro histórico se você está visitando Montevideo pela primeira vez. Existem bons hotéis e novidades interessantes nessa região. Sugestão minha é o Alma Histórica Boutique Hotel, na Plaza Zabala (Solís, 1433), ou o NH Columbia (menos charmoso, mas bastante honesto, na Rambla Gran Bretaña, 473).

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Alma Histórica Boutique Hotel, Plaza Zabala

Leia também: Mendoza para arquitetos  /  Bogotá para arquitetos   /   Machu Picchu: Intipunku

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