Antes de visitar a cidade de Praga em 2025, fiz uma breve pesquisa para entender o significado daquela cidade e um contexto do que eu veria. Em especial, foi valioso o livro Europa Central, de Janaína Martins Cordeiro. Foi a melhor coisa que fiz, e recomendo muito a quem pretende visitar a Tchéquia, por vários motivos.
- Primeiro, para entender que Praga não é só mais uma capital que ficava do “lado de lá” da Cortina de Ferro: enquanto o Império Austro-Húngaro dava sinais de esgotamento, Praga se sobressaía como referência regional de um território circundante que se industrializava rapidamente. Isso contribuiu para um desenvolvimento socioeconômico relevante, e para iniciativas democratizantes emblemáticas para um extenso território.
- Segundo, para entender que isso não aconteceu da estaca zero, o antigo reino da Boêmia já tinha em legado relevante de partida, incluindo aí uma das universidades mais antigas do mundo (Carlova).
- Terceiro, para descobrir uma cidade antiga e imersa em uma rica cultura que não separa com precisão os mitos e lendas de fatos históricos fundacionais.
- Por fim, para entender que a cidade de Praga passou por várias transformações profundas ao longo do século 20: depois de começar o século sob o domínio da Áustria-Hungria, terminou a Primeira Guerra Mundial formando a Checoslováquia; esta resistiu como única democracia da Europa Central em 1933 até ser ocupada pela Alemanha nazista na Segunda Guerra; a maior parte do território foi libertada pelo Exército Vermelho em 1945, o que se somou à frustração com o Ocidente que não interviu e resultou na ascensão do comunismo em 1946; a desilusão com esse regime levou ao movimento de reforma da Primavera de Praga em 1968; a reação soviética que levou a nova ocupação que durou até a Revolução de Veludo em 1989; e a dissolução da Checoslováquia em 1993.
Entender esse contexto torna uma visita a Praga muito mais rica e interessante, inclusive porque há muito mais a ser descoberto nas ruas e prédios da cidade. E um olho treinado capta isso muito fácil, porque não faltam sinais e indícios evidentes pela cidade: elementos mitológicos ligados às histórias fundacionais, um amplo legado arquitetônico que passeia pelas referências do Sacro Império Romano, austro-húngaras, judaicas, soviéticas, contemporâneas, entre outras.
E isso tudo é só o primeiro olhar. Observando com mais atenção, é visível o tanto que os tchecos quiseram manter do Estado de bem-estar social e o quanto foi aberto para a iniciativa privada. Não se vê, por exemplo, anúncios publicitários de serviços de saúde privados. O transporte público da cidade (eleito algumas vezes o melhor do mundo) está fundamentalmente estruturado sobre trilhos, com forte presença de bondes (trams) por toda a cidade e com uma frequência de atendimento impressionante. Por outro lado, comércio e serviços urbanos ocorrem praticamente na mesma magnitude da Europa Ocidental, empresas de capital aberto não são novidade alguma, e o centro da cidade está inundado de turistas.
Tendências urbanas atuais também estão presentes, como obras de ampliação de transporte coletivo nas vias mediante subtração de espaço para carros, ampliação de superfícies permeáveis, abertura da cidade para os corpos hídricos, e assim por diante. Edifícios modernos e altamente tecnológicos se espalham pela cidade, existem experiências de renovação urbana com toda a cara de ocidente (talvez com menor gentrificação).

Obrigatório lembrar aqui a importância de Alfons Mucha para o movimento Art Nouveau e recomendar uma visita ao Mucha Museum (Panská 7, Praha 1). Nas artes checas, igualmente relevante é a representatividade de Franz Kafka para a literatura, o que se percebe por homenagens escultóricas pelas ruas e em seu próprio museu (Cihelná, 635, Malá Strana).
Também é válido estudar um pouco o papel das disputas religiosas na formação de Praga e do Estado Tcheco. E sobre isso, soma-se um impressionante acervo de registros históricos de longa data no desenvolvimento científico no interior do Klementinum (Mariánské nám. 5), principalmente na Biblioteca Barroca, na Torre Astronômica e na Capela dos Espelhos.
Também se faz necessária uma visita ao Bairro Judeu (Josefov), ao norte da Praça da Cidade Velha (onde está o Relógio Astronômico). A história do povo judeu se confunde com a da cidade, inclusive do mito do Golem, que teria sido criado nesse bairro por um rabino para proteger seu povo. Se você quiser ter uma experiência gastronômica única e inesquecível (e desembolsar uma quantia compatível por isso), completamente imersa numa sublimação da culinária tcheca, recomendo um almoço no La Degustation (Haštalská 18, Staré Město). Fica no mesmo Bairro Judeu.
Um impressionante acervo histórico nacional está abrigado em um não menos impactante edifício do Museu Nacional, ou Národní Muzeum (Václavské náměstí 68, Praha 1, Wenceslas Square). Se você quiser mergulhar a fundo nos mitos fundacionais tchecos, fica uma pequena dica: primeiro, compre o livro “77 Legends os Prague”, que você acha fácil pelo centro da cidade. Segundo, leia o último bloco de capítulos, que tratam das lendas fundacionais. Terceiro, visite Vyshehrad (V Pevnosti, Praha 2), dá para ir de metrô vou de bonde (tram).

Você gosta de livros? Então a visita obrigatória é ao Palácio dos Livros de Praga: Palac Knih Luxor, fica na Wenceslas Square. Um edifício inteiro de livros – e os tchecos sabem fazer livros muito bonitos – com ambientações muito interessantes, um café altamente recomendado. Não sabe ler em tcheco? Então vá ao subsolo, onde encontrará edições em língua estrangeira.
Quer uma experiência gastronômica medieval? Fuja dos caça-níqueis para turistas e vá ao Krcma (Kostecná, 925/4, Staré Mesto – Cidade Antiga), instalado em um discreto subsolo bem no centro. Preço justo, comida de primeira e bem tradicional tcheca. Não saia de Praga sem provar um goulash tradicional acompanhado de uma cerveja tcheca. Eles inventaram a cerveja Pilsen e são disparados o maior consumo per capita de cerveja do planeta, #ficaadica.
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