Da meta de porte dos escritórios de arquitetura [e]

Toda empresa tem por objetivo crescer e se consolidar como organização de grande porte no longo prazo.”

Você acha que essa afirmativa é verdadeira para os escritórios de arquitetura?

Esse foi um dos aspectos investigados na pesquisa que citamos anteriormente por aqui. Esclareço desde já que este não era o objetivo principal da investigação – chegamos a essa questão nos perguntando o quanto os escritórios se segmentam (ou não) em seus mais diversos aspectos. Também já falamos um pouco sobre isso. E, sinceramente, não havia nenhum indício de que os arquitetos empreendedores, de forma geral, se opusessem à máxima acima. Mas… será mesmo?

Pois bem, conversamos com diversos arquitetos titulares ao longo de mais de dois anos, seja de forma estruturada como entrevista formal, seja via bate-papo informal e livre troca de ideias. E topamos com algo muito corriqueiro em nosso campo, mas que pode não vir à nossa mente de imediato: as dissidências de profissionais ou grupos, sejam eles compostos ou não por antigos sócios do escritório de origem. Na vida cotidiana de nosso campo, os escritórios de maior visibilidade vivem perdendo pessoas (seu principal ativo) para novas organizações que, mais dia, menos dia, virá a ser um concorrente.

Repare que eu falei dos escritórios de maior visibilidade, que nem sempre são os maiores em termos de porte físico. Isso acontece por um motivo bastante natural: um objetivo recorrente das dissidências costuma ser o aproveitamento da reputação e da visibilidade do escritório de origem como fator crítico de sucesso (FCS) da nova marca que surge. Além disso, grande parte dos maiores e mais bem-sucedidos escritórios de arquitetura não está no grupo dos mais famosos. O star system promove o capital cultural, mas não necessariamente (para não dizer quase nunca) o capital econômico.

Fizemos um levantamento de mais de 400 escritórios de arquitetura localizados no território do município de São Paulo, e encontramos o esperado: a lei da potência. Muitos escritórios pequenos, alguns de médio porte e raros grandes. Usamos uma combinação de critérios (SEBRAE 2013 com a subdivisão utilizada pelo Censo CAU/BR de 2012) para que o leitor pudesse fazer o comparativo com esse último. Veja o que encontramos (esses dados já foram publicados anteriormente como artigo científico) [1]:

  • Microempresa I (<6 pessoas): 309 (76,7%)
  • Microempresa II (<11 pessoas): 48 (11,9%)
  • Empresa de Pequeno Porte I (<16 pessoas): 16 (4%)
  • Empresa de Pequeno Porte II (<20 pessoas): 8 (2%)
  • Empresa de Pequeno Porte III (<50 pessoas): 18 (4,5%)
  • Média empresa (<100 pessoas): 3 (0,7%)
  • Grande empresa (a partir de 100 pessoas): 1 (0,2%)

Há duas maneiras de olhar para esses dados. É possível ver aqui uma árdua batalha pelo crescimento físico numa estrutura em funil, com a dificuldade adicional das dissidências eventuais pelo caminho – e essa visão não deixa de ser verdadeira. Mas também é possível ver aqui – principalmente depois de conversar com alguns arquitetos titulares – que crescer fisicamente nem sempre é o objetivo principal. Muitos escritórios nas camadas intermediárias preferem se manter com o porte físico atual.

De fato, não parece haver nenhuma correlação entre idade do escritório e seu porte físico. Isso indica que, na prática, os escritórios de arquitetura não tendem a crescer com o passar dos anos.

Um dos motivos para isso é que muitos modelos de negócios de organizações de médio porte simplesmente não se sustentam em organizações maiores. E esse aspecto é ainda mais verdadeiro em campos de prestação de serviços intelectuais de alta exigência cognitiva.

Mais um motivo para o arquiteto empreendedor investir no desenvolvimento de seu modelo de negócios com muita clareza. Afinal, é desse processo de desenvolvimento interno que vem a construção do valor que será entregue ao cliente. E quanto mais valor entregue à sociedade, maior a remuneração do escritório, seja ela financeira, de externalidade social positiva (organizações sem fins lucrativos) ou mesmo de prazer pessoal dos arquitetos com o trabalho realizado.

Porém, o mais importante no longo prazo é que o modelo de negócios no porte correto para a organização, inclusive pelos motivos acima elencados, faz toda a diferença quanto à sobrevivência do escritório.

Escolher não crescer mais pode até ser um ato de grande lucidez em muitos casos.

Até a próxima!

[1] TREVISAN, Ricardo M.; BARROS, Gil G.; ONO, Rosaria. Segmentação na atuação das empresas de Arquitetura no município de São Paulo. Anais… Uberlândia: PPGAU/FAU/FAUeD/UFU, 2019.

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