Faixas exclusivas, sozinhas, não resolvem o problema


faixa exclusiva de ônibus

A prefeitura de São Paulo resolveu criar faixas exclusivas de ônibus por várias grandes avenidas da cidade, num esforço de tirar o paulistano do sufoco cada vez maior criado pela política automobilística do governo federal. Sim, porque o IPI dos automóveis foi reduzido, mas os trens, o metrô, os ônibus, as bicicletas e as solas de sapato não foram isentadas do tributo.

Acredito que hoje em dia ninguém em sã consciência seria contra medidas que priorizem o transporte coletivo ou limpo. Porém, da forma como tal ação está sendo conduzida, demonstra despreparo e pouco planejamento. E não está resolvendo. A faixa exclusiva de ônibus é um excelente instrumento de otimização de transporte urbano, desde que faça parte de um plano de mobilidade integrado e melhor planejado. Em outras palavras, é preciso dar ao motorista a oportunidade de entrar no ônibus.

A solução inteligente seria fazer, nas faixas exclusivas, sistemas rápidos de interligação entre terminais otimizados, onde o passageiro pudesse rapidamente passar para outro tronco de ônibus, trens ou metrô (terminais intermodais). Nessas faixas rápidas o ônibus funciona como um metrô de superfície, e você não precisa ficar esperando “a sua linha”, porque todas levarão ao próximo pólo de troca (hub). E você ficaria aguardando o ônibus depois de ter passado pela catraca (bloqueio), exatamente como no metrô. Isso não é sonho nem novidade, existe em Curitiba desde os anos 1970 e funciona muito bem em Bogotá, com o Transmilênio, citando apenas exemplos latinoamericanos. Há outros exemplos europeus bem sucedidos também. Chama-se BRT (Bus Rapid Transport).

BRT_Curitiba

BRT_Bogotá

Mas, por algum motivo qualquer, todo prefeito brasileiro tem grande apreço pelos empresários do setor. O de São Paulo, eleito em coligação com Paulo Maluf, prefere manter dezenas de linhas na mesma faixa, algumas ligando nada a lugar nenhum. Prefere que o bloqueio fique na porta, de forma que todo o sistema tem que ficar esperando o cidadão encontrar seu Bilhete Único no bolso para passar pela catraca dentro do ônibus, isso se o ônibus não estiver lotado, que é a regra (visite a Rebouças para ver isto pessoalmente). Prefere obrigar o cidadão a decorar uma linha identificada por 6 dígitos, como 707A-51 na Av. Vereador José Diniz só passa das 5 às 7 da manhã. Depois ela não existe mais. Vira abóbora.

Chamar um sistema desse de idiota chega a ser um elogio. São Paulo não tem mais espaço para erros em matéria de mobilidade, nem para incompetência em matéria de gestão pública. Mas ambos continuam se espremendo dentro da prefeitura. Até quando?

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Uma resposta para Faixas exclusivas, sozinhas, não resolvem o problema

  1. Luciano disse:

    ESCORREDOR DE BONZU, BICICROSE E OUTRAS NEUROSES

    Recentemente ganhei de presente uma faixa de ônibus, a da Avenida Jaguaré. Ainda estou tentando assimilar se fui afetado positivamente ou negativamente.
    Tenho carro, mas também uso ônibus. Minha experiência pessoal, da Avenida Jaguaré, é a de que não é possível adentrar nos ônibus. Uma questão de física mesmo. Dois corpos não ocupam o mesmo espaço.
    Eu percebi, com o passar dos anos, que o número de ônibus foram sendo cortados das linhas. Aliás, uma certa vez eu vinha do Centro na antiga linha do Continental absurdamente lotado quando, uma passageira irritada, questionou o cobrador sobre o excesso de passageiros. Resposta: “moça, isso aqui não é nada, eles cortaram os carros da linha. Aqui mesmo cortaram o número de carros pela metade”.
    A minha vivência do transporte coletivo da cidade de São Paulo conta essa história; do governo do Serra/Kassab até os dias de hoje ficou impossível entrar dentro dos ônibus. Antes era difícil, e depois se tornou impossível.
    A frequência também era um problema que, embora seja agravada pelos carros nos dias atuais, naquela época também foi impulsionada pela diminuição do número de ônibus das linhas, principalmente fora dos horários de pico. Já “cheguei ficar” 50 minutos esperando um ônibus na Barra Funda. Eu vinha de viagem e, penso, que Barra Funda, Jabaquara, Tietê, Congonhas e todos os terminais da cidade deveriam ter cobertura integral das suas linhas em todos os horários. Vale o custo.
    Daí veio a Linha Amarela do Metrô para a região. Um projeto mal executado. As integrações dessa linha são ridículas. São trajetos enormes. Eu costumo dizer que é êxodo, e não integração.
    A linha de trem da região então … diz a lenda dos governos Serra/Alckimin que eles iriam melhorar a estrutura; compraram trens novos, cortaram o número de vagões …. e parou aí, o projeto de melhoria não melhorou mais nada e os trens estão super lotados, além das integrações com os ônibus e metrô serem absurdas.
    Para quem está na Avenida Jaguaré, a saída mais rápida seria a estação de trem Villa Lobos. Diz a prefeitura que o nome da estação é Villa Lobos/Jaguaré, mas a verdade é que o Jaguaré é o primo pobre da estrutura. O acesso para quem vem de ônibus pela Ponte do Jaguaré para a estação (e para quem volta também) é absurdamente ridícula, pois a mesma fica atrás de uma alça de acesso para a Marginal Pinheiros, onde a pessoa precisa atravessar, pasme, duas vezes pela mesma via (espécie de rotatória saindo da ponte). A faixa de pedestre está apagada, não tem semáforo e a “mãozinha do Kassab” é contra indicada, pois quando o motorista vê o pedestre “ele já está em cima”. A passarela da estação é um enfeite bonito e inútil que leva fantasmas para o Parque Villa Lobos.
    O mais triste é que os ônibus que cobrem a região passam pela Ponte do Jaguaré (Vou explicar. Espera!). Quem conhece ali, sabe que esta ponte tem um corte no meio, um vão livre. Se você entrar na estação de trem Villa Lobos e andar até o fim da plataforma, vai observar que ela termina exatamente debaixo do vão dessa ponte. Seria barato, e já está pronto, abrir uma entrada para a estação pelo vão no meio da ponte e criar duas plataformas (uma para cada mão da via) para os ônibus, – fácil, fácil … mas, enfim … nada feito … – por isso, depois de um trajeto ridículo para chegar na estação de trem, se você pretender migrar para o Metrô na estação Pinheiros, é preciso fazer um êxodo de 15 minutos a pé, somados aos 15 que você já gastou passando por milhões de vias para migrar do ponto de ônibus até e estação Villa Lobos. Perdeu só aí, na andança, 30 minutos.
    Os ônibus, por sua vez, padecem de tudo. Uma lata de sardinha a 50 graus clama por ar condicionado e, pelos escândalos de dinheiro público desviado que pululam para todos os lados, não venha o governo dizer que não tem dinheiro para fazer. A suspensão também precisa de melhorias (deixar de ser “molejão”).
    Mas não só isso. É preciso que a ergonomia dos veículos vire um projeto público, não dá mais para dizer “áh, precisamos de 10 veículos para cadeirantes”, abrir uma licitação e comprar o mais barato. O governo tem que tomar a frente para dizer como este veículo tem que ser com engenharia de ponta. Os ônibus de piso baixo mesmo são uma porcaria. Imagine que ele só é baixo na parte da frente, e tem uma escada no meio para levar para os fundos. Isso porque, em um país onde o uso do cinto de segurança é obrigatório em carros, onde crianças não podem andar no banco da frente, e onde morder um bom bom com licor ferra o sujeito no bafômetro, o engenheiro resolveu, sabe-se lá com base no uso de que substância alucinógena que, a coisa mais segura do mundo é subir por uma escada dentro de um veículo em movimento. E não para aí. Estes ônibus conseguem a proeza de serem apertados, embora pareçam grandes. Com três pessoas em pé parece ter 30.

    Para completar o quadro de horror, esses benditos ônibus possuem um sistema hidráulico leeeeerdo para as cadeiras de roda. Resumindo. 15 minutos para subir e descer um cadeirante. O treco que menos deu certo neste planeta foram essas plataformas hidráulicas para cadeirantes que colocaram nos ônibus de São Paulo. Toda vez que presenciei um cadeirante subindo ou descendo, foi um absurdo de tempo. Mão é por um acaso que os motoristas, quando podem, simplesmente ignoram os cadeirantes nos pontos.
    E qual foi a melhor tecnologia para cadeirante entrar no ônibus que eu já vi? Pasme … um belo dia parou um ônibus velho, ia pegar um cadeirante, o motorista puxou então uma rampa manual instalada na porta e pã … bazinga ….rapidinho e eficiente … isso prova que biiteza não adianta. Tem que ser útil. Tem que funcionar. Não adianta colocar carro bonito que pareça “mó tecnologia”. Tem que ter tecnologia mesmo e não só baragandã hitec.. Não adianta esconder o problema em carro bonito, pois o problema só vai se dissipar mediante a prestação de um serviço eficiente.

    É preciso observar também o paradoxo que vivemos na mobilidade urbana da cidade. Quando afirmamos que foi dada preferência para um sistema de mobilidade baseado em carros, parece que os governantes planejaram isso. Erro grave. Erro rude.
    Os governos simplesmente ignoraram a mobilidade urbana.
    Pelos altos valores em impostos que pagamos para podermos comprar e usar veículos particulares, os governos não entregaram nem um terço do que poderia entregar em termos de estrutura viária. Estrutura essa que não atende só os carros, mas também os ônibus. Para ser ter uma ideia, monitoramos poucas vias públicas, não temos um número significativo de semáforos inteligentes … enfim … foi o ápice da inoperância, para dizer o mínimo.
    Quem tem menos poder aquisitivo vem sendo humilhado no transporte coletivo há décadas. Eu mesmo me senti mais do que atrasado e desconfortável dentro dos ônibus de São Paulo. Eu, um homem de 30 anos, cheguei ao ponto de entrar em minha casa, sentar no chão da cozinha e chorar de raiva … não, eu não merecia passar por tanta humilhação … comprei um carro.
    Quando milhões de pobres pessoas como eu, ao encontrar a primeira brecha, comprou um carro, a cidade parou. Rapidamente, o problema de mobilidade, que pesava mais para os pobres que usavam o transporte coletivo, passou a ser um problema de todos. Paradoxalmente, o acesso aos carros pelos mais pobres é o que popularizou a questão da mobilidade urbana para todas as camadas sociais. E não tem mais como retroceder. Nem que seja com carro de 30 anos enferrujado, as pessoas só vão usar o coletivo se eles cumprirem um mínimo em termos de serviços, como por exemplo, ter espaço para entrar dentro, que é o mínimo do mínimo e inegociável. Dois corpos não ocupam o mesmo espaço.
    Por causa dessa ignorância histórica do poder público é que devemos “estar vacinados”. Temos que tomar cuidado para que as políticas de mobilidade urbana sejam projetos bem elaborados, e não medidas de marketing político. E esta é uma das fragilidades das “faixas exclusivas para ônibus”. São rápidas, baratas mas, não são corredores. Em uma avenida como a Jaguaré por exemplo, há um canteiro central largo, ou seja, o corredor está pronto. Ainda assim a prefeitura pegou o caminho mais fácil e traçou uma linha pela direita, fechando inclusive a entrada de condomínios que há mais de 30 anos estão ali. Também não li nem ouvi nada até agora sobre estarem avaliando as linhas de ônibus da região. Isso parece-me ideia de um marketeiro destrambelhado. Se a prefeitura continuar expandindo as faixas dessa maneira isso vai virar uma baita confusão. Mesmo assim, prefiro lutar para que as linhas de ônibus sejam remodeladas do que para a retirada das faixas. Mesmo traumatizado com o transporte coletivo eu sei que, não vai rolar ficar todo mundo andando de carro.
    Mas, para que eu faça uso dos ônibus que passam pela minha casa, eles precisam passar (ter frequência) e ter espaço para eu entrar. A prefeitura parece estar focando apenas na frequência e ignorando uma lei inviolável da física; “dois corpos não ocupam o mesmo espaço”. O atual governo municipal parece desconhecer a história recente do transporte coletivo de São Paulo e a origem para o excesso de carros circulando pela Capital, como se milhões e milhões de pessoas quisessem de fato perder 30% da sua renda para poder chegar de carro no seu trabalho porque o salário é bom e o dinheiro está sobrando.
    Problemas com excesso de carros nas ruas incomodam metrópoles pelo mundo inteiro. Mas acreditar que este excesso de carros é fruto de uma mesma árvore é o mesmo que acreditar que toda criança vem trazida por uma cegonha. E é por isso que, enquanto a prefeitura não tratar o problema que gerou o excesso de carros pela raiz de verdade, a cidade vai continuar entupida e a mobilidade urbana vai continuar atormentando a todos.
    Outra alternativa para integrar a mobilidade urbana que está tomando o caminho do marketing político são as Bicicletas. É fato que os carros precisam se acostumar com as “magrelas” e, para isso, faixas improvisadas durante os finais de semana como a da Paulista são políticas importantes …. mas quanto tempo a prefeitura acha que vai enrolar com o programa de sociabilização carroXbicicleta? O fato é que a bicicleta deve se tornar um modal para a mobilidade urbana, mas o que a prefeitura está fazendo é criar espaços de lazer para as pessoas “brincarem” de bicicleta durante os finais de semana. É no mínimo uma hipocrisia a pessoa usar carro a semana inteira e dizer que é “ciclista” porque passeia na ciclofaixa nos finais de semana. É hipocrisia a pessoa ficar a semana inteira pesquisando que ciclofaixa vai experimentar, acordar cedo no domingo, colocar a sua bike no suporte de carro e ir pro espaço de passeio escolhido.

    Tirar o espaço dos carros – sim. Mas a política para as bicicletas não deve se limitar a criar áreas de lazer para “bikers”. Temos que poder pegar a bicicleta e ir até o shopping assistir um filme e depois voltar para casa. Isso é mobilidade urbana. Política para bicicletas mesmo é criar uma via definitiva para elas na Paulista. Um espaço onde as pessoas possam se locomover para os mais diversos compromissos todos os dias, e não uma interdição para passeio nos finais de semana.
    O mesmo ocorre com as interdições das ruas para corridas. Vou dar um exemplo.
    No final de semana que antecedeu a inauguração da faixa da Jaguaré eles interditaram a ponte do Jaguaré para uma corrida. Na faixa da prefeitura dizia – “use a ponte Cidade Universitária” … quem conhece a região sabe que as duas pontes não ficam tão perto assim. Dependendo do compromisso, o melhor mesmo seria cancelar. Mas até aí, acuar os carros, eu não posso questionar, o problema é que pela ponte circulam várias linhas de ônibus que demoram horrores para passar nos finais de semana. Há uma baixa frequência de ônibus gerada por poucos coletivos atendendo às linhas, como o Barra Funda que mencionei acima por exemplo, e não por excesso de carros nas ruas … pelo que observei (posso ter me equivocado) eles sequer se preocuparam em deixar uma faixa para os ônibus passarem pela ponte … resumindo, eles inviabilizaram que pessoas de bairros periféricos da região fossem de ônibus para o evento. Na verdade, o entorno desses eventos costuma ficar cheio de carros. O sujeito vai de carro defender que os outros andem de ônibus. Num ônibus segregador que sequer passa ali.

    Dessa maneira a prefeitura está mesmo incentivando as pessoas a andarem de ônibus como?
    Nosso atual prefeito Hadadd, assim como o anterior Serra/Kassab, está aduzido pela mentalidade de uma minoria burguesa que quer porque quer transformar São Paulo em um canto qualquer da Europa. Eles querem porque querem reproduzir em São Paulo o que eles viveram em uma viagem que fizeram lá por sei onde … essa burguesia quer um parque de diversões para eles viverem seus sonhos e acabam apoiando políticas públicas plásticas e ordinárias. São visualmente bonitas e só. Eles querem ir de carro para as suas empresas durante a semana e passear de bicicleta na frente de casa aos domingos mas, se a sua empregada atrasar 05 minutos para chegar no trabalho porque decidiu apoiar a prefeitura e foi trabalhar de bicicleta … aí não pode, desconta do salário.
    Hipocrisia, marketing político, segregação social e corrupção. As vias por onde elas transitam precisam ser interditadas para que por elas passeie o bom senso.

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