Por que incinerar lixo não é a solução [C40]

Muitos municípios estão sendo inundados de propostas “milagrosas” de solução para o problema dos resíduos sólidos por meio de incineração. A ideia de resolver o problema e produzir energia barata parece promissora aos líderes municipais. Muitas vezes, as cidades gastam muito dinheiro investigando a viabilidade desses projetos e nunca avança devido às limitações dessas tecnologias e aos impactos com relação aos requisitos de combustível, custos operacionais, qualidade do ar e outras questões descritas em um artigo recente da C40.

A incineração de resíduos sólidos costuma ser apresentada como uma solução rápida e, ao mesmo tempo, produzir energia. A ideia é comercializada como limpa e lucrativa, mas isso não corresponde à realidade. A incineração está, na verdade, entre as piores abordagens que as cidades podem adotar para atingir as metas de redução de resíduos e de geração de energia. Sua infraestrutura fixa instalada (investimentos em CAPEX) é cara para construir e continua sendo cara na fase de operação (investimentos em OPEX). É ineficiente e gera elevados riscos ambientais.

A rota tecnológica da incineração prende as cidades a caminhos com alto teor de carbono, pois incentiva a continuar produzindo muitos resíduos para alimentar o incinerador, enfraquecendo as iniciativas de redução de geração de resíduos ou de aumento das taxas de reciclagem. No mundo todo há uma crescente oposição pública à incineração, que está sendo cada vez mais entendida como tão inadequada quanto o aterro sanitário à medida em que aumenta a conscientização sobre seus impactos ambientais e climáticos. Investimentos em infraestrutura de incineração tendem a se tornar “ativos irrecuperáveis”, à medida que as estratégias bem-sucedidas de redução de resíduos se consolidam e a oposição à incineração cresce. Estes argumentos também se aplicam a outros processos que utilizam o calor para eliminar os resíduos – como a pirólise, que utiliza o calor para decompor a biomassa.

Existem outras formas mais adequadas de geração de energia a partir do tratamento de resíduos. Honroso exemplo é a a digestão anaeróbia, um tratamento neutro em carbono para resíduos orgânicos (principalmente resíduos de alimentos) que produzem biogás e outros produtos valiosos. A captura de gás de aterro também é uma fonte de biogás, mas é menos eficiente e mais prejudicial ao meio ambiente do que a digestão anaeróbia.

A produção de energia a partir da incineração de resíduos sólidos é altamente ineficiente
para o caso brasileiro também por não haver por aqui uma boa segregação de resíduos na fonte, nossos fluxos de resíduos incluem grandes quantidades de resíduos alimentares, compostos por cerca de 70% de água. Com isso, requerem uma energia considerável para serem queimados. O ganho de energia por este caminho é muito menos eficiente quando comparado a outras fontes renováveis como eólica, solar, hidrelétrica ou geotérmica. [1] Este contexto exige adição de combustível adicional aos resíduos para permitir o processo de queima, aumentando os custos e reduzindo ainda mais eficiência da incineração de resíduos municipais.

Com isso, as instalações de incineração não recuperam o investimento baseado apenas na renda energética. A principal receita que sustenta estas instalações normalmente não é a venda de calor e energia, mas as taxas, impostos e tarifas cobradas dos usuários. A incineração é uma forma muito cara de produzir energia e lidar com o lixo urbano, o que torna esta rota tecnológica ainda mais desafiadora em termos de viabilidade econômico-financeira.

A queima de resíduos para recuperação de energia custa quase quatro vezes mais do que a energia solar e a energia eólica em terra, e duas vezes mais do que o gás fóssil, conforme mostrado na figura abaixo.

Custos ineficientes de incineração de resíduos sólidos

Para ser minimamente viável enquanto solução para as cidades, a incineração de resíduos depende, obrigatoriamente, de:

  • Segregação rigorosa e forçada na fonte;
  • Taxas, impostos e/ou tarifas relativamente altas em relação a outras soluções;
  • Extrema escassez de terra, tornando a disposição da terrenos extremamente cara;
  • Alta demanda por calor e energia.

Mesmo assim, ainda que estas condições sejam cumpridas, os custos de reciclagem e da redução de geração de resíduos são significativamente inferiores aos custos da incineração. As cidades que satisfazem estas condições estão cada vez mais desativando os incineradores por todo o mundo. A escala de investimento necessária exige elevado financiamento público para conseguir obter, depois, o investimento privado. As cidades que optam pela incineração pagam por essas instalações durante décadas, prendendo-as em um futuro de manutenção da incineração de resíduos, mesmo onde a opinião pública já é contrária a esta solução. A despesa operacional mais cara é o controle ambiental necessário para mitigar a poluição do ar, que precisa ser progressivamente atualizada à medida que os regulamentos se tornam mais rígidos.

Além disso, esses sistemas são complexos e exigem uma equipe altamente qualificada para garantir o desempenho técnico e ambiental ideal e a manutenção regular.  Com isso, a incineração tem a maior despesa operacional de todas as opções de gerenciamento de resíduos em todos os países avaliados pela C40.

Despesas operacionais gerenciamento de resíduos sólidos

As instalações de incineração não recuperam o investimento com base apenas no rendimento energético. [1] E a incineração de resíduos cria poluição atmosférica e requer fortes controles ambientais. Quando os resíduos são queimados, produzem poluentes atmosféricos perigosos, incluindo partículas em suspensão (PM2.5 e PM10), monóxido de carbono, gases ácidos, óxidos de nitrogênio e cancerígenos (dioxinas). [1] A maior fonte dessas emissões é a incineração de materiais à base de combustíveis fósseis, como plásticos e borracha. Quando os operadores das instalações de incineração têm dificuldades financeiras ou para obter os retornos esperados, geralmente tentam reduzir ou desativar esses controles ambientais, colocando a população próxima em alto risco. A incineração também pode causar poluição da água, odor, ruído e vibrações, que afetam os vizinhos residenciais e comerciais. Além disso, produz resíduos perigosos associados a cinzas volantes e cinzas de fundo, que exigem manuseio e descarte cuidadoso.

A energia produzida a partir de resíduos NÃO é limpa ou renovável, porque as emissões de CO2 de uma instalação de incineração de resíduos são aproximadamente equivalentes a uma usina elétrica alimentada a gás natural, com algumas estimativas apontando para emissões similares às da geração de energia alimentada a carvão. O mito de que o lixo é uma fonte de energia renovável vem do fato de que os fluxos de resíduos têm, historicamente, aumentado e, portanto, são constantemente reabastecidos – ou “renováveis” – mas essa é uma premissa falsa. Em vez disso, as cidades deveriam se concentrar na redução de resíduos.

Os empregos na incineração de resíduos também não são “verdes”, uma vez que a incineração não é uma forma sustentável de gerenciamento de resíduos nem uma fonte de energia limpa. Uma opção muito mais interessante às cidades seria investir em treinamento e oportunidades de emprego que ajudassem os trabalhadores a participar do gerenciamento sustentável de resíduos e de uma transição energética justa. Por exemplo, concentrar-se no envolvimento de trabalhadores informais em uma transição para a coleta e o tratamento sustentáveis de resíduos orgânicos e recicláveis e na criação de empregos equitativos e inclusivos no setor de energia renovável.

[1] Vide o artigo original da C40.

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Cidades sustentáveis cidades inteligentes

 

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