Eles são mais comuns do que muita gente imagina, e é muito provável que você esteja lidando com pelo menos um deles agora mesmo. Um “problema selvagem” (que não é exatamente a melhor tradução do original wicked problem) é aquele que não se apresenta por completo quando você precisa já dar uma resposta, uma primeira proposta de solução. A cada tentativa de solução, o problema se desenha um pouco melhor, e assim sucessivamente, até chegar a um nível satisfatório de aderência (ou ao fim de recursos e de tempo).
Qualquer atividade laboral que lida com grandes indefinições também lida, por consequência, com problemas selvagens. E quando lidamos com este tipo de desafio, não conseguimos planejar de forma linear o o processo de desenvolvimento de uma solução. Se faz necessário entender que obrigatoriamente estabelecemos uma espécie de diálogo com o problema. Portanto, o planejamento deste tipo de trabalho demanda outro prisma de observação – o qual Barros e Sakurai (2016) chamaram de enfoque reflexivo em oposição ao tradicional enfoque racional. [1]
Um dos primeiros pesquisadores a identificar o problema, Kees Dorst (1997) identificou os dois enfoques complementares que descrevem o projeto como:
- Um processo racional de resolução de problemas (enfoque racional), ou;
- Um processo de reflexão-em-ação (enfoque reflexivo).
O enfoque racional, originado nas teorias positivistas dos anos 1960, tenta encaixar o processo de desenvolvimento de um projeto dentro do quadro lógico-positivista das ciências de meados do século 20. Em outras palavras, o processo de projeto era visto como algo “racionalizável”, e a busca da época era por uma observação “objetiva” e o direto relacionamento com modelos lineares de desenvolvimento. Ou seja, o processo era compreendido como uma soma de três etapas sequenciais de desenvolvimento: análise, síntese e avaliação. A análise busca definir o problema e levantar seus requisitos; a síntese elabora uma solução para o problema, cujos resultados são posteriormente avaliados pelo projetista.
Posteriormente, ficou constatado (em especial por Dorst e Dijkuis, 1995) que este entendimento só funciona em situações onde os problemas são razoavelmente bem definidos, e é possível identificar uma estratégia clara de ação para resolvê-los. Para os demais casos, ficou claro que seria necessária outra abordagem.
A melhor alternativa surgiu de uma abordagem construtivista, a qual buscou uma “epistemologia da prática implícita nos processos […] intuitivos que alguns profissionais trazem para situações de incerteza, instabilidade, singularidade e conflitos de valores.” Em outras palavras, quando os problemas não estão bem definidos de início, o processo é incerto, instável, singular, volátil ou ambíguo, o profissional passa a estabelecer uma conversa reflexiva com a situação. Além disso, a primeira proposta de solução dificilmente será a solução final adotada, principalmente porque existe a necessidade de um processo ativo de enquadramento do problema. Neste processo, o profissional precisa fazer movimentos, jogadas e observam o processo em etapas sucessivas de aproximação, até que seja possível desenvolver uma solução (Schön, 1983).
Neste contexto de indefinições, muito mais comum em situações de desenvolvimento de projetos, o profissional precisa elaborar propostas de solução simultaneamente à construção de estratégias de abordagens e enquadramento do problema (Dorst, 2020). Mas isso não significa que o enfoque racional caia totalmente por terra, pois a sequência linear ainda se mantém como referencial para cada uma das pequenas iterações sucessivas da conversa reflexiva e das jogadas necessárias para se vencer um problema dessa natureza. Os dois enfoques são, ao mesmo tempo, opostos e complementares (Barros e Sakurai, 2016) [1].
Este processo de trabalho pode parecer interminável e impossível de ser monitorado em função da contínua retroalimentação do processo, mas esses estudos apenas registram uma forma de trabalho corriqueira e existente há muito tempo. Nas palavras dos autores do artigo citado aqui [1], “um dos grandes méritos dos estudos em pesquisa projetual a partir de meados da década de 80 foi evidenciar esta forma de trabalho e, respeitando sua diversidade, procurar padrões e procedimentos comuns.”
[1] BARROS, Gil; SAKURAI, Tatiana. Os enfoques racional e reflexivo e sua relação com a gestão de projeto de arquitetura. In: Encontro Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído, 16., 2016, São Paulo. Anais… Porto Alegre: ANTAC, 2016.
Saiba mais:


Você é o mesmo que divulgou o livro Arquitetura Na Itália 1500-1600 Wolfang Lotz pelo ML. Se sim, meu contato é radamesdesousa@hotmail.com ou 83987523175 para a gente negociar o livro. Aguardo o retorno.
CurtirCurtir
Bom dia, Radamés
Sim, sou eu mesmo. Vou entrar em contato contigo pelo e-mail.
Atenciosamente,
Ricardo
CurtirCurtir