Enchentes em São Paulo: resumo do seminário do Instituto de Engenharia


por Ricardo Trevisan
O Instituto de Engenharia promoveu o seminário sobre enchentes na Região Metropolitana no dia 10 de novembro de 2009, cujas anotações pessoais tomadas durante a exposição dos palestrantes são apresentadas abaixo.
9:00-9:45. Mesa de abertura: Aluízio de Barros Fagundes, presidente do IE. Marcelo Cardinale Branco, secretário municipal de infraestrutura e obras de São Paulo. Ronaldo Souza Camargo, secretário municipal das subprefeituras de São Paulo. Ubirajara Tannuri Felix, superintendente do Departamento de Águas e Energia Elétrica – DAEE.
9:50-10:00. Depoimento de Luiz Carlos de Faria – Gestor Comercial e Corporativo do Expresso Mirassol.
A sede (própria) era na Marginal Tietê. Mudaram para Guarulhos. O prejuízo por enchentes virou tema comum. Na última enchente, a frota ficou ilhada, todas as artérias viárias paralisaram. Compromissos de horários não cumpridos provocaram onda de prejuízos indiretos enorme pela não prestação dos serviços de Just-in-Time. As cadeias produtivas foram interrompidas, provocando um “prejuízo invisível” que nunca é calculado, para toda a cidade. O custo fixo de um caminhão da Mirassol é de R$1.000 por dia. Naquele dia, 300 caminhões ficaram parados. Em cada indústria que não foi atendida, o prejuízo foi de aproximadamente R$1 milhão. As prefeituras do Sul do país e do estado do Espírito Santo estão trabalhando em conjunto com as transportadoras para evitar este quadro. Querem melhorar a situação em SP também.
10:00-10:30. Eng. Julio Cerqueira César Neto. Piscinões, um mal necessário.
Enfatizou o problema de uso e ocupação do solo, uma deficiência estrutural crônica. A principal deficiência da engenharia é que os projetos urbanos estão sendo tratados como projetos hidráulicos. Três áreas de enchentes:
1. de macrodrenagem (Tietê, Pinheiros, Tamanduateí);
2. afluentes de macrodrenagem (velocidades altas, grande elevação de nível, deslizamentos – principal problema das prefeituras);
3. canal do Tietê a montante da Penha
Em 1996, a chuva de intensidade da T100 já havia caído para o período de recorrência da T50, decorrente da intensa urbanização na RMSP. Solução da época: “vazões de restrição”, ou seja, conter urbanização, maior tempo de concentração e construir piscinões (hoje o DAEE pretende construir mais 91 piscinões).
Tamanduateí: Capacidade atual = 480m³/s, mas a capacidade de projeto era 730m³/s. A redução é devida ao assoreamento.
Os piscinões resolvem um problema, mas criam outros (custos operacionais / manutenção e esgoto misto). Alto Tietê: única área em que ainda é possível conter o processo de urbanização e aumentar o tempo de concentração.
10:30-11:00. Custos de uma enchente na RMSP. Prof. Dr. Denisard Alves, FEA-USP. Apresentou estudo da FIPE de 1988, calculando Taxa de Retorno Social. Fazia projeção de taxa de urbanização, população, número de veículos na Marginal, entre outros. Fazia uma análise pela TIR do benefício do rebaixamento.
Vazão do Tietê em 1894: 174m³/s. Em 2000, já era mais de 1000m³/s. Nas grandes cheias dos anos 80, foi medido mais de 1200m³/s.
Parâmetros de considerações da análise: Custos = rebaixamento da calha e manutenção da calha do Tietê. Benefícios (melhorias dos índices de) = Deterioração dos imóveis (diferença de aluguel de imóvel sujeito ou não a inundações) + Comércio e Indústria (perda de estoques, paralisação da produção, etc.) + Custo operacional do tráfego (velocidade média com e sem inundação) + Tempo perdido no congestionamento (salários das pessoas paradas no congestionamento) + Custo por veículo (na época eram 330.000 veículos/dia, hoje são 700.000 veículos/dia).
Resultados: para recorrência de inundações de 10 anos, a TIR era baixa e VPL negativo. Não valeria a pena. Mas para recorrência de 5 anos, 3 dias de inundações nesse período já viabilizaria o projeto. Para a recorrência de inundações de 2 anos, o resultado já era muito bom! (Anotação minha: recentemente, as inundações têm acontecido todos os anos). E mais: vários benefícios não foram incluídos, como perdas de voos, redução de doenças, colisões, etc.
11:00-11:30. Mudanças exigem modernização dos suportes tecnológicos usados contra enchentes. Prof. Dr. Augusto José Pereira Filho, Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP.
Grande impacto da urbanização nas chuvas de verão (crescimento da mancha urbana). Clima hoje: mais quente, menos úmido, mais tempestades, menos garoas, mais poluição. A garoa da brisa marítima não chega mais à Zona Norte da cidade. Em fevereiro de 2004, choveu 100mm em 2 horas. Em 8 de setembro de 2009, choveu 100mm. Impactos sociais são muito significativos. Grande incidência de tempestades na Zona Sul e Leste (inclui o ABC). Maior quantidade de chuvas devido ao aquecimento (“animação”). Sobra menos chuva para os reservatórios (impacto negativo). Média RMSP de 17 enchentes por ano. Causas: menos vegetação, muito mais urbanização, mais poluição e mudanças globais. Temperatura do ar 2,1ºC mais quente. Mais 400mm de chuvas por ano. Prejuízo estimado em US$1 bilhão por ano. E é um círculo vicioso que se realimenta.
O IAG e meteorologistas: monitoram, preveem, alertam, entendem e informam. Objetivo: redução de riscos. Informações disponibilizadas pelo site LabHidro (http://www.labhidro.iag.usp.br). Esse grupo quer ser mais integrado com a gestão de riscos. Cada prefeitura deveria ter seu próprioo Centro de Gerenciamento de Riscos (CGR). A previsão hidrológica do Baixo Tamanduateí será feita com uma Rede Neural a ser implantada. Hoje a antecipação da retenção de brisa marítima é feita pela triangulação de três bases em Barueri, Praia Grande e Mogi das Cruzes. O Laboratório tem informações com antecedência, cabe aos Governos buscar essas informações.
14:00-14:30. Eng. Ubirajara Tannuri Felix, superintendente DAEE. Situação atual da calha do Tietê. (foi apresentada por Maximiliano, do DAEE). Mostrou histórico de inundações da área. Estão sendo feitas escavações para aprofundamento em 2,5 a 3m. Vazão máxima de projeto é de 1400m³/s. Também em projeto: isolamento do sistema hídrico do Pinheiros, controle das condições de urbanização a montante da Penha e monitoramento da contribuição de outros rios (Tamanduateí – 484m³/s –, Aricanduva e Cabuçu de Cima). Mostrou também a intensa obra de limpeza de piscinões. Falou do Parque Várzeas do Tietê, que reassentará 5.000 famílias, e dado da CET que mostra já 1.000.000 veículos/dia na Marginal.
14:30-15:00. Situação atual dos canais e elevatórias do Rio Pinheiros. EMAE. Paulo Sérgio da Silva.
A EMAE é a antiga Eletropaulo, divisão de Geração de Energia. A declividade do Rio Pinheiros é considerada zero (o volume é todo bombeado). O desassoreamento usa modelo matemático para identificar a perda de carga. Manutenção das margens constante. Na cheia de 8/set uma das bombas de Traição estava em manutenção, por isso houve invasão da Marginal Pinheiros.
15:00-15:30. Erosão e assoreamento na RMSP. Geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos. Obras caras anuladas pelo assoreamento dos rios Tietê e Pinheiros.
O assoreamento é um problema muito grave. E se fosse eliminado, equivaleria às obras caríssimas em curso (muitas baseadas em estudos dos anos 80). Olhar geológico sobre os rios: eram meandrantes, significa que havia dificuldade de escoamento. Os piscinões devem ser a última opção. É necessário planejamento do crescimento urbano com articulação metropolitana. Análise do material no fundo dos rios (em peso): erosão de terrenos pela chuva + entulho e restos de obras equivalem a 95% do assoreamento. O lixo representa apenas 5%. Até os anos 1950, a mancha urbana estava sobre terreno bom para construção, não assoreava tanto. Depois dessa época, passou a ocupar áreas periféricas cujo terreno é mais sensível, e provoca mais assoreamento dos corpos d’água. O assoreamento dos Rios Tietê e Pinheiros equivalem aproximadamente a 3.250.000m³/ano. A maior colaboração vem de loteamentos (sejam legais ou não). Os solos superficiais são muito mais resistentes à erosão que os profundos (aprox. 2m). Quanto mais movimento de terra, mais exposição. Os resíduos de dragagem e de assoreamento são altamente nocivos à saúde (contaminados).
Proposta: o Estatuto da Cidade obrigar o Plano Diretor a se basear em carta geológica. O entulho de prédios novos representa 20% do assoreamento, e o de reformas, ampliações e demolições, 60%.
Proposta: bosques florestados absorvem até 80% do pico da tempestade.
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Uma resposta para Enchentes em São Paulo: resumo do seminário do Instituto de Engenharia

  1. ricardotrevisan disse:

    Comentário do arquiteto Luiz Carlos Rodrigues:

    Legal

    Mas o que falta efetivamente são ações concretas do Governo do Estado e Municípios.

    A exemplo do seu comentário, que na tentativa de se parametrizar as perdas e “taxa de retorno”, faltou a quantificação de valor para remoção de famílias em áreas que são críticas (várzeas do rio que antes contribuíam naturalmente para diminuição da velocidade da água em época de cheia) e que possivelmente continuariam atuar nesse controle.

    O repasse de verba do Fundo de Participação dos Municípios poderia ser canalizado para os programas habitacionais sérios e destinados à essas pessoas objeto de remoção.

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