Técnicas retrospectivas de Leonardo Benevolo

Leonardo Benevolo é mais conhecido por seus grandes (em todos os sentidos) trabalhos historiográficos. Mas um dos mais influentes no ambiente de projeto do espaço construído é uma enxuta coletânea de artigos independentes, publicada no Brasil sob título A cidade e o arquiteto.

Apesar da publicação nacional datar de 2014, a maioria dos textos foi originalmente redigida nas décadas de 1970 e 1980, o que exige algum filtro crítico do leitor. Ainda assim, vale reproduzir aqui um dos trechos que mais influenciou aquilo que hoje se conhece como técnicas retrospectivas:

  1. O patrimônio construído a ser preservado não é um conjunto de artefatos homogêneos e independentes entre si, mas um sistema de artefatos heterogêneos ligados entre si. Conformam o ambiente de épocas passadas, com o qual perdemos o contato espontâneo habitual.
  2. Este sistema de artefatos será tanto mais precioso quanto mais for vivenciado cotidianamente pelas pessoas e coletividades de hoje. Isso inclui objetos isolados que perderam o seu uso originário, ainda que sejam vivenciados apenas em museus ou nos monumentos urbanos.
  3. O repertório de métodos para a conservação moderna abrange uma gama de diferentes formas de intervenção, as quais devem ser avaliadas com a abordagem empírica da arquitetura moderna:
    • Reconstituição [1]: objetivo de consolidar um artefato, garantir sua duração, tolher alterações inadmissíveis, subtraí-lo à injúria do tempo, subordinando a este objetivo ou eliminando todo o uso moderno.
    • Restauração: obras de consolidação do artefato e eliminação de modificações incompatíveis. A diferença aqui é que são introduzidas modificações compatíveis com sua estrutura imaginária, de forma a proporcionar um uso moderno igual ou análogo ao antigo.
    • Reestruturação: obras de transformação do artefato, conservando algumas partes, substituir ou acrescentar outras de forma a permitir maior variedade de usos modernos, ainda que não correspondam aos antigos.
    • Reconstrução: quando o original foi destruído e se deseja a substituição por uma réplica, seja individual ou correspondente a um conjunto.

Todas essas operações se enquadram na categoria de manutenção, ou seja, o cuidado cotidiano da humanidade com o seu ambiente de vida.

[1] A tradução brasileira da Editora Perspectiva preferiu usar o italianismo repristinamento. Eliminei aqui por considerar desnecessário, a riqueza da língua portuguesa me parece cobrir o sentido correto com suficiência.

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