Como projetar uma adega residencial: dicas

O consumo e a apreciação de vinho pelos brasileiros cresceu muito nas últimas décadas. Com a mudança do costume, veio também a valorização dos espaços de guarda nas residências. A exibição de espaços bonitos e sofisticados em mídias e redes sociais transformou as caves em objetos de fetiche da classe média brasileira. Mas será que estamos projetando adequadamente esses ambientes?

Existem alguns elementos sugerindo que não. Em primeiro lugar, cada família tem um padrão de consumo diferente, o que deveria resultar em projetos diferentes. Além disso, são raros os padrões de consumos elevados ou de vinhos de guarda, o que aponta para um certo exagero no dimensionamento de muitas caves residenciais.

O projeto desses espaços, assim como de quaisquer outros espaços internos de residências, depende de uma série muito grande de fatores. Elenco abaixo apenas alguns deles, os quais considero de grande importância:

Luz: o vinho exige a menor luminosidade possível, no máximo uma penumbra escurecida. Projetos de adegas e caves com muito vidro são ótimos para exibir as garrafas, mas péssimos para quem pretende consumir o conteúdo delas. Vidro só funciona se o ambiente externo a ele também estiver no escuro. Da mesma forma, a iluminação artificial (lâmpadas) internas ao ambiente também devem preferir baixa intensidade luminosa e cor mais amarelada (temperatura de cor abaixo de 4.000K). Fuja dos raios UV da mesma forma que os vampiros.

Temperatura: o vinho exige temperaturas entre 9 e 17 graus, com a maior estabilidade térmica possível. Mais um motivo para evitar vidros. Também é melhor evitar o contato com paredes externas, principalmente aquelas que recebam maior insolação durante o dia. Se não for possível evitar o perímetro da casa, prefira as paredes que recebem menos sol. Da mesma forma, quanto mais alta for a posição da adega, pior. Fuja do telhado.

A melhor localização é no centro da casa, preferencialmente num subsolo. O controle de temperatura pode ser: a) passivo, ou seja, sem qualquer auxílio de refrigeração, o que caracteriza a cave francesa. Esta opção costuma ser a mais adequada para 99% dos casos e, ao contrário do que muitos acreditam, tende a ser mais charmosa que sua alternativa com apoio elétrico; b) refrigerada, seja termoelétrica ou com compressor, ambos de acionamento elétrico. Esta última modalidade é mais recomendada para quem tem grandes coleções e vinhos especiais de guarda. Além de consumir energia elétrica com a refrigeração, tem maior custo inicial, o compressor costuma ser ruidoso (pense no ruído de um frigobar moderno). E só faz sentido para ambientes um pouco maiores, o que também exige maior investimento nesses equipamentos de apoio. Em geral, o termo adega se aplica àquelas refrigeradas artificialmente.

Mobiliário: existe um certo padrão de posicionamento de garrafas na posição horizontal (deitada) para as garrafas, mas isso também só faz sentido para as garrafas de guarda, aquelas que devem envelhecer na garrafa e possuem uma data ótima de abertura. Isso acontece porque esses vinhos precisam manter a rolha umedecida por muito tempo, de forma a mantê-las expandidas e não permitir a entrada de oxigênio. Como esses rótulos costumam ser mais caros, ainda são poucos os consumidores brasileiros que realmente necessitam da guarda horizontal em casa. A grande maioria do consumo nacional é de outras modalidades: tintos jovens, vinhos brancos de consumo no curto prazo, espumantes, Porto, etc. Para todos esses, a guarda não precisa ser horizontal, o que pode ajudar na economia com mobiliário (coleções menores) e deixar os rótulos à mostra, facilitando a escolha. Há, inclusive, rótulos caríssimos de vinho do Porto armazenados há décadas na posição vertical, sem qualquer prejuízo de qualidade.

Umidade: outro erro comum é achar que as caves precisam ser secas. Esse mito vem das vinícolas, onde parte do processo produtivo exige isso. Mas quando o vinho já está na garrafa, o ideal é o oposto: a umidade é desejada, para que a rolha receba o incentivo para seu bom desempenho também pelo exterior. O ideal é manter a umidade relativa (UR) do ar em patamares superiores a 70%.

Corte da coleção: essa também é outra bobagem que ouço de clientes: a informação de que a adega ideal tem que ter x% de brancos, y% de tintos e z% de espumantes. Ora, para quem é esta cave? Se você tiver, por exemplo, paixão por espumantes, sugiro que lote sua casa com este tipo. O projeto é para você, não para outros. Invista no que te faz feliz.

Espero ter ajudado um pouco com essas dicas rápidas. O mais importante é: uma cave ou adega climatizada adequada para quase todos os casos não precisa ser cara. Aliás, em geral, costuma ser de baixo custo em algumas regiões do país. E algumas das mais baratas são também as mais eficazes, bonitas e charmosas.

Leia também:

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.