William Handorf: Gerenciamento de capital na economia global e indicadores de risco – anotações pessoais


Palestra de William Handorf – anotações pessoais
Gerenciamento de capital na economia global e indicadores de risco
Fecomercio, São Paulo, 24/08/2011, 9h às 13h

William Handorf
Ex-diretor do Fed (Federal Reserve) de Richmond. Professor do Departamento de Finanças da George Washington University. Diretor do Federal Home Loan Bank de Atlanta. Publicou diversos artigos em vários journals sobre banking, mercado imobiliário, seguros, educacionais, entre outros. Tem ampla experiência nos setores público e privado.

Mesa:
Milto Bardini – Conselheiro da ABBC – Associação Brasileira de Bancos
Manuel Enriquez García – Presidente da Ordem dos Economistas do Brasil
Paulo Rabello de Castro – Presidente do Conselho de Planejamento Estratégico Fecomercio
Francisco da Silva Coelho – Diretor Educacional e de Negócios da ABBC
Antonio Claudio Paiva – Sócio-Diretor da Analitix Soluções em Finanças

Paulo Rabello de Castro: a crise de 2008 começou muito antes, aquele ano foi apenas o sintoma de uma doença mais antiga. Já dava sinais aparentes em 2001 (early warning signs), mas a resposta do Fed foi apenas monetária, na época. O downgrade dos EUA em agosto pela S&P foi uma reação talvez exagerada à extensa crítica que se fez às agências de rating em 2008 por não terem sinalizado previamente o risco que havia nos títulos das hipotecas norte-americanas (eram AAA). Mas o downgrade de 2011 só ampliou o risco, em vez de apenas sinalizar (que seria a função do rating).
Fato é que as agências de risco não estão conseguindo antecipar fatos econômicos desagradáveis. Antes da maio de 2009, várias agências já haviam identificado a falta de condição dos EUA continuarem AAA.
Este é o papel da agência de risco, analisar antes. Portanto, é normal e até esperado que criem estranheza, mas não é esperado que criem pânico. Mas em vez de sinalizarem o futuro, viraram market followers.

Manuel Enriquez García: desde 2008, houve piora do cenário macroeconômico. Acredita que a crise não chegará ao sistema bancário brasileiro.

Milto Bardini: Demonstrou temor. Citou a resolução CMN 3988 que determina a implantação de estrutura de gerenciamento da capital para a estabilidade do sistema financeiro brasileiro. Espera que a reflexão do evento auxilie os gestores e apontou a necessidade de alinhar o Planejamento Estratégico às perspectivas legais e de mercado. Vê conflitos nas assimetrias Legal x Mercado com competição desleal (unfair competition). Hoje vemos os sintomas da mesma doença de 2008, e devemos ficar atentos porque as recaídas costumam ser as mais perniciosas. Devemos nos preocupar com o controle de endividamento do setor público. Possivelmente haverá eventos de defaults nos próximos tempos.
Basileia III exige pisos mínimos para capital principal e limita a alavancagem com o objetivo de criar um sistema bancário mais sólido e com maior capacidade de absorção de perdas.

William Handorf: efeitos adversos exigem maior atenção à liquidez e ao perfil de risco de empesas ou países. Destacou que apesar do downgrade de seu banco  (que ocorreu em consequência do downgrade dos títulos do tesouro americano), ele continua fazendo empréstimos, está líquido e lucrativo. Pediu para pensarmos nas ameaças e oportunidades de nossas empresas. Acha que existirá Basileia IV, V, etc., mas muitos problemas continuarão ocorrendo por inabilidade em gerenciar riscos de empréstimos. Vê similaridades preocupantes com o mercado imobiliário brasileiro .
O mercado imobiliário americano viu um crescimento de renda e de preços de imóveis gigantesco em poucos anos, mas não acompanhado pelo aumento da receita. Lá o mercado imobiliário também foi incentivado por juros em queda, que provocava a alta dos preços de imóveis.  Os especuladores ganhavam muito com a apreciação dos imóveis. Era muito fácil financiar e refinanciar imóveis, pois os juros eram baixos e o ativo (imóvel) não aparava de se apreciar. Aliás, se apreciava tanto que era possível fazer financiamentos pagando apenas o serviço da dívida, sem pagar o principal. Wall Street pressionava ainda mais por ampliar o crédito, e os agentes tinham incentivos para exigir cada vez menos. Mas as famílias pobres ficavam com menos acesso aos imóveis, o que incentivava os bancos a criarem “financiamentos inovadores” (ou seja, de alto risco). Os prazos ficavam mais longos. Algumas famílias não poderiam pagar o financiamento, mas como todos acreditavam que os imóveis continuariam se valorizando, obtinham crédito. Quando a renda não era suficiente, o agente imobiliário ajudava a criar itens fictícios para dar em garantia. Todos os fundamentos bancários básicos de crédito e financiamento foram deixados de lado (caráter, capacidade de capital, colateral, condições). Eram empréstimos baseados em mentiras.
Mas a festa acabou em 2006, quando os preços pararam de subir. Eles não sabiam que havia terminado, acharam que era apenas uma pausa. A partir de então, os preços dos imóveis entraram, a partir de 2007, numa espiral de queda de 35%! O setor imobiliário deve ser observado com atenção, é muito importante para a economia.
Empréstimos de 100% significam problemas futuros. As consequências são as falências bancárias, foram centenas nos EUA. É uma vergonha para os EUA não terem aprendido com a história (achavam que era um cisne negro).
Quando pensa em bancos estatais, Handorf diz pensar em Brasil, China, Índia. Os bancos estatais dos EUA fracassaram com swap de crédito. Esses bancos assumiram hipotecas de alto risco (compraram valores imobiliários baseados naqueles empréstimos).
Por que as instituições falham? Principalmente devido a problemas de gestão.
O mercado só gosta de bancos que crescem ou têm potencial de crescimento. Bancos que não crescem mais têm dificuldades de financiamento.
O problema começa quando a planilha de demosntrativos contábeis cesce mais rápido que o capital. A pressão sobre os gestores aumenta, há recompra de ações, o capital aumenta. Porém, reduz a liquidez e aumenta a exposição ao risco! A solução passa a ser encolher o balanço. O acionista reclama, o preço da ação cai.
Qualquer empresa tem custos fixos que não caem, portanto ficam mais relevantes. As falhas nos Planos de Negócios ficam evidentes. Para não irem à falência, alguns bancos incorrem em fraude. Os demonstrativos deixam de mostrar a realidade.
Sinais de alerta para problemas: a) relatórios financeiros em atraso; b) crescimento rápido; c) novas atividades não explicadas; d) lucro ou bonificações baseadas em produção; e) controle fraco; f) alto turnover de gestores; g) ….. (não tive tempo de copiar)…..
Handorf avaliou reports norte-americanos e encontrou algo errado em um terço deles.

O que os gestores deveriam perguntar a si próprios:
1.    Eu tenho o diretor certo?
2.    O que o mercado acha da minha empresa?
3.    Eu tenho um business plan adequado?
4.    Eu tenho um sistema de gerenciamento de riscos adequado?

Em 2007, Handorf já considerava o grade AA um cisne negro real para os EUA. Hoje o desemprego americano é muito desanimador. O consumo encolheu muito. Há baixa confiança e capacidade de pagamento de empréstimos. Na crise de 2008, os valores nominais dos títulos estavam negativos! Isso significa que o investidor preferia perder um pouco em títulos que depositar em bancos como o Citibank! A perda de confiança no setor bancário provocou baixa de capital, e não havia como viabilizar empréstimos .
O Bank of America passou a fazer empréstimos apenas para quem cumpria muitas exigências e garantias realmente boas. Caso contrário, não emprestava para outros bancos. E para os bancos pequenos, esta garantia tinha que ser em Atlanta!

Os bancos viram uma situação inédita em 2008: perdas em valores imobiliários. Não havia diversificação. Além disso, o risco imobiliário é alto porque a propriedade passa muito tempo em desenvolvimento, não há fluxo de caixa enquanto não termina. Todos os bancos falidos tinham baixo índice de risco, baixo capital e haviam crescido rapidamente.

Handorf avalia que os bancos brasileiros são muito diferentes dos norte-americanos. No Brasil, os índices de lucratividade são muito maiores.

Antonio Claudio Paiva: o principal é capital + liquidez. Há necessidade de colchão de liquidez e funding estável.

Milto Bardini: reclamou de assimetria de exigências – as regras deveriam ser coercitivas a todos. O consumidor final está pagando a conta da crise que nem foi provocada aqui.

Paulo Rabello de Castro: atenção ao sistema bancário chinês, que não deve estar estável.

William Handorf: o retorno requerido é arbitrário. Apresentou o modelo CAPM para Retorno Requerido), um dos mais conhecidos e adotados no Brasil. O beta é selecionado a partir do rating, ou seja é tudo baseado numa opinião.
Os EUA foram muito críticos em 2008, porque as empresas que estavam falindo e os títulos sem lastro eram AAA. Mas isto não estava errado, as empresas cumpriam requisitos estatísticos de pagamento. O grade AA é um “olho roxo”, mas vão sobreviver.
O grade indica a probabilidade de default. Para obter melhor grade, precisa haver: maior capital, maior retorno sobre ativos (ROA), menor variabilidade de ganhos, maior tamanho de empresa, menor risco de portfolio e uma gestão eficaz.
Para os bancos, há também uma medida de força financeira, que é a probabilidade de precisar de auxílio.
Em seguida comparou dados de bancos brasileiros e dos EUA, ressaltou a importância da diferença entre Retorno sobre capital próprio (ROE) e Custo do capital próprio (COE).

Basileia III
Exige maior capital, mais capital próprio, mais capital contra-cíclico. Terá que haver aumento do capital próprio no financiamento de bancos. Handorf mostrou o cálculo do custo de capital pelo WACC e mostrou como o capital de dívidas é mais barato que o capital próprio. Segundo Handorf, um custo de capital menor é uma vantagem estratégica gigantesca. Basel III exige mais financiamentos de longo prazo e financiamentos adicionais de curto prazo. Evitar risco de crises de liquidez (excesso de saques inesperados), como ocorreu em 2008 e 2009, onde bancos AAA não conseguiam nenhum centavo de outros.

Conselho final: pense em seu cisne negro (potenciais riscos). Assegure que todo risco está identificado, medido e controlado. Para o Brasil: pensar no que aconteceria com os riscos de colapso de infraestrutura. Pensar no que aconteceria se os preços imobiliários caíssem 10% subitamente. O setor bancário brasileiro tem mais capital que os americanos, mas há importantes desafios de liquidez.

Paulo Rabello de Castro: segurança é cara. E o Brasil já é um país caro. Devemos ter cuidado com o que estamos nos tornando. O reguladores jamais eliminarão o risco (nem atenuam), apenas criam formas inteligentes de lidar com ele. O risco é inerente à existência. Os governos criam muito risco tentando eliminá-lo.

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